Quatro Casamentos e Um Funeral
Comentário, em jeito cinéfilo, no momento zero da coabitação com uma versão serôdia e quase sebastiânica de neo-cavaquismo (malgré lui).
Casamento Um - Goste-se ou não da OPA sobre a PT, uma coisa é certa, para as empresas e para a economia portuguesa, a partir de agora, «o futuro já não é o que era». Existem hoje, na UE, muitas dezenas de milhares de milhões de euros disponíveis para apoiar esta ou outra OPA, à espreita de «gordura» empresarial para «esquartejar». As regras do jogo já estão estabelecidas e são claras. Haja OPA ou contra OPA, serão sempre os financiadores e as suas exigências de rendibilização de muito curto prazo a comandar «o dia seguinte» que, ganhe quem ganhar, não será muito diferente.
Que se cuidem os (quase) monopólios «caseiros», protegidos da concorrência, alimentando-se de uma clientela cativa, hoje presas atraentes e fáceis para os «predadores» financeiros «globais» que se alimentam da ineficiência empresarial, onde quer que ela esteja. A «Bela Adormecida» mudou de guião e passou a chamar-se «O Baile dos Vampiros».
As empresas portuguesas passaram, assim, a barreira dos Pirinéus e já estão no mapa da Europa das grandes «manobras financeiras». Aqui, o «niet» político que nos tem «protegido» de Espanha já não funciona. Alguma coisa está a mudar (para melhor?).
Casamento Dois - Os indicadores económicos divulgados recentemente pelo INE são positivos do ponto de vista da «cura» necessária para que a economia portuguesa reencontre os caminhos do crescimento. Assim, entre o primeiro e o último trimestre de 2005 a economia passou consistentemente de uma situação de contracção, - 0,1%, para uma situação de crescimento a uma taxa de 0,7% (que, eventualmente, se terá mantido no início de 2006). Esta interessante dinâmica é acompanhada da desejável redução do papel da Procura Interna (que, no mesmo período, passa de um crescimento de 2,0% para uma redução de -0,1%), sendo substituída por um motor mais saudável, a Procura Externa Líquida, que passa de uma situação de contracção de - 2,1% para um crescimento de 0,8% (apesar da factura do petróleo).
Aliás, o faro «apurado» dos índices de confiança e da Bolsa já estão a soletrar a mesma mensagem. Os investimentos recentemente anunciados e a recuperação dos níveis de rendibilidade do sistema empresarial aí estão, quais «andorinhas económicas» de uma primavera que ainda vai demorar muito a chegar.
Este saudável processo de «reconversão» estrutural, que se começa a desenhar é confirmado pelo crescente perda de peso, no PIB, dos sectores tradicionais e da construção e obras públicas, substituídos por actividades de maior valor acrescentado, fabrico de máquinas e equipamento eléctricos e comércio de vestuário entre outras, que apresentaram, ao longo do ano passado, taxas de crescimento de dois dígitos. Explica-se assim, em boa parte, não só a reduzida taxa de crescimento do PIB (resultado deste jogo de contracção de sectores dominantes da actividade e de expansão de novos sectores) mas também o problema do crescimento do desemprego já que as novas actividades são menos intensivas em mão de obra e exigem um perfil de qualificações não disponível nos sectores em perda.
As más notícias vêm do investimento, que se manteve constantemente negativo explicando, por exemplo, a dificuldade em criar emprego para recém licenciados, indiciando um problema de fragilidade do tecido de PME e, quiçá, de desajustamento dos empresários nacionais às características concorrenciais do mercado global.
O desemprego, inevitável neste longo processo de «cura» pode, no entanto, levar a muito perto do «divórcio».
A agonia e o espectro da derrota antes do eventual (?) triunfo, «Star Wars - Episódios Todos».
Casamento Três - A Belém chega um novo inquilino entronizado com pompa, circunstância e espectáculo, uma novidade na nossa democracia, mas que não se coaduna nem com o País em crise nem com o Estado orçamentado a rigor. No início da sua acção que se anuncia «moralizadora» e «salvífica» (em contraste com o «Homem Normal» a quem sucede) o gesto primeiro, simbólico e ético, não confirma as intenções anunciadas. O Governo ganha margem de manobra mas o País não.
Entre «Moisés» (versão Cecil B. De Mille) e «Spartacus» (versão Stanley Kubrick).
Casamento Quatro - A Irlanda em Belém, a Finlândia em S. Bento, são faróis com que pretendem indicar-nos a boa direcção do Desenvolvimento. Sabemos, no entanto, que este é um processo complexo, específico de cada economia. Nos caminhos do Desenvolvimento pode haver processo comuns mas não há caminhos iguais.
No entanto, às vezes não é necessário ir muito longe. Basta repetir o que se sabe fazer bem. Desse ponto de vista, o modelo de criação e desenvolvimento, no nosso país, de uma indústria de componentes para automóveis tem sido um sucesso e, deveria poder ser replicado. A receita misturou, entre outros ingredientes, a «vontade estratégica» de sucessivos Governos, a instalação, em Portugal, de empresas lideres do mercado (criando uma procura «interna» exigente), PME dinâmicas e interessadas em investir e um conjunto importante de apoios financeiros do Estado (em todos os estádios da cadeia de valor a começar pelo investidor estrangeiro).
A coincidência da renovação de frotas aéreas, civis e militares e os programas industriais associados, tendo como protagonista um mesmo grupo industrial líder mundial do sector, proporciona uma oportunidade única e irrepetível de replicar, no sector da aeronáutica, o modelo que teve êxito no sector automóvel, em actividades que se ajustam ao nosso padrão de especialização e têm um importante efeito exportador.
Trata-se de fazer as nossas PME progredir nas redes de valor tecnológico europeias, consolidando o processo de transformação do nosso padrão de actividade industrial em direcção a actividades inovadoras incorporando processos, materiais e tecnologias modernas e envolvendo empresas, universidades e centros de T&D e sociedades de capital de desenvolvimento. De facto, o Plano Tecnológico em acção.
Definitivamente «Back to the Future»...
Funeral Um - O nuclear voltou a estar na ordem do dia. O problema da construção de uma central nuclear em Portugal tem sido largamente debatido, nem sempre nos termos mais informados.
Não interessa repetir argumentos mas apenas procurar questões importantes ainda não clarificadas. Uma delas, que tem estado quase totalmente ausente do debate, é a de «onde localizar a central?». Uma central nuclear exige «muita água», «ninguém nas proximidades» e «estabilidade tectónica». São critérios simples que, aplicados ao nosso país, limitam a eventual localização a uma de três alternativas: a costa Vicentina (e tenho dúvidas que cumpra o critério tectónico), as margens do Alqueva ou o Douro internacional. O simples enunciado das alternativas evidencia a impossibilidade de encontrar uma solução.
Trazer uma central nuclear para Portugal é como trazer um tigre para casa pensando que pode viver na gaiola do periquito, já que são ambos animais de garras...
Aqui, «Forrest Gump» impõe-se, naturalmente.
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