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Frederico Bastião
10 de Outubro de 2008 às 13:00

O "subprime" de Napoleão Bonaparte

Ontem saí da escola a meio da tarde, para tomar café, e no caminho lembrei-me de uma coisa: por que não comprar a Islândia? Sabia de antemão que nunca seria um bom negócio, mas também, pelo preço de um café, não podia pedir mais, além de que gostaria imenso, por vaidade, confesso, de poder dizer aos amigos que era dono de um país. Além do mais, gosto de tomar banho de água quente, coisa que na Islândia se faz sem sequer ter que pagar conta da água ou do gás.

Dirigi-me então ao meu banco, mas não é que, meus queridos leitores, o Sr. Antunes, o meu gestor de conta, me disse e mostrou, no écran do computador, que os russos estavam nesse momento a anunciar a compra, aparentemente porque tinham chegado à conclusão óbvia de que era mais barato comprá-la que invadi-la? Fiquei desanimado, mas, vai daí, o Antunes desabafa, visivelmente para me animar:

- Deixe estar, os gajos não sabem, mas vão ter sarilhos. É que os chineses têm a hipoteca.

Não pude deixar de sorrir e pensar que estava lavada a honra. Infelizmente, mal lavada. Veio-me logo à memória a outra vez em que tinha sido "fintado", quando quis comprar a Bélgica. Quando ia introduzir o meu lance no eBay, já os tipos tinham fechado o leilão. Parece que ninguém tinha dito aos belgas que a Bélgica estava a ser leiloada e eles não gostaram.

Vai daí, ao ver-me desconsolado com tudo isto, o Antunes disse-me:

- Olhe, ó Professor, não quer antecipar-se e pôr já uma ordem de compra, antes que alguém o faça? É que, se fica à espera, vai ver que lhe volta a acontecer a mesma coisa, chega tarde para o negócio. Não quer comprar os Estados Unidos? Mais um mês, mês e meio e o preço há-de ser bom.

– Mas não terei que dar alguma garantia?

– Que tal a parte de trás do seu quintal? Bem negociado, deve dar.

Veio à memória que era bem feito, pois os Estados Unidos tinham crescido no século XIX à custa de compras que fizeram a nações com problemas económicos. Foi o caso da compra da Luisiana à França de Napoleão, em 1803, por dezasseis milhões de dólares, naquele que é chamado o maior negócio imobiliário da História. E foi o caso do Alasca, proposto pelos russos aos EUA em 1859, mas, por causa da Guerra Civil americana, apenas comprado em 1867. Na altura, os russos receberam 7,2 milhões de dólares (menos de 1 cêntimo por 2 mil metros quadrados), o que alguns chamaram a "loucura de Seward", Secretário de Estado americano, ou o "jardim dos ursos polares de Andrew Johnson". Estas vozes calaram-se com as primeiras descobertas de ouro, em 1896, no Klondike.

Qual a surpresa, portanto, em que estejam à venda a Bélgica ou a Islândia? E, pelos vistos, se os Russos ou os Franceses comprarem os Estados Unidos, é só um acerto de contas com a História. Por mim, já me sentiria satisfeito com o Texas ou a Florida. Já imaginaram o que era dizer que ia passar as férias na minha propriedade do Texas e, à pergunta "Ah, sim, e onde, no Texas?" responder "É o Texas!"? Dar-me-ia um gozo enorme.

Mas, de repente, assaltou-me uma dúvida terrível. Estaremos nós a salvo? Não estamos em risco de nos acontecer como à Islândia? Não vão os espanhóis comprar-nos?

Fiquei preocupado, mas depois comecei a ver melhor o engenho e arte com que fomos construindo este pequeno cantinho à beira-mar plantado. Se o nosso país se tem dado mal nestes anos de crescimento, é agora que todos passam dificuldades que vamos florescer. Não fizemos o ajustamento orçamental quando crescíamos a 3% ao ano, para acabar por fazê-lo quando estávamos às portas da recessão. Deixámos o sector energético à deriva durante anos, e é agora, com a situação energética internacional em alvoroço, que vamos fazer uma dúzia de barragens, quatro centrais a gás e uma dezena de unidades de biomassa. Estamos tecnologicamente atrasados, mas, afinal, somos nós que fazemos o primeiro computador verdadeiramente popular, que vamos vender a todo o Mundo. Pois é, nós, portugueses, desistimos à primeira facilidade, mas dificuldades é connosco, não temos medo e estamos bem preparados para as crises. Querem provas?

Crise financeira generalizada, e o que fazem os outros? Injectam dinheiro do Estado nos bancos privados e têm sarilhos com os reguladores e autoridades da concorrência. A nós basta-nos o Governo mandar avançar a CGD – não há auxílios a privados, o Banco é do Estado e não há que perder tempo a discutir com os accionistas. Mais, os outros países, Espanha incluída, enfrentam uma crise no imobiliário desde meados do ano passado. Nós tivemo-la antes, numa jogada de antecipação, agora é só continuar a aguentar, que para nós não há nada de novo nesta frente. E se ainda não chega, vejam que Espanha, França e Alemanha estão tecnicamente em recessão. Cá, a nossa economia andou a arrastar-se durante meia dúzia de anos, neste momento só pode subir.

Portanto, há que estar optimista. E àqueles que ainda tenham receio de que nos esteja reservado o destino da Islândia – sermos comprados pelos russos – deixo o argumento final: quem, neste Mundo, tem dinheiro para comprar um país que, em 2009, vai ter um défice orçamental de 2,2% do PIB?

Frederico Bastião é Professor de Teoria Económica das Crises na Escola de Altos Estudos das Penhas Douradas. Quando perguntámos a Frederico o que acha que o Governo português devia fazer quanto à situação do sistema financeiro, Frederico respondeu: "É transformar os bancos em caixas de crédito agrícola."

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