A kryptonite da geringonça
Esqueça os professores, esqueça o Código do Trabalho, esqueça a descentralização. A geringonça sempre foi imune aos choques ideológicos entre os partidos que a compõem. O que levou a actual solução governativa à sua maior crise de sempre chama-se Rui Rio. O presidente do PSD é a kryptonite da geringonça que foi feita para combater uma direita radical e não sabe lidar com um PSD dialogante.
A aliança com o Bloco de Esquerda e o PCP está em crise porque o PS percebeu que já não precisa da esquerda para governar. Dito de outra forma, António Costa já não precisa de governar à esquerda para mandar no país. À sua direita, poucochinho à direita, tem agora um partido liderado por um homem pragmático como ele, bem mais moderado do que o seu antecessor, e que está pronto a dialogar e a construir pontes com o PS. Na descentralização, na promoção da natalidade ou na lei de bases da Saúde.
PUB
O acordo de concertação social em torno das alterações à lei laboral só foi possível graças a Rui Rio. Foi o presidente social-democrata quem deu confiança a Vieira da Silva para ir descosendo o pacote laboral que antes preparara com Bloco e PCP, aproximando-se assim dos patrões. Porque António Costa e Vieira da Silva sabiam que o PSD de Rui Rio estaria sempre disponível para viabilizar no Parlamento medidas acordadas com as confederações patronais, ao contrário de Passos Coelho que chocou o país e os patrões ao inviabilizar no Parlamento um acordo de concertação social que compensava as empresas pelo aumento do salário mínimo.
Já aqui se escreveu que a eleição de Rui Rio foi a primeira pedra do bloco central. O líder do PSD sabe que a melhor forma de enfraquecer a geringonça, de lhe corroer a argamassa, é namorando o PS em vez de o atacar. Perante isto, Costa ajustou a sua estratégia: daqui em diante, governará ao centro, encostando-se quando necessário ao PSD e ficando à espera que Bloco e PCP se enterrem sozinhos. Ignorados, os dois partidos tenderão a radicalizar o seu discurso, deixando fugir o eleitorado mais moderado – que quer conquistas concretas e não conflitualidade – para o PS. Com sorte, perdem mesmo a cabeça e antecipam eleições, entregando de bandeja a maioria absoluta a Costa.
No meio de tanta táctica e jogo de cintura, sobressai a fina ironia de ver o partido (PSD) que venceu as eleições em 2015 acabar a viabilizar, no final da legislatura, o governo do partido (PS) que ficou em segundo lugar. Esta suprema humilhação política só é possível porque não foi Rio quem venceu as eleições.
PUB
Saber mais sobre...
Saber mais kryptonite geringonça PS António Costa Rui Rio PS PSD Bloco de Esquerda PCPMais Artigos do autor
Mais lidas
O Negócios recomenda