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Robert Skidelsky - Economista 05 de Novembro de 2015 às 20:00

Da memória à negação na Rússia

A minha experiência mais dolorosa na Rússia foi uma visita, em 1998, ao Perm-36, o único dos campos de trabalhos forçados de Estaline que foi preservado. Estava em Perm, uma cidade nos Urais, para participar num seminário da Escola de Estudos Políticos de Moscovo. Fundada pela notável Lena Nemirovskaya, o objectivo desta escola era o de apresentar a democracia, o autogoverno e o capitalismo aos jovens russos pós-comunismo.

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Num dia extremamente frio de Março, juntei-me a alguns amigos numa viagem ao antigo campo. Construído no início dos anos 1940 enquanto campo de trabalho "regular", o Perm-36 foi convertido em 1972 num campo de concentração para prisioneiros políticos.

 

Os últimos prisioneiros foram libertados em 1987, no terceiro ano da liderança de Mikhail Gorbachev. Agora está a ser restaurado como Museu Gulag pela Memorial, uma associação de direitos-humanos fundada pelo físico dissidente Andrei Sakharov, para lembrar os russos do seu passado totalitarista.

 

Foi-nos mostrada a ala de máxima segurança. Rodeada por um perímetro de arame-farpado, acolheu os prisioneiros políticos, maioritariamente provenientes das Repúblicas Soviéticas não-russas, que eram considerados "particularmente perigosos reincidentes". Depois de uma estação televisiva ucraniana ter filmado aquele lugar em 1989, parte do mesmo foi deliberadamente destruído.

 

Era óbvio que os prisioneiros haviam sido sujeitos a tortura psicológica e a condições físicas muito duras. Os pequenos radiadores, em cada cela, de pouco terão servido durante o gelo entre Outubro e Abril. Os prisioneiros dormiam em tábuas de madeira ou beliches de ferro. As suas roupas e roupas de cama eram feitas de algodão e não de lã, e um buraco servia de lavatório em cada uma das celas.

 

A nossa guia, Maya, explicou que as autoridades gostavam de juntar os prisioneiros que tinham divergências entre eles próprios. Durante o dia, eram movidos para celas idênticas onde trabalhavam inutilmente em acessórios de ferro. Por uma hora a cada dia, era-lhes permitido ir até ao "bloco de exercício", um pequeno cubo de 2,7 metros, com um tecto de arame-farpado e um guarda no topo. A outra única "recreação" era o visionamento mensal de filmes propagandísticos.

 

Dos 56 "perigosos reincidentes" presos no Perm-36 durante os anos 1980, sete morreram. Um era o poeta nacionalista ucraniano Vasyl Stus. As autoridades disseram tratar-se de suicídio, mas os sobreviventes disseram que, por brincadeira, os guardas desenroscaram uma das tábuas de madeira da parede e a atiraram para a cabeça de Stus enquanto este dormia.

 

Enquanto Maya relatava a história aterradora, eu observava as faces de dois jovens guardas que nos acompanharam. As suas expressões estavam tão geladas como o chão lá fora. Estavam eles a pensar em futebol ou em fazer amor com as suas namoradas? Com vodka suficiente, também eles teriam sido capazes de assassinar por recreação? A resposta, temo, é que provavelmente sim. Sistemas do diabo nunca parecem sentir dificuldades para encontrar os zombies capangas que precisam.

 

Organizações como a Memorial e a Escola de Estudos Políticos de Moscovo não têm lugar na Rússia de Vladimir Putin. Oficialmente, são consideradas "agentes estrangeiros" e têm sido sujeitas a tanta intimidação legal que lhes é quase impossível funcionar.

 

Hoje, o Museu Gulag está sob diferente gestão. "A nova apresentação", escrevem Mikhail Danilovich e Robert Coalson, "não se centra nas práticas repressivas dos campos de trabalho forçado da era estalinista mas na produção de madeira e na sua importância para a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial". E passados 20 anos, a Escola de Estudos Políticos de Moscovo foi forçada a suspender as suas actividades russas.

 

O destino do museu e da escola faz parte de uma mais abrangente repressão de liberdades de expressão e de comportamento do terceiro mandato presidencial de Putin. Os dissidentes são rotineiramente classificados de pervertidos, quintos colunistas e traidores, enquanto o regime dirige uma retórica paranóica favorável à unidade nacional com base na religião e na tradição.

 

Isto representa uma grande mudança face à Rússia dos primeiros anos do período pós-Soviético. O partido liberal Escolha Democrática da Rússia, liderado pelo primeiro primeiro-ministro democrático do país, Yegor Gaidar, recebeu 15,5% dos votos nas eleições gerais de 1993 e os seus aliados formaram o maior bloco na Duma. Nessa altura, isso foi visto como um falhanço catastrófico. Hoje, os candidatos liberais nem sequer conseguem ser eleitos para a Duma.

 

Como é que isto aconteceu? Por que a esperança na glasnost de Gorbachev se extinguiu de forma tão cruel?

 

Uma perspectiva abrangente é a de que a Rússia está simplesmente a regressar às suas características idiossincráticas: liberdade nunca foi mais do que um fugaz som do seu histórico alfabeto. Mas esta é uma explicação simplista.

 

É verdade que o liberalismo russo contribuiu para a sua própria morte, devido à sua incompetência e sectarismo. Mas o ocidente não ajudou. Nos anos 1990, falhou ao não contribuir financeiramente para as reformas económicas que patrocinou. Alargar a NATO para os estados Bálticos em 2002 – o primeiro alargamento da aliança atlântica para território da antiga União Soviética – foi um erro catastrófico que tornou quase impossível a um russo ser simultaneamente patriota e pró-ocidente. Por omissão e por comissão, o ocidente retirou o tapete ao liberalismo político russo, permitindo a ascensão do Putinismo.

 

Até agora, Putin demonstrou ter um sentido preciso dos limites. Permite que os russos sonhem com grandeza sem que isso os coloque perante problemas sérios. Sob a sua liderança, a Rússia encolheu os ombros perante sanções, forjou uma nova aliança com a China e enfrentou – sem propriamente desafiar – o ocidente na Síria. Mas aqueles que conhecem Putin dizem que ele não tolera argumentos; ele é o único capaz de definir os limites. E ninguém consegue manter um poder supremo durante tanto tempo como ele conseguiu sem corrupção.

 

Neste momento, o Putinismo é o único jogo na cidade. Contudo, apesar de as forças representadas pela Memorial e pela Escola de Estudos Políticos de Moscovo terem sido marginalizadas, elas não foram erradicadas.

 

Robert Skidelsky, é membro da British House of Lords e é professor jubilado de Economia Política na Universidade de Warwick.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.
www.project-syndicate.org
 

Tradução: David Santiago

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