Qual é o "mix" do património dos portugueses?
Em Junho de 2012, a poupança dos portugueses atingiu os 117% do PIB, segundos dados da APFIPP, o valor mais alto desde 2000. É curioso verificar que é nos períodos em que há menos condições de aforro que os portugueses poupam mais. Nos períodos de bonança, pensa-se menos em poupar e é pena, pois a poupança deveria ser um acto contínuo.
Mas, onde é que os portugueses investem? O Banco de Portugal publica regularmente as estimativas de património dos cidadãos portugueses (particulares), de onde se podem tirar conclusões algumas das quais curiosas.
A primeira é que o património não financeiro (habitação) era estimado, no final de 2011, em 379 biliões de euros, o que representa 51% do património total bruto dos particulares (749 biliões de euros). O património líquido estimado era, em 2011, de 575 biliões de euros (património activo - património passivo).
A importância do património habitação é constante desde 1990. Aliás o crescimento médio anual desta vertente de património no período de 1990 a 2011 foi de 12% ao ano.
O património habitação também é responsável pela grande parte dos empréstimos dos portugueses e pesa bastante na dívida total. Somos um País de proprietários endividados.
É também uma fonte de crédito malparado dos bancos, devido ao facto de muitos portugueses não terem condições para continuar a honrar os seus compromissos com o serviço da dívida respeitante aos empréstimos à habitação.
Outra conclusão, esta benigna, é que o valor em moeda e depósitos dos portugueses, em 2011, atingiu os 157 biliões de euros. É de salientar que no período entre 1980 e 2011, apenas no ano de 2003, baixou muito ligeiramente. Em 2011, o valor cresceu perante 2010 cerca de 5,78%. E no período de crise financeira (2008 a 2011), o valor cresceu quase 20% no período (5% de média anual).
É de facto um bom desempenho, quando comparada com a de outros países europeus como a Grécia e Espanha.
O investimento em títulos que não acções era diminuto (21 biliões de euros em 2011, ou seja apenas 2,8% do património total bruto. Já o investimento em acções e outras participações era, em 2011, de 101 biliões de euros (aqui pesam bastante as posições no capital de empresas não cotadas).
Um dos segmentos que tem sido mais castigado com a crise financeira e com o facto de os bancos necessitarem de produtos de balanço e não de produtos fora de balanço, são os fundos de investimento. Desde 2006, o valor das unidades de participação de fundos de investimento passou de 30,7 biliões de euros para 11,7 biliões de euros em 2011, isto é, caiu 62% em cinco anos.
Os seguros de vida e fundos de pensões que registaram, entre 1980 e 2010, uma subida consecutiva até aos 72 biliões de euros, caíram em 2011 para os 58 biliões de euros (uma queda de quase 20% num ano).
Quanto aos passivos, os empréstimos totalizavam, no final de 2011, os 158 biliões de euros e os créditos comerciais os 15 biliões de euros (ou seja, 173 biliões de euros de passivos).
O rendimento disponível dos portugueses no final de 2011 ascendia a 126 biliões de euros e, entre 1980 e 2011, apenas em 2009 e em 2011 houve um decréscimo anual do mesmo. Irá descer em 2012 e provavelmente continuará a descer em 2013, se as estimativas de evolução económica do Banco de Portugal e de outras entidades como a OCDE ou o FMI se confirmarem.
Economista Autor do livro Gestão de Activos Financeiros - Back to Basis
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