“Todas as empresas dependem da biodiversidade e todas as empresas impactam a biodiversidade”, lê-se no relatório publicado esta segunda-feira pelo IPBES, uma plataforma científica da ONU, que reuniu aprovação de mais de 150 governos. O objetivo é alertar as organizações para a importância de integrarem a proteção do meio ambiente na sua estratégia de negócio, evitando perdas e impactos negativos.
O Relatório Metodológico sobre o Impacto e a Dependência das Empresas em relação à Biodiversidade e às Contribuições da Natureza para as Pessoas defende que mesmo os setores aparentemente afastados da natureza dependem de matérias-primas, da regulação de cheias e do abastecimento de água, ou de contributos não materiais como turismo. Ainda assim, “as empresas suportam pouco ou nenhum custo financeiro pelos seus impactos negativos e muitas não conseguem atualmente gerar receitas a partir de impactos positivos na biodiversidade”.
Para Matt Jones, um dos copresidentes da avaliação, este é “um momento decisivo para as empresas e as instituições financeiras”. O responsável sublinha que o relatório “mostra tanto os riscos da perda de natureza para os negócios como as oportunidades para ajudar a revertê-la”, acrescentando que os atores económicos “podem liderar a mudança transformadora ou, em última instância, arriscar a extinção”.
Em 2023, os fluxos financeiros públicos e privados com impactos diretamente negativos na natureza foram estimados em 7,3 biliões de dólares, contra apenas 220 mil milhões de dólares dirigidos à conservação e restauro da biodiversidade. “A perda de biodiversidade está entre as ameaças mais sérias para as empresas”, afirma Stephen Polasky, também copresidente do relatório. “A realidade distorcida é que muitas vezes parece mais lucrativo degradar a biodiversidade do que protegê-la”, lamenta.
O documento identifica ainda um défice de medição e transparência, já que menos de 1% das empresas mencionam impactos na biodiversidade. “Demasiadas vezes, as empresas passam mais tempo a decifrar quadros complexos de reporte do que a tomar medidas com impacto real”, critica Stephen Polasky, que defende uma transição “de compromissos voluntários de sustentabilidade para um roteiro baseado na ciência”.
O relatório deixa claro que as empresas não conseguem, sozinhas, a escala de mudança necessária e identifica cinco pilares para um “ambiente capacitador”. São eles as políticas e regulação, sistemas económicos e financeiros, valores sociais, tecnologia e dados, e capacidades e conhecimento. Os autores apresentam mais de 100 ações concretas para governos, setor financeiro, empresas e sociedade civil, e lembram que “uma melhor relação com a natureza não é opcional para as empresas”, mas “uma necessidade”.
Além dos resultados do documento, o IPBES disponibiliza a lista de medidas que as empresas devem considerar adotar para promover a biodiversidade e alinhar a estratégia do negócio com a conservação do meio ambiente.