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Nicolau do Vale Pais 08 de Março de 2013 às 09:42

Aos idiotas que governam a Europa: a Suécia já foi pobre

Não há nada melhor para disfarçar a falta de talento do que uma "boa" mensagem.

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Não há nada melhor para disfarçar a falta de talento do que uma "boa" mensagem. Ando divertido, como um cemitério, com um novo "soundbyte" que por aí gira, de forma mais ou menos oficial: o de que o Governo tem um "problema de comunicação". Supostamente, a nossa compreensão deste "problema" aliviaria a má avaliação que do Governo possamos fazer, colocando os problemas da esfera governativa na esfera comunicacional. Bom truque; mas não basta para nos aliviar das previsões de Gaspar, que é como quem diz, de mais impostos e menos economia.


Condenar um país à pobreza é um discurso idiota e muito perigoso. Portugal, em particular, vive com este estigma há décadas, edificado que foi pelo Estado Novo, que lhe juntou ainda a demagogia suprema e beata de "colar" à pobreza, a dignidade; é alarmante ver a extrema-esquerda a partilhar hoje também destas hipocrisias néscias, com laivos de sectarismo vingativo perigoso e autista. Não me alongarei muito mais sobre estas evidências que Daniel Oliveira tão conhecedoramente explanou aos líderes do Bloco de Esquerda, em carta com que acompanhava, esta semana, o seu abandono do partido.


A verdade é que dá um jeitaço fazer de conta que o país é pobre; é um salvo-conduto para a demissão de todas as elites - sociais, políticas e económicas - da tarefa de justificar a sua própria existência. Condenado o país à pobreza histórico-institucional, tudo se explica sem responsabilidades políticas, da erosão da classe média até aos eucaliptos oficializados como política florestal: um pouco de fé, alguma resiliência e muita disciplina e tudo se ultrapassa, não é verdade, amiguinhos?


É. Até porque, certinhos, só a morte e os impostos. Mas a realidade comunicacional do "temos de empobrecer" é outra; o que ela visa, acima de tudo, é disfarçar a impotência generalizada em que o continente político se deixou tombar, por um lado, e criar uma sensação de fatalidade incontornável, pelo outro. Diminuindo as possibilidades de forma artificial, fica quase natural não se saber fazer política, apesar de nunca se ter feito mais nada na vida. Já sei, quer factos, não é, caro leitor? Aqui fica um, deixo à sua imaginação e conhecimento a extrapolação que se possa fazer para outras situações: Portugal tem a maior zona marítima da União Europeia e uma das maiores do mundo. O mar contribui para o emprego em Portugal com risíveis 2,3%. Assunção Cristas anunciou, num documento que "comunica bem", uma conjunto de intenções (entre energia "offshore" e outras megalomanias) que não passará disso mesmo, a não ser que Vítor Gaspar lhe dê ouvidos; duvido. Neste momento, não interessa à finança uma economia baseada em recursos; se não, deixa de ser finança e deixa de ser poder.


No início do século XX, viviam mais Suecos em Chicago do que em Gotemburgo - sim, é uma analogia com a "2ª cidade portuguesa", Paris. Só entre 1850 e 1910, terão deixado o país cerca de um milhão de habitantes; a paisagem torna-se rural, analfabetizada e controlada pela imposição moral religiosa - continua a analogia, portanto. Depois vieram as Guerras e a Suécia virou-se para a Europa; as exportações de ferro foram reinvestidas na criação (oh, pecado utópico!) na criação do Estado Social. Vieram os investimentos estratégicos, a Social Democracia, que por lá é uma maneira de achar que cabemos todos, em vez de ser uma desculpa para lambuzar os dedos no pote público, e pôr os contribuintes a pagar a incompetência alheia. Fim de analogia.


"O objectivo principal da Cooperação Sueca para o Desenvolvimento com Moçambique (...) - começando pela perspectiva dos direitos individuais e pela perspectiva das pessoas pobres no desenvolvimento, e focalizando-se em particular na mulher e nas crianças - é reduzir a pobreza absoluta, promovendo um desenvolvimento social-democrático rápido e um amplo crescimento económico sustentável. Este objectivo será alcançado através do apoio orçamental para a redução da pobreza, e a esforços direccionados a três sectores principais; governação democrática, agricultura e energia." É o que diz o "site" da Embaixada Sueca em Maputo, sobre a estratégia político-económica de cooperação com aquela ex-colónia portuguesa.


Há que não confundir o modelo de negócio com o modelo de Estado, sob pena de se tornarem autofagicamente incompatíveis. O que é válido em Estocolmo, é válido em Lisboa, ou mesmo em Berlim: nenhuma economia prospera com um exército de pobres.

 

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