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Rui Pedro Batista Rui.Pedro.Batista@hotmail.com 21 de Dezembro de 2006 às 13:59

Este é que é o presidente da câmara

A escala é verdadeiramente brutal! Uma cidade, que é hoje o centro do mundo – e não apenas financeiro –, onde vivem cerca de oito milhões de habitantes. Que até 2030 quer atrair mais um milhão de pessoas, fixando a população em cerca de nove milhões de pe

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As 10 medidas do Plano

1 Criar casas para um milhão de pessoas e ao mesmo tempo melhorar as condições de vida das actuais; 
2 Melhorar os índices de mobilidade dentro da cidade acrescentando capacidade de transporte;  
3 Assegurar que todos os nova-iorquinos vivem a pelo menos 10 minutos, a pé, de um jardim ou parque;  
4 Desenvolver um sistema de suporte que permita que o sistema de distribuição de água se mantenha a funcionar correctamente no longo prazo;  
5 Implementar um manual de boas condições para as estradas, auto-estradas e caminhos-de-ferro;  
6 Melhorar a infra-estrutura de distribuição de energia; 
7 Reduzir as emissões que provocam o aquecimento global em mais de 30%;
8 Ser a cidade com o ar mais limpo dos EUA; 
9 Limpar todas as terras contaminadas da cidade de Nova Iorque; 
10 Abrir 90% dos canais de transporte de água para actividades recreativas reduzindo a poluição e a preservação das áreas naturais
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1. Uma cidade que parece um país!
A escala é verdadeiramente brutal! Uma cidade, que é hoje o centro do mundo – e não apenas financeiro –, onde vivem cerca de oito milhões de habitantes. Que até 2030 quer atrair mais um milhão de pessoas, fixando a população em cerca de nove milhões de pessoas e portanto um universo comparável, em termos de dimensão humana a um país como Portugal. Um presidente de câmara, que olhou profundamente para essa mesma cidade e chegou à conclusão que é preciso mudar quase tudo.

As premissas são estas: Nova Iorque pode perder a liderança dentro de alguns anos. Algumas das principais redes – eléctricas, de transportes –, estão à beira da ruptura. É preciso voltar a trazer gente para dentro da "grande maçã", é urgente convencer o Estado e os privados a investir. Em suma: é preciso avançar para o que é quase uma revolução.

Por todas estas razões e mais algumas, Michael Bloomberg acaba de anunciar um plano para mudar completamente a cidade até 2030. E fica o aviso: cidade que não compete. Por isso mesmo pode entrar em rota de colisão com o seu futuro. A verdade é que Nova Iorque pode orgulhar-se de uma história marcada pela ambição e pela vontade de fazer sempre mais e melhor. É preciso não esquecer que a sua estrutura de ruas foi desenhada para acolher um milhão de pessoas, isto há 150 anos atrás, exactamente quando foi projectado um dos maiores parques urbanos que existem: o Central Parque. O metro, uma das outras grandes estruturas que está perante um grande e profundo problema, tem 100 anos.

São estes alguns dos números que revelam o que é hoje a cidade de Nova Iorque. Uma grande cidade. Uma pequena potencia. Mas também um problema dentro de algum tempo. O que parece diferenciar o actual presidente de outros anteriores, ou actuais de outras grandes cidades é a coragem de dizer que é preciso trabalhar rapidamente. Por isso aí está. Um plano com objectivos ambiciosos e muita vontade para o conseguir implementar.

2. As 10 ideias-chave para mudar
A grande cidade, diz Bloomberg, perdeu a visão estratégia há perto de 50 anos. Por isso deixou de olhar para o futuro e entrou num processo de declínio. Diga-se no entanto, em abono da verdade, que o anterior presidente, Rudy Giuliani, iniciou nos anos 90, um processo de reconstrução da cidade. Foi sobretudo ao diminuir drasticamente os índices de criminalidade, que Rudy conseguiu devolver alguma esperança aos habitantes de Nova Iorque.

Nos últimos anos Michael Bloomberg, o homem que um dia deixou o seu confortável cargo de sócio na Salomon Brothers – em Wall Street afirma-se que foi simplesmente despedido –, e que fundou o império Bloomberg – que lhe permitiu chegar à lista dos 45 homens mais ricos dos Estados Unidos da América –, tem vindo insistentemente a referir que é preciso mudar drasticamente Nova Iorque. E eis que surge o plano de acção.

O objectivo de Bloomberg é genericamente transformar Nova Iorque numa cidade sustentável através de dez medidas (ver caixa com a descrição das medidas). Mas ao contrário do que estamos habituados, estas promessas não são vagas. Estão absolutamente quantificadas, na sua dimensão e no tempo. E a sua concretização vai ser acompanhada por um conjunto de cientistas, professores universitários, ambientalistas e especialistas em planeamento urbano.

O mais curioso neste plano de acção é que é acompanhado de um profundo plano de comunicação e "marketing". Tudo para envolver desde logo a comunidade. Mas também o Estado onde se encontra a cidade e os investidores privados que serão a fonte do alimento necessário para que todas as medidas sejam concretizadas: o dinheiro.


3. Nova Iorque hoje... Washington amanhã?
Mas nem tudo são rosas no plano de Bloomberg. Desde logo os críticos afirmam que é preciso dinheiro. E é um facto que Bloomberg apenas vai revelar em Março do próximo ano como é que pensa financiar esta imensa operação, catalogada por muitos como uma grande manobra de "marketing" e relações públicas.

O presidente refere que é preciso encontrar um mix entre fundos públicos, dinheiros privados obtidos através da emissão de um gigantesco empréstimo obrigacionistas e fundos privados obtidos através de parcerias público-privadas. Outras soluções como as que foram implementadas em Londres, como taxas sobre a circulação de veículos, também estão em cima da mesa.

A verdade é que não se sabe se por detrás deste plano a 25 anos está uma rampa de lançamento para Bloomberg chegar a presidente dos Estados Unidos da América. O mais importante é olhar para esta iniciativa como estimulo a desenvolver as nossas cidades. Que entraram objectivamente num plano de concorrência. A nível global, mas também a nível local. Veja-se por exemplo o que pode acontecer se a Lei das Finanças Locais receber a luz verde do Tribunal Constitucional e permitir aos municípios diferenciar a taxas de imposto cobrada sobre os rendimentos.

 Alguns presidentes estão a caminhar nesse sentido. Note-se, por exemplo, no processo de dinamização que está a ser seguido por Óbidos. Na parceria feita entre a Câmara de Coimbra e um promotor imobiliário com o objectivo de criar parques para a população, piscinas e outras infra-estruturas de lazer e no que se pretende fazer – ainda que de forma muito tímida –, com a sociedade que vai tentar revitalizar a Baixa de Lisboa.

Em suma é urgente que quem está à frente das câmaras municipais entenda que pode ser uma importante fonte de dinamização da economia e que tem obrigatoriamente de devolver para uso dos seus habitantes o património que possui. Os activos detidos têm de ser rentabilizados. E isso é apenas ser um melhor gestor.

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