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Espírito Santo e anjinhos

O Banco Espírito Santo foi há duas semanas alvo de uma rusga policial de grande aparato em Espanha e teve a sede selada pela Guardia Civil, por decisão do juiz Baltazar Garzón e na sequência de um pedido da agência Anticorrupção.

A atitude das autoridades de investigação espanholas carregou um dramatismo à medida da natureza dos crimes em que se suspeita do envolvimento do BES. E lá, como cá, a comunicação social deu ampla cobertura à operação.

Lá, como cá, as televisões chegaram duas horas antes da polícia entrar nas instalações do BES. O que, seja onde for, Portugal, Espanha ou Papua Nova Guiné, diz muito sobre as tortuosas motivações daqueles que só deviam ter a preocupação de perseguir o crime e fazer justiça.

Também lá, como cá, os media continuaram a acompanhar o caso, procurando dados novos, acrescentando mais pistas, noticiando aquilo que não se sabia. Foi isso que voltou ontem a acontecer.

O melhor e o mais influente jornal de Espanha, o El País, teve acesso ao relatório da Agência Estatal de Administración Tributaria que, datado de 14 de Junho, aparentemente despoletou a "operação sueter". Num trabalho de página inteira, ilustrado por uma única foto que capta o momento da rusga, dá todos os pormenores e autores de um esquema de branqueamento de capitais e evasão fiscal.

O BES, o suspeito colocado no centro das notícias desde o dia 2 de Novembro, é a única coisa que se identifica na imagem.  Agentes da Guardia Civil, com identidade ocultada, ao lado da fachada com o logotipo e a marca por extenso: Grupo Banco Espírito Santo. A três colunas.

O "pormenor" que o El País revela, em primeira mão, é o paradeiro da parte das contas "congeladas" com dinheiro suspeito e de que, até hoje, só sabia uma coisa: essa parte não estava no BES.

E que parte é essa? Mil e oitocentos milhões de euros. 99% da totalidade dos saldos bloqueados pela justiça espanhola. E em que bancos está essa fatia de leão? No BBVA, no Santander e outras duas instituições espanholas, o Bancaja e o Banco de Madrid.

Lá, como cá, este facto é relevante e o dever da comunicação social seria tratá-lo com o relevo que a notícia merece. Sucede que lá, ao contrário de cá, os jornais não protegem apenas a identidade dos polícias envolvidos numa investigação delicada. Também os nomes dos bancos "deles" foram convenientemente dissimulados.

Chamada de capa? Nem pensar. O relatório que o diário da Prisa dá a conhecer diz explicitamente que a investigação parte de uma "soma que se encontra fundamentalmente em quatro bancos distintos". E cita-os, é verdade. Mas é sobre o português BES e o francês BNP Paribas que o próprio El País mantém o foco das suspeições.

Não se sabe como este processo judicial vai acabar. Mas já fez duas vítimas certas: a imagem do BES e o papel do jornalismo.

A notícia do El País foi, durante todo o dia, ampliada pelas televisões. Sem uma única referência ao BBVA ou ao Santander. Imagens? Adivinhou: a rusga ao BES. Um branqueamento descarado, uma vergonha para o jornalismo livre e da verdade.

Na matéria de facto, os inocentes não se medem à percentagem. Um banco não é absolvido por apenas ter pactuado com 0,4% de um crime. Ricardo Salgado garante a inocência da sua instituição. Mas, pela publicidade que a imprensa lhe deu neste caso, como em outros, o ónus da prova pertence-lhe, quando deveria estar no acusador.

A redacção de um jornal não deve nunca ser transformada num tribunal. Mas jamais pode moldar os seus critérios em função de amizades ou, como é o caso espanhol, de partidos e nacionalidades. Muita gente, no nosso país, não entende isso. E cobra dos jornais portugueses, pede a mesma parcialidade, o dever patriótico de defender os nossos bancos, as nossas empresas. Não o fazendo, somos anjinhos.

Espanha tem dos melhores bancos e dos melhores jornais do mundo. Mas não são melhores em tudo. A nossa imprensa já está no estado que está. Imaginem a catástrofe que seria a "importação" deste modelo de branqueamento institucionalizado?

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