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Frederico Bastião
03 de Julho de 2009 às 13:06

As macacadas de Merton e Scholes

Fiquei surpreendido esta semana quando um investigador francês mostrou que os macacos fazem trocas, ou seja, são capazes de comportamentos económicos como nós.

Fiquei surpreendido esta semana quando um investigador francês mostrou que os macacos fazem trocas, ou seja, são capazes de comportamentos económicos como nós.

Pois é, meus queridos leitores, afinal Adam Smith não tinha razão quando dizia que só os homens trocavam bens de forma deliberada e procurando uma vantagem, pois "ninguém viu um cão trocar ossos com outro cão". Os macacos gostam que lhes acariciem o pelo, que os penteiem e os catem, e o Professor Ronald Noe conseguiu mostrar que estes simpáticos animais estão dispostos a pagar nestes serviços a outros macacos que lhes forneçam, por exemplo, comida ou protecção. Mas Noé não se ficou por aqui e conseguiu também demonstrar que os macacos têm a noção do valor de bens e serviços. Este meu colega da Universidade de Estrasburgo treinou um macaco para encontrar comida, sempre na mira de receber uma recompensa do restante da "horda".

Ora, o mais interessante é que se este macaco descobrisse mais comida para o grupo tinha direito a mais tempo de "serviços", quer se tratasse de catar ou de pentear; e quando Noe introduziu um segundo macaco que também encontrava comida, a "remuneração" atribuída ao primeiro - e até aí único - macaco a fazê-lo caiu para metade em termos de tempo de prestação de serviços, passando o outro macaco a beneficiar deles no mesmo montante.

Fiquei admirado. Será que os macacos podem ir mais longe e construir uma sociedade economicamente organizada e até ter moeda? Resolvi investigar e descobri que afinal esta questão já é velha, e que há excelentes trabalhos produzidos no século passado, com destaque para os do meu colega escocês Mac Hacco, publicados no seu livro "On Monkey Businesses of Men and Apes".

Relata este meu colega que já no tempo dos descobrimentos os macacos eram usados nas trocas com os nativos, por ser mais seguro para homens e negócio. Com efeito, perderam-se às mãos dos nativos menos macacos que homens nas trocas, além de que o macaco voltava sempre para receber a sua recompensa enquanto que alguns homens fugiam com o produto da troca. Mais tarde, o macaco foi trazido para a Europa, onde continuou a lidar com valores: lembram-se do homem do realejo com o macaco com a caneca onde se depositava a esmola? E quem não recorda a presença frequente deste animal nos romances, de Edgar Poe a muitos outros, treinado para colectar valores, tarefa em que era exímio, realizando proezas impossíveis a muitos homens?

Para a sua análise empírica, Mac Hacco ensinou um símio a ser "trader", e o animal notabilizou-se pela habilidade que demonstrou, chegando a ser o proprietário de uma firma de corretagem até que, 10 anos depois, a Comissão de Valores descobriu. Consta que o presidente da Comissão terá dito nesse dia, quando foi informado: "mas que macacada é esta?" Porém, a verdade é que a realidade prova bem que os macacos estão aptos a jogar na bolsa. Com efeito, está hoje cientificamente provado que são capazes de contar até quatro sem se enganar e que conseguem distinguir o holandês do japonês, o que é mais do que sabe qualquer "trader". São também capazes de raciocínios complexos e de comportamentos não padronizados, o que num momento de turbulência nos mercados os torna mais eficazes que qualquer programa de computador, ilustrado no "paper" do nosso autor de título: "Monkeys, Not Sheep". E não confundem "comprar" com "vender", como Juan Pablo Davila, que não só fez esta asneira, como a tentar corrigi-la perdeu 0,5% do PIB do Chile.

Na mesma linha empírica, na Universidade de Timbukthree provou-se a excelência dos macacos nas operações financeiras: simulações históricas mostram que nunca um macaco teria cometido os erros do Long Run Capital Mangement, o fundo que foi ao fundo apesar ter na direcção dois prémios Nobel, Merton e Scholes. Curiosamente, ficou também demonstrada a vantagem de uma especialização por espécies: os orangotangos, com os seus longos braços, são óptimos para as salas de "trading de commoditties", sinalizando as operações a partir do ringue com notável facilidade; já as operações rápidas nas bolsas são particularmente adequadas aos ágeis chimpanzés; os "hedge funds" são o espaço por excelência para o mandril, macaco de rabo pelado; em contrapartida, os fundos de investimento exigem uma presença musculada, sangue frio e visão pachorrenta, de longo prazo, sendo próprios para um gorila.

Pois é, meus queridos amigos, ficou assim provado que, hoje em dia, os mercados financeiros se tornaram num autêntico jardim zoológico, onde vale tudo. E para ter sucesso basta estarmos dispostos a pentear macacos, pois eles são os melhores a gerir fundos. E a boa notícia é que não só não nos enganam nem roubam, como trabalham a troco de bananas. Frederico Bastião é Professor de Teoria Económica das Crises na Escola de Altos Estudos das Penhas Douradas. Quando perguntámos a Frederico se entregaria a gestão da sua carteira de títulos a um macaco, Frederico respondeu: "Por que não? São melhores que qualquer dos gestores que tive até hoje."

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