A fraqueza do dólar forte de Trump

Um dólar mais forte poderia significar que as suas políticas económicas pró-crescimento estão a funcionar. No entanto, um olhar mais atento revela que as coisas são mais complicadas; na verdade, Trump poderá precipitar uma grande queda do dólar.
Jornal de Negócios
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Benjamin J. Cohen 30 de agosto de 2018 às 14:00

Tendo subido mais de 8% desde o início do ano, o dólar americano está a aproximar-se de máximos de mais de uma década, e os indicadores de mercado apontam para uma valorização ainda maior nos próximos meses.

 

À primeira vista, isto parece suportar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que assumiu o cargo com a promessa de "tornar a América grande novamente". Um dólar mais forte poderia significar que as suas políticas económicas pró-crescimento estão a funcionar. No entanto, um olhar mais atento revela que as coisas são mais complicadas; na verdade, Trump poderá precipitar uma grande queda do dólar.

 

Para começar, não é nada claro que Trump seja o responsável pela valorização do dólar. Mas mesmo que fosse, um dólar forte não é necessariamente bom para os seus objectivos; nem a taxa de câmbio é uma medida precisa da verdadeira força da moeda.

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A administração Trump gostaria que acreditássemos que a subida do dólar reflecte um crescimento económico mais rápido, impulsionado pela agenda de desregulamentação do governo, pela descida dos impostos e pelo aumento substancial dos gastos com a defesa. Depois de anos de má gestão, argumenta, o governo conseguiu agora restaurar a confiança nos negócios; a América está finalmente na máxima força.

 

Mas a maioria dos economistas conhecedores atribuiria a valorização do dólar à subida dos juros. Num esforço para deter a inflação, a Reserva Federal dos EUA já aumentou os juros duas vezes este ano e sinalizou mais dois aumentos antes do final de 2018. Quando as taxas de juro dos EUA sobem, há mais capital de investimento a entrar, aumentando a procura por dólares. E agora, há dinheiro a chegar aos Estados Unidos de todos os cantos do mundo.

 

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A situação hoje não é diferente da dos predecessores republicanos de Trump. Os ex-presidentes Ronald Reagan e George W. Bush também reduziram os impostos, o que resultou em défices orçamentais que levaram a Fed a subir os juros. Em cada um dos casos, o dólar valorizou de forma muito acentuada (até 60% no primeiro mandato de Reagan entre 1981 e 1985). Hoje, a Fed está mais uma vez a agir de forma independente para afastar o efeito inflacionário da expansão orçamental. Assim, se alguém merece crédito pela valorização do dólar é a Fed.

 

No entanto, dá para imaginar Trump a dizer que moedas mais fracas são para "perdedores". E ele pode gabar-se da valorização do dólar no seu confronto com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, que viu a lira cair quase 60% desde o início do ano. Ainda que um dólar forte faça bem ao ego de Trump, não serve necessariamente a sua agenda mais ampla.

 

Afinal, o fortalecimento do dólar aumenta o preço das exportações no exterior e diminui o custo interno das importações, desestimulando as primeiras e incentivando as segundas. E isso está totalmente em desacordo com a meta declarada de Trump de reduzir o défice comercial dos EUA.

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A obsessão de Trump com o défice comercial levou-o a impor tarifas sobre a importação de aço, alumínio e um vasto conjunto de produtos da China. Mas, ironicamente, as importações mais caras também tenderão a aumentar a inflação, o que poderá forçar a Fed a subir os juros de forma mais rápida do que o planeado. Isso, por sua vez, conduziria a uma valorização ainda mais acentuada do dólar e a défices comerciais maiores, como aconteceu com Reagan e Bush.

 

Por fim, é preciso lembrar que os movimentos de curto prazo nos mercados cambiais não servem para avaliar a força subjacente de uma moeda. Tendências de longo prazo sobre a forma como uma moeda é usada internacionalmente - particularmente como reserva de valor para investidores estrangeiros ou bancos centrais - são muito mais reveladoras.

 

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Há várias décadas que nenhuma moeda é tão usada como o dólar. Graças ao seu domínio, há muito que os EUA gozam daquilo que o ex-presidente francês Valéry Giscard d'Estaing descreveu como um "privilégio exorbitante". Enquanto os estrangeiros estiverem com fome de dólares, os EUA podem gastar o que for necessário para projectar poder em todo o mundo. Para pagar por tudo isso, basta ligar a impressora.

 

Mas as políticas beligerantes de Trump estão a pôr em risco essa posição privilegiada. A sua promessa proteccionista de colocar "a América primeiro" cheira a nacionalismo xenófobo, e o seu recurso às tarifas é uma forma de perder amigos e inimigos. Quanto mais tempo ele mantiver essas políticas, mais provável é que os mercados se movam gradualmente em direcção a alternativas ao dólar. O dólar acabará por sair penalizado, acabando com o privilégio exorbitante e com a influência global dos EUA.

 

A China já convenceu a Rússia a aceitar o yuan como pagamento pelo gás natural, quando essas compras eram feitas apenas em dólares. E, mais recentemente, a China começou a preparar o caminho para compras de petróleo importado em yuan. Por exemplo, no início deste ano, lançou um novo mercado de futuros de petróleo em Xangai, que parece ter como objectivo estabelecer um preço de referência denominada em yuan, juntamente com o Brent e o West Texas Intermediate. Se for bem-sucedido, o mercado de Xangai também poderá desencadear uma mudança nos pagamentos de outras commodities negociadas - tudo às custas do dólar.

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Da mesma forma, vários países estão à procura de formas de contornar as sanções da administração Trump aos produtores de petróleo iranianos. A Índia, por exemplo, já paga por algum petróleo iraniano com commodities em vez de dólares. E tanto a Rússia como a China têm investido muito em ouro para reduzir a sua dependência de reservas denominadas em dólares. Em conjunto, os dois países já compraram cerca de 10% de todo o ouro disponível no mercado mundial.

 

Portanto, apesar da valorização actual, o dólar poderá perder força no longo prazo. Longe de tornar a América grande novamente, Trump parece estar a apressar o seu declínio económico.

 

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Benjamin J. Cohen é professor de Economia Política Internacional na Universidade da Califórnia, Santa Barbara, e o autor de Currency Power: Understanding Monetary Rivalry.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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