O ser e o parecer
Na política, como na vida, há quem se dê mais ao trabalho de parecer do que de ser. Às vezes diria, até, vezes de mais com bom proveito imediato e em seu próprio benefício. Quase sempre com custos pesados a prazo e, em geral, por conta de um colectivo.
A verdade está sempre no ser. E pode estar ou não no parecer. Na nossa política actual, infelizmente, o ser tem coincidido pouco com o parecer. E ao parecer tem-se reconhecido a dimensão da eficácia que leva à adesão das pessoas. Ainda que o preço seja o da frustração fundada numa ilusão não concretizada, parece que a maioria dos "fazedores de opinião" não quer, ainda, reconhecer à verdade o papel fundamental que pode levar ao reencontro do país consigo mesmo. Daí a maior dificuldade da afirmação do discurso político realista, menos dado à demagogia, menos obediente à forma e ao estilo e mais preocupado com a essência das coisas, com as causas dos problemas e com as verdadeiras mudanças a efectuar.
Assente no pressuposto de que não se transmitem más notícias, o governo tem, sistematicamente, recusado o confronto com a realidade. Muitos aplaudem o método, afirmando que é por aí que o governo se conseguirá manter a salvo da rejeição popular. Ou seja, escondendo dos portugueses o verdadeiro estado do país. O que importa, dizem, é que haja uma atitude de aparente firmeza e uma declaração conseguida de apelo ao ânimo. A euforia do momento poderá amortecer a revolta da ponderação serena. Pouco importa o resultado do efectivo bem estar da sociedade: basta que esta esteja convencida de que o tem!
Um simples esgar sobre a História assustar-nos-á quanto à cultura democrática dos países onde tal método teve a sua expressão mais conseguida. A verdade manipula-se ao sabor dos acontecimentos.
Na apresentação do orçamento de estado, o governo, no bom domínio das técnicas de comunicação, que elevam ao absoluto o mero efeito da "impressão retida", apontou projecções que a oposição demonstrou serem irrealistas, imprudentes e de pouco rigor. Insinuou, o governo, ser isso apenas a expressão de uma chama carpideira de quem só sabe dizer mal. Agora, menos de trinta dias volvidos, o mesmo governo, com a desfaçatez de quem nunca se revê no seu próprio passado, vem alertar para um previsível cenário macro económico, para 2009, exactamente no sentido denunciado pela oposição…Ou seja, com argumento numa evolução ocorrida em menos de trinta dias (!!) o governo ensaia a justificação que, no futuro, utilizará para explicar o não cumprimento das metas orçamentais! A culpa, sendo, não pode parecer do governo…
No mais recente confronto com os professores, a Ministra da Educação garantiu, na entrevista que deu "em tempo real" com a realização da manifestação do passado dia 8, que, em circunstância alguma, cederia na questão da avaliação porque "não há outro modelo", porque "a maior parte das escolas estão a efectuar a avaliação" e porque ninguém, "nem ela" (porque o deveria estar???!!!), está acima da lei. Menos de 24h depois o seu Secretário de Estado, sem desmentido, deu a conhecer que a avaliação, afinal, não teria efeitos, em 2009, para a colocação dos professores, mas apenas em 2013!!! E, agora, com a solenidade de um conselho de ministros feito à medida – para aparentar a tomada de medidas de fundo – veio a confirmação de que, para o governo, pouco importa o "dito pelo não dito", ou vice versa, se disso resultar, mais uma vez, a eficácia do parecer em vez de ser, neste caso, a de governantes compreensivos, dialogantes e respeitadores…o que, como é público e notório, não corresponde à verdade.
As estatísticas dizem que o índice de pessimismo dos portugueses tem vindo sempre a aumentar. É normal. O governo frustra sistematicamente as expectativas que cria. É possível inverter a tendência. Para isso têm de ser convocados para a verdade. Porque têm qualidades que permitem superar as dificuldades e vencer os desafios, por mais difíceis que se apresentem. Sem ilusões!
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