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Luís Mira Amaral 03 de Janeiro de 2005 às 13:59

China – a potência económica do século XXI (III)

Até 2008, o PIB deverá crescer 65%, tornando a China numa das zonas mais dinâmicas do planeta.

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10. O Crescimento Económico Chinês e o Peso da China no Comércio Internacional

O comércio externo cresceu em média cerca de 15% por ano no mesmo período. Em 2002, a China tornou-se no primeiro país a atrair mais Investimento Directo Estrangeiro (IDE) que os EUA (53.2 mil milhões USD para a China contra 52.7 mil milhões USD para os EUA) e, em 2003, cerca de mil milhões USD / mês de IDE foi para o Delta do Rio da Pérola, perto de Hong Kong, onde há clusters integrados de actividades manufactureiras para exportação.

Até 2008, o PIB deverá crescer 65%, tornando a China numa das zonas mais dinâmicas do planeta. Dentro de 10 anos, a China ultrapassa o Japão, tornando-se a 2ª economia mundial e, mantendo-se as actuais taxas de crescimento, em 2041 a China ultrapassaria os EUA, tornando-se na 1ª economia mundial.

A China é desde 2003 o 2º parceiro comercial da UE, a seguir aos EUA. O comércio bilateral China-UE mais do que duplicou desde 1999, atingindo 125 mil milhões de euros no ano passado. O défice bilateral da UE com a China atingiu 62 mil milhões de euros. Para equilibrar a relação comercial China-UE vão ser celebrados grandes contratos com empresas europeias (comboios rápidos, centrais eléctricas, automóveis, aviões comerciais).

Com o fim das barreiras alfandegárias (cotas) sobre a importação de têxteis, a quota demercado do vestuário chinês deverá passar, nos EUA, de 16% para os 50% e, na UE, dos 18% para os 29%.

As empresas de telecomunicações chinesas começam a concorrer nos EUA e UE, alavancadas pelo crescimento nomercado interno chinês (há dez anos apenas 1% dos chineses tinham telefone, hoje têm cerca de 40%, ou seja 600 milhões dos quais 300 milhões usam telemóvel). A Huawei Technologies, maior empresa chinesa fabricante de TC, está a ter grande êxito no Brasil, México e na Europa.

Em meados do século XX, praticamente toda a população vivia no campo:

Mais 25 milhões irão para as cidades o que implicará a construção de 600 novos centros urbanos até 2011 e as correspondentes infra-estruturas físicas.

Nos últimos cinco anos a procura mundial de petróleo cresceu 6.17 milhões de barris / dia. Para a China foram mais 2.06 milhões de barris / dia o que implica que desde 1999, um em cada três barris de consumo adicional de petróleo veio para a China. A China ultrapassou o Japão como 2º maior consumidor / importador de petróleo.

Quanto a consumos per capita, o consumo chinês ainda é baixo: Reino Unido - 10.4 barris / habitante / ano; Brasil - 4.3 barris / habitante / ano; China - 1.5 barris / habitante / ano.

Se a China se aproximasse do consumo per capita do Brasil, a procura global de petróleo passaria de 6 milhões de barris por dia para 16 milhões!

No que respeita ao carvão, a China ainda é auto-suficiente mas a este ritmo de consumo, tornar-se-á importadora. O carvão é responsável por 75% da procura de energia chinesa o que implica grande poluição.

A China é ainda o maior consumidor mundial de cobre, alumínio, cimento (50% do consumo mundial), consumindo também 25% do aço mundial.

11. As Marcas Chinesas Globais

As marcas chinesas estão a preparar-se para aparecer nos mercados globais. Empresas tais como Haier, TCL e Lenovo (que comprou a empresa da IBM fabricante de Pc’s) estão a tornar-se empresas globais graças à sua estrutura mista que lhes permite ultrapassar a fraqueza do sistema chinês: são conduzidas pelo objectivo capitalista de lucro, mas os accionistas maioritários são ainda entidades públicas recebendo, assim, apoios de braços governamentais, apoios esses próprios dum regime comunista. Por isso, estas empresas são chamadas «red-hat companies».

Os exportadores chineses não se confinam apenas às estratégias de volume. À medida que adquirem expertise migram para segmentos mais especializados de alto valor.

A velocidade com que os exportadores chineses têm sido capazes de dominar importantes tecnologias tem sido impressionante.

Têm, contudo, ainda uma desvantagem no que toca a produtos em que a escolha do consumidor estámuito ligada à qualidade do serviço. Em tais mercados, a falta de experiência no marketing global e na qualidade de serviço (q.s) é ainda evidente.

12. Clusters

Há um grande número de redes competitivas (Clusters) na China, cada uma composta por centenas de pequenas companhias (muitas familiares) situadas numa dada região e que operam como uma rede interdependente e com forte coesão.

13. Os Start-Ups Tecnológicos

Muitos gestores e empresários ocidentais julgam que os seus negócios «high-tech» são imunes à competição dos chineses, no que estão enganados.

Por exemplo, a Lenovo, o grande fabricante de PCs chinês, foi criado em 1984 por um grupo de cientistas chineses. Várias companhias chinesas usaram tecnologias «state-of-theart» criadas em laboratórios governamentais para desenvolverem produtos para o mercado mundial. Tais tecnologias sãomuito baratas porque o governo chinês assumiu os custos do seu desenvolvimento.

Por outro lado, essas start-ups são depois apoiadas pelos chineses que deixaram o país para estudar no estrangeiro e que hoje ocupam posições importantes no mundo empresarial ocidental.

14. A Capacidade de Gestão da China

A fraca capacidade de gestão é ainda o principal constrangimento à competitividade das companhias chinesas. Apesar de duas décadas de Joint Ventures (JV’s) e grandes investimentos na formação, os gestores chineses continuam a falhar nas tarefas críticas de integração e optimização de sistemas.

As empresas chinesas vêem ainda o «middle management» apenas como um link de informação e como controladores da disciplina laboral e não como parceiros para mais ideias e processos.

Os gestores chineses são bons a executar tarefas parcelares mas fracos na aplicação e integração de processos na cadeia de valor. A Gestão está condicionada a operar de acordo com os planos presentes, evitando tomar iniciativas aos níveis baixos.

Um exemplo evidente é o sector da defesa onde, apesar dos elevados investimentos, o complexo militartecnológico chinês falha na produção de avançados sistemas integrados de armas o que torna a China dependente de Israel e Rússia.

A situação está a melhorar mas levará anos a ultrapassar os bloqueamentos que permitem desenvolver empresas eficientes, desencadear processos inventivos, introduzir flexibilidade nos níveis intermédios de gestão e encontrar os compromissos (trade-offs) óptimos ao longo da cadeia de valor.

Neste aspecto a China difere do Japão uma vez que, neste, a gestão funcionava como vantagem competitiva e na China a gestão surge como uma desvantagem competitiva.

15. O Governo das Empresas Chinesas

Na China verifica-se ainda a predominância de personalidades dominantes, respeitando pouco as regras de «corporate governance», com pouco peso nos «boards» dos poucos gestores independentes que existem. Muitas empresas que estavam antes no sector público ainda têm pequeno «free-float» pois que muitas das acções, supostamente em mãos privadas, estão na posse de companhias holding não cotadas que são controladas pelo governo. Por isso, ainda há muitos braços governamentais dizendo aos gestores o que devem fazer...

16. As Empresas Públicas

Empresas das telecomunicações (China Mobile e China Telecom) são líderes mundiais pela escala de operação que têm, e como tal são potenciais players para operarem internacionalmente. Empresas dos sectores do carvão e aço têm conseguido fazer «turnarounds» e começam a ser rentáveis.

Começou um processo de fechar e vender as empresas inviáveis, mas em regiões em que não se criaram indústrias alternativas, há um grande potencial para sérias perturbações sociais. As ineficientes empresas públicas chinesas têm sido financiadas pelo sector bancário, agravando o que é um dos sérios problemas chineses: o mau estado do sector bancário. Também têm ainda preferência no acesso aos mercados de capitais e nas compras do sector público.

17. O Sector Bancário

A maioria dos bancos chineses está tecnicamente falida, com crédito mal parado 2 vezes superior à situação líquida e há o risco de o crédito mal parado aumentar se as condições macro se degradarem.

Os bancos estatais, que respondem por 90% do crédito concedido na China, ainda dão a prioridade na concessão de crédito aos «dinossauros» públicos, o que faz com que o sistema financeiro continue a contribuir para o domínio dessas empresas públicas.

Os bancos têm vindo a melhorar a sua gestão dos riscos de crédito pelo que a maior parte dos novos empréstimos já é rentável.

Cerca de 2% das famílias chinesas contribuem para cerca de 50% dos depósitos o que poderá por emcausa a estabilidade do funding bancário e gerar crises de liquidez.

As taxas de juro activas e passivas ainda são fixadas administrativamente com spreads a permitirem elevadas margens financeiras. Só recentemente é que os bancos foram autorizados a aumentarem os spreads para os piores clientes.

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