Tiago Freire
Tiago Freire 05 de abril de 2017 às 00:01

Os bons exemplos do futebol

No meio de todos os seus defeitos, a adaptação das SAD ao mundo do mercado de capitais foi um factor de inegável modernização.
O mundo do pontapé na bola, pelo menos por cá, raramente é apontado como exemplo positivo seja pelo que for. Numa semana marcada por mais uma agressão a um árbitro, desta vez potenciada pela prova mediática, abundam os motivos para criticar tudo e todos. É a cacofonia insuportável de comentadores e de alguns dirigentes; são os erros dos árbitros e a suspeição que de imediato lhes é lançada; são as claques em modo invasão bárbara. Tudo verdade.

Mas depois há o resto. Há clubes que continuam, ano após ano, a bater-se com os maiores lá de fora, com orçamentos incomparáveis. Há jovens jogadores portugueses a brilhar pela Europa fora. Há Ronaldo. Há o Euro do Éderzito.

E, fora do campo, é de destacar o caminho feito pelas Sociedades Anónimas Desportivas (SAD) dos principais clubes. Esta semana, o Benfica anuncia mais uma emissão de dívida no mercado, destinada ao retalho, passando para os investidores (que são bem remunerados) parte do crédito que estava nas mãos dos bancos, todos escaldados com o futebol. Cada um à sua forma, também Porto e Sporting têm utilizado o mercado de capitais de forma inteligente e modernizadora.

Passam agora 20 anos desde que as SAD foram formadas. Sim, continua o barulho, a polémica e a grosseria, mas há um mundo de diferença que nasceu desse momento refundador. As sociedades ligadas aos três maiores clubes portugueses já levantaram no mercado mais de 800 milhões de euros, em acções ou dívida. Quanto às acções estamos conversados, nunca deram dinheiro nem darão, mas na verdade isso sempre foi razoavelmente assumido pelos emitentes. Na vertente dívida, muitas emissões feitas, algumas com juros muito generosos, e zero incumprimento. Os clubes souberam, aliás, aproveitar como muito poucos sectores as virtudes do mercado de capitais, trabalhando a sua base de adeptos mas remunerando-os, numa relação que, até aqui, tem sido de win/win.

A admissão de valores à negociação teve outro efeito importantíssimo, a prestação de contas. Num mundo tradicionalmente tão opaco, antes das SAD as contas eram resumidas à pressa em assembleias gerais com meia dúzia de sócios ou sob a pressão das claques, quando as coisas aqueciam. Agora, fruto da transparência que o mercado exige, o manancial de informação disponível, semestral e não só, permite ter um retrato fiel do que é o negócio, milionário e fascinante, do futebol.

Neste caso, certamente devido à força da necessidade, o futebol foi um exemplo de adaptação e de modernização.
Mais uma prova, se ela fosse necessária, de que temos todos a ganhar com mais empresas cotadas, num tecido empresarial ainda com muitos tiques de amadorismo. Porque os ganhos, para as empresas dispostas e preparadas, ultrapassam em muito o mero levantamento de capital. Se o bárbaro futebol conseguiu...
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