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O recente sell-off de acções europeias poderá ter deixado muitos investidores com os nervos à flor da pele.

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O recente sell-off de acções europeias poderá ter deixado muitos investidores com os nervos à flor da pele. Devido à conjunção de uma série de dados económicos avassaladores e de uma sucessão de acontecimentos preocupantes para o sector bancário em Portugal, a debilidade dos mercados europeus de acções e obrigações atingiu um nível que não se via há algum tempo. A respeito dos mais recentes desenvolvimentos em Portugal, eu diria que se trata de uma espécie de tempestade num copo de água. Não estamos perante um reacender da crise bancária da Zona Euro, e a probabilidade de contágio é muito baixa, graças às medidas tomadas pelo Banco Central Europeu (BCE) nos últimos dois anos. No entanto, perante o recente nervosismo do mercado, impõe-se a seguinte pergunta: houve alguma alteração conjuntural, e será necessário fazer algum ajustamento? A minha resposta é negativa. Previa-se uma retoma ténue e frágil da Zona Euro no decorrer deste ano, e é exactamente isso que está a acontecer.


É difícil negar que a dinâmica económica da Zona Euro tenha abrandado durante o primeiro semestre do ano, sobretudo na França e na Alemanha. No entanto, importa não esquecer que uma desaceleração não é equivalente a uma paralisação. A economia continua a progredir, embora a passo de caracol. Na Zona Euro, os dados económicos referentes ao mês de Maio não foram grande coisa. As vendas a retalho apresentaram um crescimento lento, e a actividade industrial sofreu uma contracção acentuada, o que levou alguns economistas a reverem em baixa as suas previsões de crescimento para o segundo trimestre. No entanto, estes economistas são provavelmente os mesmos que se mostravam demasiado optimistas numa fase inicial.


Não estamos nas ruas da amargura. Pelo menos, a desaceleração da actividade industrial em Maio poderá ser parcialmente atribuída ao calendário de feriados. Houve alguns que calharam numa quinta-feira, o que levou as pessoas a fazerem "ponte" para prolongar os fins-de-semana estivais. A França, por exemplo, teve três "pontes" em Maio. Quer isto dizer que o impacto negativo dos últimos dados poderá ficar atenuado nos números referentes ao mês de Junho. Além disso, estes dados negativos não estão em consonância com o Índice de Gestores de Compras (IGC) da indústria transformadora, que ainda apresenta valores elevados. Embora o IGC tenha descido desde Janeiro, continua a ser significativamente superior a 50, um valor fundamental, que marca a fronteira entre a expansão e a contracção.


Entretanto, a Grécia parece ter voltado a uma situação de crescimento, e a economia espanhola vai de vento em popa. A Espanha ainda apresenta uma taxa de desemprego superior a 25%, mas conseguiu criar cerca de 400.000 novos postos de trabalho no ano passado, e as suas medidas de reforma fiscal poderão significar um alívio de 9 mil milhões de euros para as famílias. A diminuição das restrições orçamentais, bem como o impulso proporcionado pelo aumento da confiança nalguns países, poderão igualmente estimular o crescimento. Desta forma, embora a economia europeia pareça ter perdido algum vigor relativamente à situação verificada há alguns meses, em termos absolutos, as coisas ainda estão bem, e deveremos continuar a assistir a um ritmo muito moderado de expansão da economia. As perspectivas de crescimento continuam limitadas devido aos contínuos ajustes competitivos, ao forte endividamento e ao fraco crescimento do crédito. Seja como for, esta lista de contrariedades seria mais extensa se estivéssemos a escrever este artigo há um ano.


A recente vaga de consolidação do mercado deverá ser considerada saudável, em vez de constituir um motivo de preocupação. É importante que os investidores tenham em mente que os mercados não se movimentam de forma linear, sobretudo no que diz respeito aos resultados. Os mercados europeus foram impulsionados pela expansão de múltiplos, pois os investidores começaram a comprar activos relativamente baratos numa economia que parecia estar a despertar. No entanto, como os mercados já não estão baratos, torna-se imperioso que as empresas apresentem lucros, para que seja possível obter novos ganhos e justificar os níveis actuais do mercado.


Nesta altura, verificam-se as condições necessárias para a obtenção de melhores lucros, e assistimos igualmente a uma redução do peso dos factores responsáveis pela obtenção de maus resultados no passado, como o fraco crescimento dos mercados emergentes e a valorização do Euro. O ponto fulcral para muitas empresas, porém, será o controlo de custos. Com um baixo nível de custos, mesmo um aumento razoável das vendas poderá traduzir-se num incremento das margens de lucro. A redução do crescimento económico que se verificou recentemente poderá repercutir-se nos lucros, e embora se preveja um crescimento positivo dos mesmos, estes deverão ser moderados em consonância com o desempenho da economia. 

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