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Sin-ming Shaw 12 de Novembro de 2015 às 20:00

Pequim contra o bilionário

O governo da China e o homem mais rico de Hong Kong, o muito admirado Li Ka-shing, têm vindo a travar uma disputa ácida - que cada vez se parece mais com um amargo divórcio exposto nos tablóides. De facto, os meios de comunicação chineses têm lançado ataques constantes a Li. O seu "crime"? Comprar a baixos preços na Europa, e vender mais caro na China – ou seja, agir como um investidor.

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Essa onda de desprezo começou quando Li vendeu algumas das suas propriedades em Xangai, depois de ter mudado a sua sede social de Hong Kong para as Ilhas Caimão. Esta é uma decisão de negócios totalmente mundana e racional, que visa minimizar as obrigações fiscais. Na verdade, cerca de 70% das empresas com presença na bolsa de Hong Kong estão registadas no Caribe, e até mesmo grandes empresas da China continental, incluindo a gigante da internet Alibaba, estão registadas em paraísos fiscais offshore.

Contudo, na narrativa pueril dos meios de comunicação chineses, esta decisão expõe a "ingratidão" e a "falta de patriotismo" de Li. Afirmam que está a "abandonar" a China – que lhe permitiu sair da pobreza extrema e tornar-se um dos homens mais ricos do mundo, dizem - quando o país mais precisa dele.

Este argumento absurdo ignora o facto de que Li já era uma das pessoas mais ricas do mundo antes de investir na China. Mais importante ainda, não reconhece que Li possui mais de 20 milhões de metros quadrados de terrenos na China - cerca de um quarto do tamanho de Manhattan - e que o número de estabelecimentos retalhistas que possui na China aumentou em 70% em dois anos.

Mas os factos são irrelevantes. Esta é uma questão política. Com a China a tentar reforçar o controlo sobre Hong Kong, Li está a mostrar independência, e os novos governantes da China - que, fiéis às suas raízes comunistas, acreditam firmemente no controlo de cima para baixo - não gostam nada disso.

A disputa em curso representa uma mudança significativa na relação de Li com o governo da China. Antigo assessor de Deng Xiaoping e confidente do ex-presidente Jiang Zemin (cuja influência política está agora a diminuir), Li foi um dos primeiros a investir na China após o massacre da Praça de Tiananmen de 1989. Durante muito tempo, o seu lema foi: "Não faço nada contra os interesses da China, e não digo nada que possa ferir a reputação da China".

Isso mudou em 2012, quando Leung Chun-ying foi nomeado chefe do executivo de Hong Kong. A primeira escolha da China para o cargo, Henry Tang, foi forçado a retirar-se devido a indiscrições privadas e à tentativa vergonhosa de que a sua esposa assumisse as consequências de uma violação das leis de urbanismo.

Leung tornou-se o homem da China em Hong Kong, responsável por fazer cumprir as ordens do governo chinês – adoptando, inclusive, uma posição intransigente contra protestos pró-democracia de estudantes e intelectuais. Até mesmo com a agenda cada vez mais dura da China em Hong Kong - e, portanto, impopular localmente - Leung provou ser absolutamente leal aos governantes chineses.

No entanto, Li manteve-se ao lado de Tang. E, em certas ocasiões, discordou publicamente das políticas erróneas de Leung. Como qualquer estudante da República Popular sabe, manifestações de desacordo político – por mais inocentes que sejam - podem ser letais. Não há "concordar em discordar" na China; se o líder falou, há apenas que "obedecer".

No caso de Li, os riscos são particularmente elevados. Ao contrário da maioria dos magnatas de Hong Kong, que se caracterizam por um grande oportunismo político, Li é visto como uma pessoa de consciência forte e, portanto, digno de um grande respeito. De forma afectuosa, apelidaram-no mesmo de "Super-Homem".

Por exemplo, as autoridades declararam recentemente que a independência judicial e a separação dos poderes são legados "coloniais" que devem ser descartados, e que o governo chinês e o chefe do executivo de Hong Kong deviam ter a última palavra, e não os tribunais locais. Neste momento de transição, a dissidência de alguém como Li poderia ter o tipo de impacto desestabilizador que os líderes chineses temem. Por isso mesmo, Li tem de ser "desdeificado".

Os ataques da China levaram Li, depois de quase três semanas de silêncio sepulcral, a fazer algo que nunca tinha feito antes: contra-atacar. Não só afirmou que todas as acusações sobre as suas intenções de abandonar a China são falsas, como acusou a China de usar tácticas da Revolução Cultural que o deixaram "a tremer de medo" e com "arrepios na espinha".

Li concluiu a sua declaração com a mensagem - transmitida através de três versos de dois poetas chineses das antigas dinastias Tang e Song - que a sua casa é o lugar onde se sente seguro. O subtexto é claro para qualquer chinês letrado: "a China pode ser o meu país ancestral, mas eu sou um homem livre, livre para escolher a minha casa".

Li, um ávido leitor de literatura e história do mundo, não tem, aparentemente, levado a sério a lição que tantos chineses aprenderam, através das grandes tragédias pessoais, desde 1949. Os valores fundamentais do governo da China não têm por base a civilidade humana dos poetas da era Tang ou Song, mas a perversa dialética do marxismo-leninismo e a tradição militarista amoral de um partido que ainda mantém os seus hábitos de governação, muitas vezes brutais e violentos.

Com os líderes da China a quererem aumentar o seu controlo sobre Hong Kong, os arrepios na espinha tendem a tornar-se cada vez mais habituais entre os que vivem por lá.

Sin-ming Shaw, investidor privado, foi professor visitante na Universidade do Michigan.

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria
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