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Miguel Varela 02 de Abril de 2020 às 20:40

A necessidade aguça o engenho… (a covid-19 e a educação)

Os professores do ensino superior representam hoje uma classe envelhecida e avessa a tecnologias, em que a substituição dos retroprojetores de acetatos pelo PowerPoint levou anos a concretizar, assim como as máquinas de escrever pelos computadores.

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A saúde e a educação são as áreas sociais mais sensíveis no que toca à governação, não só em Portugal, mas em todo o mundo.

Portugal tem uma educação muito tradicional, conservadora e resistente à mudança no que concerne, em especial, a modelos pedagógicos. Portugal tem uma política de saúde igualmente conservadora, no que se refere a financiamento, acesso e sistema, refém de poderosos grupos de interesse e de pressão.

Nunca a saúde teve tanta influência na educação, ainda que indiretamente, por via da pandemia que assola o mundo.

No que toca ao ensino superior, público ou privado, o ensino à distância sempre foi alvo de polémica e discussão, em especial no que se refere a cursos conducentes a grau académico. Em Portugal, resume-se praticamente, por força da legislação, aos cursos da Universidade Aberta. Muitas outras universidades já tinham na sua oferta formativa cursos online, nos modelos de e-learning e de b-learning, mas sobretudo em pós-graduações ou formação de executivos, com destinatários muito específicos.

Os professores do ensino superior representam hoje uma classe envelhecida e avessa a tecnologias, em que a substituição dos retroprojetores de acetatos pelo PowerPoint levou anos a concretizar, assim como as máquinas de escrever pelos computadores. Mesmo os docentes mais novos, mais apensos à utilização de tecnologias, foram formatados num modelo de ensino, o qual têm tendência a replicar nas suas aulas para as novas gerações e, por isso, resistem a sair da sua “zona de conforto”.

Nem os alunos estavam preparados para um modelo tão disruptivo, mesmo os das novas gerações, que perdem a “humanização” e a “socialização” tão importantes para desenvolver competências pessoais. Sim, a universidade também é socialização e crescimento, em que a dimensão física e a humana são fundamentais.

Muitas universidades estudam e preparam há anos várias dinâmicas de substituição progressiva de campus físicos por campus virtuais. Mas aquilo que sempre se afigurou difícil de implementar em anos de planeamento aconteceu, por força das circunstâncias, em poucos dias. Uma autêntica revolução pedagógica que mobilizou as universidades, os docentes e os alunos, como forma de manter a “normalidade” letiva e os ritmos de aprendizagem e trabalho.

As instituições de ensino superior deram uma prova de grande visão e flexibilidade, antecipando-se a quaisquer diretivas e orientações da tutela ou da A3ES, que reagiram já tarde, limitando-se a legitimar as ações desenvolvidas pelas universidades e politécnicos. Observar professores com mais de 40 anos de ensino e alguns com mais de 70 anos de idade, a utilizar plataformas de ensino à distância (moodle, teams, zoom, skype e outras) foi uma vitória pedagógica surpreendente e gratificante. Uma resposta madura a uma situação histórica repentina e excecional, que a isso obrigou.

 

O ideal seria podermos regressar em junho ou julho à “socialização e humanização” das salas de aula.



Infelizmente, um modelo “desenhado” em poucos dias tem as suas óbvias limitações. Uma, são os hábitos e os ritmos de trabalho à distância; outra, a “legitimidade” e a “veracidade” das avaliações de conhecimentos mas, sobretudo, a mais sensível, que é a disponibilidade de meios por parte de todos os alunos, nomeadamente computador multimédia e acesso à internet, o que está longe de ser uma realidade universal, pelo que a tutela estuda a possibilidade de canais televisivos com aulas para todos os níveis de ensino, como aconteceu nos anos 60 a 80 em Portugal, com a telescola. Uma perfeita simbiose inteligente entre o passado e o futuro, já que, segundo o CENSOS, 99% da população tem acesso a televisão e a maioria até tem mais do que uma em casa.

Para que tudo isto resulte como experiência muito enriquecedora, o ideal seria podermos regressar em junho ou julho à “socialização e humanização” das salas de aula e ser possível realizar as avaliações de conhecimentos de forma presencial. A interação humana no ensino, mesmo sendo reduzida, será sempre insubstituível. Assim se testaria, de forma fidedigna, o sucesso deste modelo de “emergência”, que talvez tenha vindo, em parte, para ficar, num modelo pedagógico misto.

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