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Eduardo Cintra Torres eduardocintratorres@gmail.com
20 de Março de 2009 às 12:50

[297.] Optimus, Givenchy

O conflito quando homem e máquina se encontram ou se fundem é antigo, mas nem por isso deixará alguma vez de originar novas narrativas. São quase sempre dramáticas, como as dos romances ou filmes I, Robot , 2001, Odisseia no Espaço ou Blade Runner . A publicidade também recorre com frequência à simbiose entre homem e máquina, mas deixa o drama de lado.

O conflito quando homem e máquina se encontram ou se fundem é antigo, mas nem por isso deixará alguma vez de originar novas narrativas. São quase sempre dramáticas, como as dos romances ou filmes “I, Robot”, “2001, Odisseia no Espaço” ou “Blade Runner”. A publicidade também recorre com frequência à simbiose entre homem e máquina, mas deixa o drama de lado.

O anúncio da Optimus é para rir. A narrativa passa-se numa biblioteca. O rapaz consulta livros nas prateleiras, afastado do seu portátil. Dois amigos aproximam-se deste, sorrateiros, e tiram uma e outra vez da porta USB a ligação à internet sem fios: o rapaz cai fulminado do alto da escada, ou bate com a cabeça num armário antes de cair ou chão, ou estilhaça a vitrina dum expositor.

O anúncio visualiza de forma divertida o slogan “Já não funcionas sem internet”. Se não se “funciona”, isto é, se não se pode passar sem, “morre-se”: é o que acontece ao rapaz. Quando voltam a ligar a pen, ele renasce. A consulta pela internet é um vício para muitos milhões de pessoas; a ficção da Optimus apenas lhe acrescenta a irrealidade da ligação dependente entre homem e máquina. O rapaz “funciona”, como uma máquina. Viver é funcionar e vice-versa, como os robots. Este é mais um anúncio que procede à complexa (complexa de analisar) transposição de uma metáfora em palavras (“funcionar” igual a “viver”, não “funcionar” igual a “morrer”) para uma “realidade” visual literal.

O anúncio está bem realizado, o ambiente da biblioteca bem recriado. É curioso que a escolha recaísse sobre uma biblioteca — templo do livro culto — para ficcionar a dependência da internet. De facto, os recursos disponibilizados pela internet a estudantes como o do anúncio são, como sabem todos os professores, quer um poderoso auxiliar de pesquisa, quer um forte adversário da cultura profunda, que exige tempo, desejo de dispor do tempo, e que não é facilmente alcançável com buscas electrónicas. O estudante do anúncio, que “não vive sem internet”, dá um bom exemplo aos universitários: apesar do acesso fácil pela web, que tantas vezes prejudica os trabalhos devido à leviandade que circula por aí, este jovem anda à procura de cultura nos livros da biblioteca. Mas o anúncio tem uma mensagem inconsciente bem oposta: o jovem sofre violentamente pelo seu impecável empenho académico — por estar longe da internet, ele cai das escadas, bate com a cabeça, estilhaça um vidro. E, de facto, há alunos universitários portugueses, desabituados ou nunca habituados a ler, para quem ir à biblioteca é o mesmo que bater com a cabeça nas paredes.

Quem andava a bater com a cabeça nas paredes era eu, porque há meses que o anúncio da água de cheiro Pi Neo de Givenchy me fazia lembrar uma outra imagem e eu não sabia qual. Hoje, lembrei-me: a posição do rapaz, de braços abertos, peito e umbigo à vista, com a camisa aberta esvoaçando com o vento, sugerindo asas, o corpo lançando-se para a frente com um ligeiro movimento de pernas e ancas… este modelo é modelado, a meu ver, na Vitória, descoberta na ilha de Samotrácia, uma das mais famosas peças da estatuária grega, hoje no Louvre. A interpretação é minha, mas há outras pistas: segundo a promoção da Givenchy, o protagonista (o cliente ideal) é um “herói” sem medo de enfrentar o futuro, avançando para uma nova dimensão, é um “homem conquistador”: vitorioso, pois, como a destemida Vitória alada dos gregos, aqui transfigurada em “nova masculinidade” do século XXI. Como não iam cortar a cabeça ao rapaz para ficar como a estátua, escolheram uma pose em que a cara dele está sem expressão, como petrificado, como deus em pedra.

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