Koichi Hamada
Koichi Hamada 15 de março de 2016 às 20:30

Abaixo de zero no Japão

Apesar de a introdução de taxas negativas pelo Banco do Japão ter pressionado a estrutura das taxas de juro quase imediatamente, tal como esperado, os efeitos da política sobre o iene e o mercado accionista têm sido uma desagradável surpresa.

Numa tentativa ousada de impulsionar a inflação, o Banco do Japão (BOJ, na sigla anglo-saxónica) empurrou as taxas de juro dos depósitos para terreno negativo. Apesar de esta política não ser nova - já está a ser utilizada pelo Banco Central Europeu, o Banco da Suécia, o Banco Nacional da Suíça e outros -, é um caminho ainda por desbravar para o BOJ. E, infelizmente, os mercados não reagiram como seria de esperar.

 

Em teoria, as taxas negativas, ao forçarem os bancos comerciais a pagarem ao banco central para poderem parquear o seu dinheiro, deveriam estimular a concessão de crédito às empresas, que então gastariam mais, inclusive na contratação de mais funcionários. Isto deveria impulsionar uma recuperação do mercado accionista, aumentar o consumo das famílias, desvalorizar o iene e travar a deflação. Mas a teoria nem sempre se traduz na prática. Apesar de a introdução de taxas negativas pelo BOJ ter pressionado a estrutura das taxas de juro quase imediatamente, tal como esperado, os efeitos da política sobre o iene e o mercado accionista têm sido uma desagradável surpresa.

 

Uma justificação para isto é o pessimismo generalizado em torno da economia do Japão, reforçado pela volatilidade na China, a restrição monetária nos Estados Unidos e o colapso dos preços do petróleo a nível mundial. Contudo, tal como o governador do BOJ, Haruhiko Kuroda, disse recentemente na Câmara dos Conselheiros, os fundamentais económicos do Japão são globalmente positivos e as previsões pessimistas são muito exageradas.

 

De facto, a estratégia económica do primeiro-ministro, Shinzo Abe – conhecida como Abenomics -, permitiu que o Japão ficasse num caminho razoavelmente positivo em tempos muitos incertos, com a economia a revelar sinais de recuperação contínua após décadas de estagnação. Desde que Abe assumiu o cargo em 2012, foram criados 1,5 milhões de empregos e a taxa de desemprego caiu de 4,6% para 3,3%. Além disso, o turismo tem crescido e tanto as receitas das empresas como as do Governo têm vindo a aumentar significativamente.

 

Até os desafios externos do Japão podem não ser más notícias. Para começar, o Japão, tal como economias emergentes com regimes cambiais flexíveis, pode realmente beneficiar da restrição monetária nos Estados Unidos, com a valorização do dólar a tornar as exportações japonesas mais competitivas. Do mesmo modo, porque o Japão pode satisfazer, no máximo, 6% das suas necessidades energéticas, o petróleo barato é uma verdadeira bênção - uma que pode muito bem vir a durar algum tempo.

 

Quanto à situação económica na China, há certamente motivos de preocupação. O problema é que, apesar de o "hardware" da economia chinesa ter vindo a avançar substancialmente desde que Deng Xiaoping iniciou a sua "reforma e abertura" política há quase quatro décadas, o "software" da política económica é limitado pela excessiva gestão do Estado. Como resultado, o país está a ter dificuldades em transitar para um modelo de crescimento mais sustentável, apoiado por um sector de serviços próspero e um forte consumo interno.

 

Até a China avaliar o estrangulamento que o Partido Comunista tem em níveis fundamentais da economia, o país será uma fonte de incerteza no mercado, com repercussões em toda a economia mundial. Mas, mesmo aqui, a situação do Japão não é tão terrível quanto muitos parecem pensar, devido à sua limitada exposição à China. Por exemplo, as exportações para a China ascendem a apenas 3% do PIB do Japão.

 

Posto isto, não há nenhuma razão para que o mercado accionista de Tóquio dê uma volta, sempre que o mercado de Xangai treme. A estratégia convencional dos hedge-funds dever ser apostar curto em acções de Xangai e longo em acções de Tóquio.

 

E, no entanto, apesar de a situação económica do Japão estar longe de ser terrível, a introdução de taxas de juro negativas não foi tratada como devia: uma manobra para flexibilizar a política monetária. Em vez disso, o mercado accionista japonês considerou as taxas negativas como um prenúncio de maiores riscos financeiros e os especuladores mantiveram-se optimistas em relação ao iene.

 

O economista Yoichi Takahashi disse-me que a valorização de 8% do iene, em apenas dez dias de Fevereiro, é anormal e que foi provavelmente espoletada por ataques especuladores. Na sua opinião, o Ministério das Finanças poderá ter que levar acabo algumas intervenções no mercado cambial, de modo a conter as extraordinárias oscilações.

 

De 2003 a 2004, o Tesouro japonês comprou uma grande quantidade de dólares, flexibilizando, assim, as condições monetárias, numa altura em que o BOJ estava relutante em prosseguir operações de mercado aberto. Contudo, nos últimos anos, a taxa de câmbio do iene tem sido estabelecida através da política monetária e não manipulada por uma intervenção.

No geral, congratulo-me com esta nova abordagem e, portanto, não recomendo grandes intervenções para mudar a tendência da taxa de câmbio do iene. No entanto, acredito que as intervenções esporádicas podem ser necessárias para punir especuladores que estejam a tirar partido da psicologia temporária do mercado, de modo a manter o iene muito acima de seu valor de mercado.

 

Koichi Hamada, Conselheiro Económico Especial do Primeiro-Ministro Shinzo Abe, é professor emérito de Economia na Universidade de Yale e na Universidade de Tóquio.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org 
Tradução: André Tanque Jesus

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