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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 09 de Fevereiro de 2009 às 11:47

A origem das espécies

Sim, a crise cria oportunidades. Mas gera ainda mais oportunismos. A demagogia anda à solta e não é apenas na Convenção do Bloco de Esquerda. Do gestor que invoca a crise para cortar custos ao político que o critica para ganhar votos, quem é mais demagógico?

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Sim, a crise cria oportunidades. Mas gera ainda mais oportunismos. A demagogia anda à solta e não é apenas na Convenção do Bloco de Esquerda. Do gestor que invoca a crise para cortar custos ao político que o critica para ganhar votos, quem é mais demagógico?

O Bloco de Esquerda é uma construção política em ascensão e sem equívocos ideológicos: os 10% que nele querem votar não vão ao engano. Mas os discursos da Convenção deste fim-de-semana revelam que o populismo perdeu toda a vergonha.

Fechando dois coelhos numa toca, Louçã chamou à reprodução produção e fez da natalidade economia: é o factor trabalho! Já duas notas de euros trancadas numa caixa nada fazem: é o factor capital. Os personagens - coelhos, dinheiro e Bloco - não precisavam desta rábula para ficar com a fama que têm. Vindo isto de Louçã, não é ignorância - logo, é demagogia.

O problema não é um discurso do Bloco, é a retórica da política. Em ano tri-eleitoral, a fartura de uns está na desgraça de outros. Será um autêntico bombardeio de populismos contra "o capital" e a favor "do trabalho".

Só há um tipo de gestores que nunca despediu nem despedirá: o dos que nunca contrataram nem contratarão. O emprego só é criado com crescimento económico e este depende de haver investimento, que depende de capital. E o capital flui, se flui, em direcção ao lucro: prefere as alternativas que geram mais rendibilidade. E isso é verdade no grande capitalismo como no pequeno aforrador: quem tem mil euros num depósito prefere o banco que dá maior taxa de juro, não aquele que contrata mais pessoas.

É esclarecedor ver, aliás, que aqueles que desdenham o capital são os mesmos que acusam os bancos de reterem o capital. Pois é: nem os mais produtivos coelhos conseguem, sozinhos, fazer mais do que... coelhos.

Esta atitude nos políticos não isenta, todavia, empresários e gestores nesta crise. A maioria dos despedimentos acontece pura e simplesmente porque não há encomendas, donde a capacidade instalada das empresas (seja capital/maquinaria, seja trabalho/mão-de-obra) está excedentária. Mas há outro fenómeno, menos visível, que, favorece os mais fortes e prejudica os mais fracos: o esmagamento dos preços pelos clientes grandes para os fornecedores, que têm redefinir o conceito de "dumping" para continuar a vender.

Aquilo que falhou não foi o sistema capitalista nem a economia de mercado, foi a desregulamentação e demissão do Estado do papel de regulador, a que se chamou neo-liberalismo. Foi um erro entregar o sistema à auto-regulação e isso tem de mudar para passar a tratar os génios da alta finança como se tratam os piratas informáticos: presumir que vão estar sempre um passo à frente das defesas construídas dentro dos sistemas. Mas há coisas que não falharam, começando pelo comércio livre.

O mundo está nervoso de mais para ter certezas, o que propicia a demagogia e o populismo. Quem tudo põe em causa, contudo, não está a ajudar os interesses colectivos, mas apenas os seus próprios interesses. Nas empresas e nas urnas de voto, todos sacrificam ideias pelo ideal de vencer. A vitória eleitoral sabe-lhes a lucro. São assim, as espécies.

PS: um dos ensinamentos da crise financeira é que estímulos errados levam a comportamentos errados. Ao avaliar funcionários do Fisco em função das cobranças (e não dos processos que concluem), o Estado não promove o espírito do melhor serviço, mas o da caça à multa. É o que eles querem, é o que nós vamos ter.

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