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Yao Yang 13 de Maio de 2014 às 15:42

A sombra que paira sobre a China

A decisão da Reserva Federal dos Estados Unidos de diminuir o seu programa de compras mensais de activos (o chamado "quantitative easing") está a alimentar receios de um abrandamento económico forçado da China. Mas os fundamentos económicos do país são sólidos e dão espaço de manobra ao governo para evitar que isso aconteça – desde que consiga controlar a "banca sombra".

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O crescimento do consumo e do investimento na China deverá manter-se próximo dos níveis do ano passado. Ao mesmo tempo, a recuperação económica das economias avançadas, especialmente dos Estados Unidos e da Europa, deverá fortalecer a procura externa, o que leva os analistas a projectar um crescimento anual das exportações chinesas de cerca de 10% este ano, 3 ou 4 pontos percentuais a mais do que em 2013. Isso elevaria o crescimento anual do PIB, em 2014, para 7,5% ou 8%, o que é um valor muito saudável.

 

O problema é que o sector financeiro da China acumulou riscos excessivos: no final do ano passado, o agregado monetário M2 ascendia a 18 biliões de dólares, quase o dobro do produto interno bruto (PIB) do país. Com a intenção de limitar o crescimento do agregado monetário M2 (que pode ser sinal de um excesso de alavancagem da economia), o banco central reforçou as condições para empréstimos dos bancos comerciais, de modo que, perante qualquer aumento do M2, fica reduzida a disponibilidade de crédito.

 

Mas a medida não cumpriu o objectivo; pelo contrário, o M2 cresceu mais rapidamente no ano passado do que em 2012. Pior ainda, restringir o papel dos bancos comerciais como intermediários financeiros incentivou o crescimento do sistema bancário sombra, o que gerou ainda mais riscos para a economia da China. Claramente, é necessária uma nova abordagem - baseada numa compreensão mais profunda dos perigos inerentes ao sistema bancário da China.

 

Ainda que o crescimento do M2 possa reflectir uma alavancagem excessiva, este não é um indicador particularmente preciso na China, onde os bancos comerciais podem contornar facilmente os requisitos de reservas e os controlos quantitativos retirando empréstimos dos seus balanços para a gestão de activos - práticas que impulsionam uma expansão artificial do crédito, que se confunde com um crescimento do M2. Neste sentido, o que está realmente a alimentar a expansão da "banca sombra" na China é a relutância das autoridades monetárias chinesas em abrir o sector financeiro formal ao capital privado nacional ou liberalizar a taxa de juro dos depósitos.

 

Com as pequenas e médias empresas (PME) - de longe, o mais importante motor de crescimento da economia - incapazes de obter financiamento suficiente do sector financeiro formal, foram forçadas a recorrer aos canais informais. Como o sistema bancário sombra se tornou a principal fonte de financiamento para as PME, os riscos financeiros na economia da China têm crescido exponencialmente.

 

Para agravar ainda mais, os repetidos esforços do banco central para reforçar a oferta de moeda aumenta o custo de capital. Em Junho passado, a taxa anualizada dos empréstimos interbancários subiu para mais de 10% - um nível que quase igualou em Dezembro. Em última instância, são as PME que assumem estes custos, o que diminui a sua capacidade de contribuir para o crescimento económico global.

 

Tomemos como exemplo o gigante da internet Alibaba, que começou a financiar-se no ano passado através do Zhi-fu-bao, o equivalente chinês da PayPal. Em poucos meses, recebeu 400 mil milhões de renminbis de 85 milhões de pequenos investidores. Tencent, a maior empresa de internet da China, está agora a usar a mesma estratégia para competir com a Alibaba; as duas empresas oferecem altas taxas de retorno - geralmente 6 ou 7% ao ano - para atrair tantos investidores quanto possível.

 

O problema é que a maior parte desse investimento está no mercado interbancário, o que significa que as PME, em última análise, enfrentam taxas de juros superiores a 10% - e isso não inclui os adicionais 3% para garantias de empréstimos às PME. Estas taxas insustentáveis ??estão a transmitir grandes riscos para a economia real.

 

Em nenhum outro caso isso é mais evidente do que no sector imobiliário. As construtoras, sedentas de liquidez e incapazes de obter financiamento através do sector bancário formal, contraíram crédito de forma maciça com taxas de juros elevadíssimas. Mas, em muitos casos, a procura de habitação não tem crescido como o esperado, aumentando o risco de incumprimento - cujos efeitos seriam transmitidos para todo o sector financeiro.

 

A verdade é que a China nunca esteve tão perto de uma grande crise financeira como está hoje. No entanto, as autoridades monetárias da China não parecem compreender a dimensão do risco - nem as suas causas profundas.

 

Talvez seja necessário desalavancar a economia chinesa. Mas, em vez de apertar cegamente a oferta de crédito, os responsáveis políticos devem prosseguir a reforma profunda do sector financeiro para liberalizar as taxas dos depósitos, eliminar controlos quantitativos e, mais importante ainda, permitir a criação de instituições financeiras privadas nacionais.

 

Prosseguir esta agenda é essencial para a saúde financeira e económica da China a longo prazo. Mas isso pressupõe uma grande mudança na mentalidade das autoridades monetárias chinesas. É aí que reside o verdadeiro desafio que a China enfrenta hoje em dia.

 

Yao Yang é reitor da Escola Nacional de Desenvolvimento e director do Centro Chinês de Pesquisa Económica, da Universidade de Pequim.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2014.
www.project-syndicate.org

Tradução: Rita Faria

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