Franquelim Alves 10 de novembro de 2006 às 14:59

O relatório Stern

Os catastrofistas do Armagedão ambiental e social exultaram com a publicação do relatório Stern e a sua visão negra do futuro da humanidade. Mas, como na fábula de Pedro e o lobo, o recurso ao exagero para criar falso alarmismo na sociedade e,...

Mas, como na fábula de Pedro e o lobo, o recurso ao exagero para criar falso alarmismo na sociedade e, a prova subsequente de que se trata de falso alarme, conduzirá a resultados contrários aos pretendidos, isto é, a desacreditar o verdadeiro combate contra a utilização ineficiente dos recursos naturais.

Passado todo o "spinning" mediático do anúncio do lançamento do relatório – que, aliás, gerou alguma polémica entre os media ingleses – a análise mais fria do dito documento tem vindo a por a nu as suas fragilidades factuais e a manipulação de valores apenas com o objectivo de influenciar a opinião pública.

É lamentável que a questão ambiental se tenha transformado numa arma de arremesso política. É ainda mais lamentável que uma luta legítima pela preservação dos recursos naturais e por uma vida melhor em sociedade se tenha transformado, por via de dogmatismos acientíficos, num processo justificativo do intervencionismo do estado e de restrições ao livre funcionamento da economia de mercado.

Nos últimos dias vários artigos e comentários têm surgido desmontando as premissas subjectivas de um estudo que, além do mais, tem o pretensiosismo – ao bom estilo dos planos socialistas – de projectar o futuro da economia e da sociedade mundiais não até ao ano 2200 mas até ao infinito!

Um desses comentários surgiu do antigo activista do Greenpeace Bjorn Lomborg. Lomborg publicou uma crítica certeira e objectiva às falácias do relatório Stern. Resumo apenas alguns dos aspectos realçados no seu artigo publicado no The Wall Street Journal de 2 de Novembro passado: 1

- As bases de cálculo do impacto no PIB mundial dos efeitos do aquecimento global têm implícito os seguintes pressupostos altamente duvidosos ou mesmo factualmente errados:

a) custo social por tonelada de CO2 de 85 US$ quando o mais reputado especialista da matéria (William Nordhaus da Universidade de Yale) o calcula em 2,5 US$;

b) o relatório pressupõe que o mundo continuará a emitir CO2 até ao final do século XXII (sim até quase 2200, onde termina a sua projecção explicita), pondo de lado que, necessariamente até lá, a inovação tecnológica terá conduzido à substituição do actual papel dos combustíveis de origem fóssil. Nessa base Stern estima que em 2180 as temperaturas terão aumentado 8 graus custando entre 11% e 14% do PIB mundial;

c) o relatório calcula uma anuidade do custo total previsto do efeito do aumento da temperatura utilizando uma taxa de desconto muito baixa. O efeito é que não só é tido em conta o factor tempo na diluição do peso do custo das emissões de CO2 - Nicholas Stern admite que entre hoje e 2100 o custo varie entre 0% e 3%, só atingindo 11% a 14% em 2180!) como a baixa taxa de desconto manipula grosseiramente o valor actual do impacto do aquecimento global!!

d) o relatório Stern "inventa" um cenário pior que o cenário mais catastrofista das Nações Unidas; depois da manipulação financeira anterior este novo ajustamento aumenta os 11% para 15%;

e) finalmente, uma vez que, o Sr. Stern considera que as populações pobres estão subestimadas pelo cálculo económico, faz mais uma correcção que atira o valor para 20% do PIB!!!

Os famosos 20% alimentaram os "headlines" na Europa, pretendendo equivaler o custo do aquecimento global ao efeito da depressão dos anos 20 ou ao efeito das duas guerras mundiais.

Porém, se eliminarmos, a massagem aos números descrita nas alíneas acima concluímos que os únicos números verdadeiramente consistentes com os pressupostos do relatório Stern são os que levam a concluir que entre agora e 2100 o custo do aquecimento global variará entre 0% e 3% do PIB mundial.

Ou seja, o número de 20% do PIB resulta apenas de uma visão totalmente negativa da evolução da humanidade nos séculos XXI e XXII não se admitindo qualquer salto tecnológico na área da utilização energética – o que me parece totalmente inverosímil dado o estado actual da investigação nestas matérias e o ciclo histórico de substituição de fontes de energia e de tecnologias de produção e vida em sociedade – e de uma manipulação grosseira da taxa de desconto dos custos futuros.

Um outro especialista conceituado da matéria – Richard Tol 2 – também produziu um "paper" fortemente crítico dos pressupostos e deduções do relatório Stern nomeadamente no que se refere aos pressupostos financeiros, às projecções macroeconómicas e ao impacto do aquecimento global no crescimento económico.

Estamos assim, cada vez mais longe, de efectuar uma análise séria numa base de custo-benefício, que nos permita determinar com alguma objectividade as políticas prioritárias ao desenvolvimento social e ao combate à pobreza.

O relatório Stern estima – de forma muito optimista – que gastar 1% do PIB mundial para combater as emissões de CO2 (450 mil milhões de US$) permitiria reduzir substancialmente a fome que derivará do aquecimento global.

Para além de não ser feita a conta aos benefícios do eventual aquecimento global – convém não esquecer que em certa fase da Idade Média a Islândia não era gelada e desenvolvia a agricultura e a acontecer haverá novas zonas do globo actualmente inóspitas que se tornarão férteis e habitáveis – o estudo não efectua uma comparação alternativa com outros tipos de investimento que possam ser mais eficazes no combate aos problemas da sociedade mundial.

O Consenso de Copenhaga é, desse ponto de vista, uma iniciativa muito mais positiva ao pretender elencar o tipo de acções prioritárias que poderiam ser tomadas com maior eficácia considerando um investimento de 50 mil milhões de US$. E as prioridades vão para a saúde, nutrição, água e saneamento básico e educação muito antes das preocupações com o aquecimento global. A própria ONU considera que com 75 mil milhões de US$ resolveriam grande dos problemas sociais a nível mundial.

A pior coisa que poderia suceder era que, a pretexto de um alarmismo exagerado se viessem a introduzir políticas de agravamento fiscal e de intervenção na economia que viessem a gerar processo de estagnação económica que conduziria a mais pobreza com consequências nefastas para a utilização optimizada dos recursos do planeta.

Acredito que depois de assentar a poeira mediática a emoção dará lugar à razão e as decisões tomadas pelas sociedades serão predominantemente baseadas no bom senso que trouxe o homem até ao actual estádio de desenvolvimento.


1 "Stern review", by Bjorn Lomborg – "The Wall Street Journal", 2 de Novembro de 2006.
2 "The Stern review of the economics of climate change: a comment" – Richard S.J. Tol, Economic and Social Research Institute, Hamburg, Vrije and Carnegie Mellon Universities.

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