Verde, código, verde
Estava numa loja no Chiado. À minha frente um casal de turistas, ela japonesa, descontraída e simpática. A empregada, solícita, estende-lhe o terminal ATM. A japonesa olha à volta e, depois de confirmar a quantia, carregando no verde, tapa com a mão esque
Subitamente ficou séria, concentrada e, até, um bocadinho desconfiada. Inserido o código, comentou qualquer coisa com o marido, ao lado, e validou a operação, premindo novamente o botão verde. O recibo saiu pouco depois. Eu fui atendido a seguir. E vi-os afastarem-se à conversa, ela novamente descontraída e simpática, agora com um pequeno saco na mão.
Há dias, falava com colegas de profissão a propósito de comunicação financeira, uma especialidade que obedece a um conjunto de regras próprias. Dizia eu que comunicação é comunicação e que comunicar um IPO, uma multinacional de grande consumo, ou um resort de luxo solarengo é basicamente a mesma coisa.
Enfim, é e não é. Talvez ter participado nas principais operações financeiras que tiveram lugar em Portugal nos últimos dez anos faça com que o tema da Comunicação Financeira me seja mais familiar.
Uma privatização, um IPO ou uma OPA são operações que apelam às regras básicas da comunicação - transmitir as mensagens certas, ao interlocutor certo, no momento adequado, mas com um conjunto de exigências próprias que tornam o processo, realmente, mais complexo e exigente.
Desde logo, porque envolvem dinheiro, muito dinheiro. Depois, porque são momentos que, apesar do grande conjunto de variáveis, têm um "timing" e um encadeado previamente definidos, normalmente rápido, e sempre decisivo. Assumem, por isso, uma dose grande de responsabilidade.
A questão em si é simples, uma entidade quer comprar ou vender um bem (valor mobiliário) a outras entidades ou pessoas. No caso de um IPO, que significa Oferta Pública Inicial (em inglês, Initial Public Offering), o objectivo é dispersar em bolsa uma determinada percentagem do capital da Empresa, o que normalmente é feito para gerar receitas para o oferente ou para a própria empresa, auxiliando, neste caso, os seus planos de crescimento, internacionalização, diversificação do negócio, etc.. Existindo um projecto em que os investidores devem acreditar, o sucesso da operação tem também implicações ao nível da credibilidade da gestão.
Acresce ainda que, além da Venda Directa Institucional, em que vendedor e comprador negoceiam os termos e chegam a acordo, no caso da admissão em Bolsa de uma Empresa, que se realiza através de uma OPV (Oferta Pública de Venda), envolve-se uma entidade (em Portugal a CMVM, nos EUA, a SEC, no Reino Unido, a UKLA) que defende os interesses dos investidores e que obriga o oferente a adoptar um conjunto de normas rígidas, que protegem os interesses e os direitos do potencial comprador. Isto assegura que o processo seja também rigoroso e transparente.
Minimizando o risco da operação, é estabelecido com um sindicato bancário um contrato de tomada firme (em que este se obriga, em última análise, a ficar com o montante a alienar na Oferta Institucional se mais ninguém o quiser), passando então a caber a estes, assessorarem e orientarem a Empresa para que a operação seja bem sucedida. Junte-se a própria legislação vigente e estamos perante um caso de inequívoca expertise financeira e legal.
A partir daqui, deve começar a funcionar o mercado, mas para que este perceba sequer que é com ele que se está a falar, é preciso, é precioso, é absolutamente vital e fundamental comunicar.
Os agentes que asseguram esta parte do processo são as agências de comunicação (ou PR, no modelo anglo-saxónico), às quais compete aconselhar sobre as melhores formas de transmitir aos destinatários a oferta e todos os seus contornos.
Tal significa, se quisermos ser sérios e profissionais, conhecer a empresa, conhecer a gestão, conhecer o projecto e estar à vontade com as regras rígidas da operação.
Implica perceber as várias fases do processo, do Institucional ao Countdown. Perceber como funciona o bookbulding e o pré-registo ou como é definido o price-range e fixado o preço final para as acções. Implica perceber as diferenças entre a oferta institucional e de retalho, as condições de rateio, os timings de subscrição, a possibilidade de exercer o greenshoe ou o clawback e as condições estabelecidas para as várias tranches definidas para o retalho. E implica, por último, ter ideia do que pode ou não ser dito, de acordo com o regulador e a própria estratégia montada para a operação, nos diversos momentos, até à publicação do Prospecto Final.
Parece mais complicado do que o que é realmente, mas a verdade é que existem grandes agências internacionais especializadas nestas operações, que as assessoram em todo o mundo, o que significa que, ainda assim, não deve ser fácil.
No Chiado, ao ver a japonesa cautelosa, pensei nisto. A comunicação financeira é como um pagamento por Multibanco. Há que saber os procedimentos e os "timings" para, com alguns gestos precisos, concretizar uma transacção. Que é como quem diz, não basta dar o cartão, nem se pode digitar verde, verde e o código ou código, código e verde e muito menos verde, verde, verde ou código, código, código. Tem que se conhecer e respeitar o processo, agir de forma segura e objectiva e, muito importante, admito que até o mais importante, saber quais são os quatro números a introduzir quando a máquina o pede. Isto, independentemente de se esconder, ou não, o gesto com a outra mão.
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