Tudo muda
Falo também das previsões dos gabinetes de estudos de instituições financeiras não portuguesas, que expõem perspectivas de evolução francamente positivas. Diria mesmo, extraordinariamente positivas. Curiosamente, os receios agora são os de que a situação praticamente de "full employment" nos EUA e também perante a possibilidade de serem levados por diante os propósitos da administração Trump em matéria de investimentos de infra-estruturas e de política fiscal possam trazer consequências "demasiadamente" boas. O crescimento, nomeadamente na Europa, deverá ser mais do que se esperava, o desemprego - especialmente nos EUA - com esses níveis significativos de redução, a inflação começa a dar sinais de algum movimento ascensional, e estão, portanto, criadas as condições para uma alteração nas taxas de juro: primeiro pela Reserva Federal americana, que poderá suceder este ano, uma ou duas vezes, em seguida também o BCE poderá tomar a mesma opção, mantendo-se embora ainda em níveis negativos.
PUB
Os principais factores de incerteza são sobretudo políticos, em concreto Donald Trump e, noutro extremo, a Coreia do Norte. Mas, pode-se dizer que, por exemplo, os mercados bolsistas não têm querido saber dessa imprevisibilidade política. Estamos, pois, em ciclo de crescimento e até de alguma euforia reforçada pela vitória de Macron em França e pelo triunfo certo de um líder pró-europeu nas próximas eleições alemãs. É este clima que também se está a viver agora em Portugal. Com a saída do Procedimento por Défice Excessivo, mais os números do crescimento económico e os dados sobre o desemprego e a criação de novos empregos, tudo contribui, em absoluto, para a certeza de estarmos também perante um novo ciclo político. Agora, a preocupação deixa de ser tanto o défice e passa a ser mais a dívida (e o crescimento).
Até aqui há meses, os portugueses não queriam ouvir os líderes dos partidos que estiveram no governo anterior porque estavam receosos, mas esperançados em que António Costa e a sua equipa tivessem razão no que iam dizer. Agora que os números parecem sucessivamente ir confirmando essa razão, as pessoas passam a estar mais satisfeitas e tranquilas, mas talvez com outra disposição para ouvirem quem tem dúvidas, ou mesmo discorda, do caminho que está a ser seguido. É o mesmo, para me fazer entender melhor, quando alguém tem uma situação que o preocupa e não gosta de ouvir ninguém vir repisar esse tema. Mas quando já se está descansado sobre essa situação, já tem outra abertura para ouvir conselhos ou até avisos sobre os caminhos que se colocam em alternativa. Durante estes meses que passaram, muito se falou da necessidade de o líder do principal partido da oposição adaptar o seu discurso ao tempo que se ia vivendo. Alguns, como Pacheco Pereira e eu próprio, fomos alertando para a hipótese, que nunca se poderia excluir, de uma mudança súbita de cenário, nomeadamente externa, que pudesse, eventualmente, dar força às posições do presidente do PSD. Essa alteração não se verificou e, pelo contrário, têm-se solidificado todos os cenários optimistas e mesmo meta-optimistas sobre a evolução da economia portuguesa. Ora, em tal quadro, já não é uma questão de sugestão ou de adequação de discurso. Trata-se mesmo de uma obrigação de qualquer líder político, intervir, apresentar propostas, falar do presente e do futuro à luz da época nova que Portugal, a Europa e o mundo vivem, quer no plano económico, quer no plano político. Agora, se houver crise, será para todos, já não é só uma questão portuguesa. Havia uma canção portuguesa que foi à Eurovisão e que não ganhou, mas que foi muito popular e tinha um verso que dizia assim: "O vento mudou e ela não voltou." A crise de facto não voltou e se um dia acontecer de novo já será, também ela, outra, depois de um inesperado tempo de crescimento e de esperança.
PUB
Advogado
Mais Artigos do autor
Mais lidas
O Negócios recomenda