Liu Zhenmin 30 de Abril de 2018 às 14:00

É tempo de uma renovação financeira global

Sem uma perspectiva de longo prazo, alguns riscos, especialmente os que estão associados às alterações climáticas, não serão contemplados nas decisões de investimento do sector privado.

Em 2015, os países membros das Nações Unidas uniram forças e comprometeram-se a alcançar um conjunto integral e universal de 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que abrangem todas as dimensões do desenvolvimento económico e social.

O investimento será indispensável para alcançar os ODS, que visam erradicar a pobreza, acabar com a fome, combater as alterações climáticas, criar infra-estruturas resilientes e promover um crescimento económico inclusivo e sustentável. No entanto, três anos depois do anúncio destas metas, ainda não fizemos o suficiente para prepararmos os nossos sistemas financeiros de modo a concretizarmos os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável.

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A ONU, em coordenação com perto de 60 agências e instituições internacionais, publicou recentemente uma avaliação dos progressos a nível mundial em matéria de modificação do financiamento, políticas e regulamentos com vista a alcançar os ODS. E concluiu que, apesar da dinâmica positiva em termos de investimento sustentável, os objectivos só serão atingidos se focalizarmos todo o sistema financeiro em horizontes de investimento de longo prazo e fizermos da sustentabilidade uma preocupação central. Sem uma perspectiva de longo prazo, alguns riscos, especialmente os que estão associados às alterações climáticas, não serão contemplados nas decisões de investimento do sector privado.

Os fluxos financeiros mundiais são vastos, mas a qualidade do investimento é importante. Actualmente, os padrões de investimento de curto prazo estão a fomentar a volatilidade dos mercados de capitais e das taxas de câmbio, ao mesmo tempo que elevam substancialmente os custos e os riscos do investimento sustentável, particularmente no que diz respeito aos países em desenvolvimento. Se criarmos incentivos que direccionem o fluxo de financiamento para projectos de infra-estruturas de longo prazo, como pontes, estradas e sistemas de água potável e de saneamento, estaremos a dar um grande contributo para o desenvolvimento e para a estabilidade.

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E esses projectos de investimento devem ser sustentáveis do ponto de vista ambiental e social. Uma vez que os investimentos feitos hoje, especialmente em sistemas de energia, definirão as vias do desenvolvimento nas próximas décadas, devemos fazer algo mais para garantir que os investimentos de agora e do futuro não irão minar os nossos esforços de combate às alterações climáticas. Além disso, tal como acontece com todas as políticas económicas, a igualdade de género terá de se tornar uma consideração central.

 

Transformar as finanças não será tarefa fácil. Os mercados de capitais de hoje em dia estão altamente orientados para o curto prazo, tal como o demonstra a volatilidade dos fluxos de capitais e o curto período de titularidade de acções nalguns mercados desenvolvidos, que diminuiu de uma média de oito anos na década de 1960 para oito meses actualmente. E embora os investidores institucionais que fazem aplicações a longo prazo detenham cerca de 80 biliões de dólares em activos – dos quais perto de metade representam passivos de longo prazo –, perto de 75% estão investidos em instrumentos líquidos, ao passo que apenas 3% o estão em infra-estruturas.

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Esta mesma tendência é a que prevalece na economia real. Em 2016, as empresas cotadas no índice norte-americano S&P 500 gastaram mais de 100% dos seus lucros na distribuição de dividendos e na recompra de acções próprias, o que impulsiona os preços das acções no curto prazo em vez de lhes conferir um maior valor de longo prazo através do investimento.

 

Um inquérito do McKinsey Global Institute realizado em Fevereiro de 2017 concluiu que 87% dos executivos e administradores de empresas se sentiam "pressionados a apresentar um sólido desempenho financeiro em dois anos ou menos", ao passo que 65% disseram que "a pressão a curto prazo aumentou nos últimos cinco anos". Além disso, 55% afirmaram que adiariam investimentos em projectos com retornos positivos de modo a atingirem as metas trimestrais dos seus balanços.

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Conseguir que os investidores que privilegiam o curto prazo passem a ter uma visão de mais longo prazo é um pré-requisito para se alcançarem todos os nossos objectivos no plano económico, social e ambiental. Mas o sector privado não procederá sozinho a esta transição. Os decisores políticos devem ser agentes activos e liderar o processo. Os mercados não funcionam de forma justa e tendo em vista o interesse público sem normas bem ponderadas e bem aplicadas definidas pelos governos. Além do investimento público, esta é uma das funções mais essenciais do Estado.

Mais especificamente, a transformação das finanças a nível global é algo que exigirá mudanças na regulação prudencial, nos requisitos de capital, na cultura do investimento empresarial e na remuneração dos executivos, o que por sua vez irá requerer novos indicadores mais adequados ao longo prazo.

 

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Serão também necessárias reformas nas práticas contabilísticas, especialmente nos investimentos ilíquidos, no sentido de reduzir, por exemplo, a propensão para se pensar no curto prazo introduzida pela contabilidade de avaliação ao valor de mercado [mark-to-market]. E os investidores institucionais deverão adoptar uma interpretação mais ampla da responsabilidade fiduciária, que deverá focar-se no longo prazo e incorporar todos os factores que tenham um impacto material nos retornos, sejam eles financeiros, ambientais, sociais ou relacionados com a governança.

Restam-nos ainda 12 anos, o que poderá fazer parecer que o mundo dispõe de imenso tempo para realizar progressos rumo à concretização dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável. Mas as experiências passadas da ONU com iniciativas orientadas por objectivos mostram que é importante tomar medidas decisivas numa fase inicial do processo. Para piorar a situação, a escalada de tensões comerciais e geopolíticas ameaça atrasar-nos, em vez de nos fazer avançar. Essas divergências não devem constituir um obstáculo à concretização dos ODS e à construção de um futuro sustentável.

 

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Acima de tudo, o futuro precisa de ser financiado. Apesar de muitas instituições públicas e privadas de vários patamares das finanças internacionais já terem começado a operar mudanças, o sistema financeiro global ainda tem de passar pela necessária transformação. Todos nós concordámos em relação ao que era preciso fazermos: agora temos de o fazer.

 

Liu Zhenmin é secretário-geral adjunto para os Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas.

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Direitos de autor: Project Syndicate, 2018.

www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro

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