A síndrome da China
Na China, "vale tudo, incluindo arrancar olhos". O desabafo, de um candidato a investidor e exportador de produtos e serviços portugueses para o mercado chinês, fala por si. Ilustra as dificuldades de quem um dia sonhou em aproveitar, para...
Na China, "vale tudo, incluindo arrancar olhos". O desabafo, de um candidato a investidor e exportador de produtos e serviços portugueses para o mercado chinês, fala por si. Ilustra as dificuldades de quem um dia sonhou em aproveitar, para benefício dos seus negócios, as tentadoras taxas de crescimento de uma economia onde reina um ambiente de competição agressiva, talvez demasiado para os escassos trunfos detidos pelas empresas nacionais.
Tal como se costuma garantir em relação ao algodão, os números não enganam. A uma década de crescimento a um ritmo imbatível que nunca baixou, em termos anuais, da marca dos 8%, não correspondeu um aumento do peso da economia chinesa nas trocas comerciais e nos fluxos de investimento entre Portugal e a China. Pelo contrário.
Os esforços privados e públicos para mudar a situação foram insuficientes e não impediram, até, a redução da importância do mercado chinês na balança comercial portuguesa. O mesmo se pode afirmar em relação à concretização de projectos, muitos deles objecto de promessas e protocolos que nunca saíram do papel ou do plano das boas intenções. Investidores chineses têm vindo a abandonar Portugal e a aposta nacional naquele mercado é débil.
Sonhar é fácil. Pegar numa folha de "excel" e num "power point", fazer umas contas e traçar meia dúzia de objectivos, também. Mas é neste domínio que se cometem os primeiros erros na abordagem ao mercado da China. Há uns anos, Warren Buffett, questionado por que motivo era accionista da Coca-Cola, respondia que apenas aguardava pelo momento em que cada um dos 1,3 mil milhões de habitantes do "Império do Meio" passaria a beber, diariamente, uma garrafa do famoso refrigerante. Não admira que qualquer empresário fique entusiasmado com o mercado chinês, caso faça umas contas semelhantes. Só que os fabulosos números que surgem na folha de cálculo, são apenas a parte menos relevante da história. E, talvez, a mais perigosa e ilusória.
Entrar e crescer no mercado chinês é uma empreitada exigente. É necessário aceitar perder dinheiro durante alguns anos e dispor de músculo financeiro para aguentar a situação, enquanto se faz a prospecção do mercado, se encontram parceiros locais, se conquista a sua confiança, se estabelecem relações pessoais e, no caso de grandes investimentos, se arranjam os contactos políticos que podem ajudar a garantir que tudo correrá bem. Ou seja, é preciso tempo e paciência, duas características que, regra geral, têm pouco a ver com a forma de estar e actuar dos investidores nacionais, mais interessados nos retornos rápidos do que em corridas de fundo.
A imagem de Portugal também conta. E ainda mais quando estão em causa sectores tradicionais. Para um potencial importador chinês, os vinhos são franceses, a roupa e o calçado serão italianos. No curto prazo, não há volta dar. É por tudo isto que a visita que uma delegação de empresários chineses inicia hoje a Portugal pede que se baixem as expectativas. Por um lado, porque Hu Jintao não estará presente, quando se sabe que o capitalismo puro e duro da China não se joga sem o poder político. Depois, porque se trata de tentar avançar mais alguns metros numa prova que é uma difícil maratona.
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