Minouche Shafik
Minouche Shafik 04 de abril de 2017 às 14:00

Restaurar a confiança nos especialistas

As redes sociais exacerbam a tendência humana para o "pensamento de grupo" ao filtrarem as perspectivas opostas. Temos, portanto, de fazer um esforço para aceder a opiniões diferentes da nossa e resistir ao afunilamento algorítmico que evita a diferença.

"Por que é que ninguém se deu conta?" foi a célebre pergunta feita pela rainha Isabel II na London School of Economics, em Novembro de 2008, logo após ter irrompido a crise financeira. Quase uma década depois, a mesma pergunta está a ser feita por "especialistas" na sequência dos extraordinários e imprevistos eventos dos últimos 12 meses – do referendo sobre o Brexit, no Reino Unido, à eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos.

 

De uma forma geral os especialistas, não apenas os especialistas em sondagens e os economistas, têm sido ultimamente alvo de muitas críticas. A crise da Zona Euro que começou em 2010 foi encarada por alguns como uma criação de elite com consequências dolorosas para as sociedades em geral. Isto foi agravado por uma crise de conduta, com o surgimento de escândalos relacionados com produtos financeiros indevidos, manipulação global de câmbios e fraude com a taxa interbancária Libor (a taxa de juro de referência utilizada por muitos bancos para empréstimos de curto-prazo).

 

Tudo isto reforçou as suspeitas das pessoas de que o sistema funciona a favor dos ricos e poderosos, que nunca são chamados à pedra. O cepticismo em relação à credibilidade das elites emergiu em grande no referendo sobre o Brexit e nas eleições norte-americanas.

 

No meio destas falhas detectadas pelas pessoas, a confiança do público nos especialistas está numa encruzilhada. Com as notícias cada vez mais estreitamente apontadas a interesses e preferências individuais, e com as pessoas a escolherem cada vez mais em quem confiar e quem seguir, os canais tradicionais de partilha de conhecimento estão a ser ultrapassados. Quem precisa de especialistas quando tem o Facebook, o Google, o Mumsnet e o Twitter?

 

Na verdade, precisamos todos. No curso da história da humanidade, o recurso ao conhecimento especializado ajudou a enfrentar doenças, a reduzir a pobreza e a melhorar o bem-estar das pessoas. Se quisermos construir sobre este progresso, precisamos de especialistas confiáveis para quem o público possa voltar-se e em quem confiar.

 

Restaurar a confiança exige, em primeiro lugar, que aqueles que se descrevem a si próprios como "especialistas" aceitem a incerteza. Em vez de fingirem estar certos e, frequentemente, perceberem tudo erradamente, os comentadores devem ser sinceros acerca da incerteza.  No longo prazo, tal abordagem vai reconstruir a credibilidade. Um bom exemplo disto mesmo é a utilização de "gráficos variados" nas estimativas do Comité de Políticas Monetárias do Banco de Inglaterra (MPC, na sigla inglesa), que mostram um amplo leque de resultados possíveis para questões como inflação, crescimento e desemprego.

 

Ainda que transmitir incerteza aumente a complexidade da mensagem. Este é um enorme desafio. É fácil tweetar que "o BoE perspectiva um crescimento de 2%". O verdadeiro significado do gráfico - "Se as circunstâncias económicas de hoje se mantiverem em 100 ocasiões, a melhor avaliação colectiva do MPC é a de que a estimativa madura de crescimento do PIB estará acima de 2% em 50 ocasiões e abaixo de 2% em 50 ocasiões" - nem sequer cabe no limite de 140 caracteres do Twitter.

 

Isto realça a necessidade de princípios sólidos e práticas confiáveis se tornarem mais generalizados à medida que a tecnologia altera a forma como consumimos informação. Devem os jornalistas e bloggers ser expostos por reportarem ou replicarem falsidades e rumores? Talvez os princípios e práticas largamente utilizados na academia – tais como a revisão entre pares, processos competitivos para financiamento de investigações, transparência acerca de conflitos de interesses e fontes de financiamento, e exigências para a publicação de dados subjacentes – devem ser adaptados e aplicados de forma mais abrangente no mundo dos think-tanks, websites e media.

 

Ao mesmo tempo, os consumidores precisam de melhores ferramentas para avaliar a qualidade da informação e das opiniões que recebem. A digitalização do conhecimento permitiu às pessoas acederem a informação que molda as suas perspectivas. Elas podem ir ao médico mais bem informadas sobre as suas doenças e tratamentos alternativos. Mas a democratização da informação pode tornar mais difícil discernir factos de mentiras; os algoritmos criam caixas de ressonância para as pessoas com a mesma opinião; e vozes e visões extremistas podem aceder ao topo na corrida por clicks e receitas online.

 

As escolas e universidades terão de fazer mais para educar os estudantes a serem melhores consumidores de informação. Uma investigação surpreendente do Stanford History Education Group, baseada em testes a milhares de estudantes em toda a América, descreveu como "sombrias" as conclusões sobre a capacidade dos mais jovens para avaliar a informação que encontram na rede. Os sites de verificação de factos (fact-checking) relativos à veracidade de declarações feitas por figuras públicas são um passo na direcção certa, e têm algumas semelhanças com a verificação entre pares utilizada na academia.

 

Ouvir a outra parte é crucial. As redes sociais exacerbam a tendência humana para o "pensamento de grupo" ao filtrarem as perspectivas opostas. Temos, portanto, de fazer um esforço para aceder a opiniões diferentes da nossa e resistir ao afunilamento algorítmico que evita a diferença. Talvez os "especialistas" em tecnologia pudessem codificar algoritmos para explodir com tais bolhas.

 

Finalmente, a fronteira entre tecnocracia e democracia precisa ser tratada mais cuidadosamente. Sem surpresa, quando indivíduos não-eleitos tomam decisões com enormes consequências sociais, o ressentimento público vem logo atrás. Muitas vezes surgem problemas quando especialistas tentam ser políticos ou quando políticos tentam ser especialistas. A clareza sobre funções a desempenhar – e responsabilização quando as fronteiras são violadas -  é essencial.

 

Necessitamos mais do que nunca de competência para resolver os problemas do mundo. A questão não é como geri-los sem especialistas, mas como assegurar que o conhecimento é fiável. Perceber isto é vital: se não queremos ver o futuro construído pela ignorância e visões tacanhas, precisamos mais do que nunca de debate  esclarecido e informado.

 

Minouche Shafik, ex-vice governadora para mercados e banca do Banco de Inglaterra, é a próxima directora da London School of Economics and Political Science.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

 

Tradução: David Santiago

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