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Mário Negreiros 21 de Setembro de 2005 às 13:59

O «mensalão» nosso de cada dia

Passada a perplexidade inicial, é natural que se busquem explicações até para os mais estapafúrdios acontecimentos. Encontradas as explicações, o que parecera inacreditável reduz-se à condição de consequência óbvia de circunstâncias evidentes. Mas isso só

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E é só agora e aos poucos que os brasileiros começam a perceber as circunstâncias evidentes que conduziram o PT - partido que elegeu o presidente da República com a promessa de renovar a política e de lhe injectar ética - ao naufrágio na lama do «mensalão», que reproduz e agrava o pior da tradição política brasileira.

Uma das explicações, escrita com clareza exemplar em artigo do jornalista Carlos Alberto Sardemberg (www.sardemberg.com.br) publicado no último dia 12 no jornal «O Estado de São Paulo» é especialmente interessante porque aponta para uma circunstância que não é exclusiva do PT e, pelo contrário, talvez seja comum a todos os partidos de todas as democracias contemporâneas: a perda de espaço e de poder dos militantes - que, envolvidos com causas que vêm representadas nos partidos em que militam, têm porém as suas vidas construídas fora deles - em favor de quadros que, possivelmente também envolvidos ideologicamente, têm as suas vidas - profissionais e financeiras, é disso que se trata - amarradas aos partidos. «Para um quadro, perder uma eleição é um desastre. O militante, aborrecido, volta para o seu escritório ou para a sua sala de aula. O quadro perde o emprego (?)», escreve Sardemberg.

Por mais espontânea que seja a origem de um partido, por mais que nasça da vontade generosa de melhorar a realidade, a tendência de qualquer partido é a substituição do empenho mais ou menos mas sempre um tanto romântico dos seus militantes pelo pragmatismo calculista dos seus quadros - no mínimo, por ser maior a disponibilidade de quem pode dar dedicação exclusiva ao partido. E ainda não é aí que reside o mal. Os ingénuos podem, por ingenuidade, ser cúmplices das maiores barbaridades, e é bom que os partidos contem com gente «do ramo». Quando se chega a certo nível de responsabilidade é mesmo natural que o político não faça nada além de política. O problema está mais em baixo, nos quadros intermédios, e assume proporções alarmantes quando contamina a base, em centenas ou milhares de empregos no próprio partido ou espalhados por autarquias, organizações não-governamentais, sindicatos ou empresas públicas controladas pelo partido. É aí, quando o partido se torna meio de vida para quem o controla e constitui, que mora o perigo. Os interesses partidários, nascidos do interesse público, confundem-se com os interesses de carreira dos quadros do partido. O ímpeto de mudar o mundo torna-se batalha pelo melhor emprego, os discursos perdem em substância e ganham em demagogia, as eleições perdem o sentido para quem não depende de quem está no poder para ganhar a vida, a política torna-se um jogo de intrigas, maledicências e banalidades que pouco ou nada têm a ver com a realidade dos que não estão a jogar.

Foi nesse caldo que nasceu o «mensalão». Estamos avisados.

PS: Qualquer pessoa minimamente madura é capaz de compreender que a cordialidade não é para ser usada com os amigos - para esses há o afecto -, e sim com os desconhecidos ou com os inimigos. Supunha um mínimo de maturidade em quem chegasse a ser alçado a candidato a presidente da Câmara de Lisboa. Estava enganado.

PPS: Carros, rua!

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