Uma população de apenas 300 habitantes pode desperdiçar até 12 toneladas de alimentos por ano dentro de casa. O alerta é da associação Zero, que assinalou o Dia Internacional do Resíduo Zero, que se celebrou na segunda-feira, com foco no desperdício alimentar ao longo de toda a cadeia de abastecimento, incluindo ao nível doméstico.
Com base num estudo feito em Ourique, a associação conclui que “uma população (bairro ou freguesia) de apenas 300 habitantes pode chegar a desperdiçar até 12 toneladas de alimentos por ano nas suas habitações, colocando-os nos resíduos indiferenciados”. A partir dessa amostra, a Zero faz um exercício de extrapolação que dá dimensão nacional ao problema e mostra que “estaríamos perante números de desperdício alimentar que rondariam as 376 mil toneladas por ano, ou seja, 38 quilos por habitante/ano, ou ainda, cerca de mil toneladas por dia”.
A associação sublinha que se trata de uma amostra limitada e admite variações entre comunidades e municípios, mas os dados deixam, ainda assim, um sinal de alarme. No caso de uma cidade com 100 mil habitantes, os ambientalistas estimam que possam ser geradas 3.760 toneladas de alimentos desperdiçados por ano, alimentos que, “em vez de serem consumidos por quem os adquiriu ou serem doados aos setores mais carenciados, terminam em unidades de tratamento de resíduos ou, mais frequentemente, depositados em aterro”.
O trabalho foi desenvolvido com o Município de Ourique, no âmbito do programa Zero Waste Cities, e analisou resíduos indiferenciados de três circuitos porta-a-porta do concelho. Os resultados mostram que, mesmo quando existe separação na origem dos biorresíduos, o problema mantém-se. “As famílias tendem a colocar uma parte importante dos alimentos consumidos no lixo”, incluindo restos de refeições, fruta, legumes, pão e até alimentos ainda nas embalagens, aponta a associação.
Nos três bairros analisados, com 150 habitações e dois estabelecimentos do canal horeca, 51% dos resíduos indiferenciados eram biorresíduos. Dentro desse universo, o desperdício alimentar representava 28% dos biorresíduos e 16% do total de resíduos caracterizados.
A preocupação da ZERO cruza-se com o alerta deixado hoje pelas Nações Unidas, que, numa mensagem de António Guterres a assinalar a data, afirma que “o mundo desperdiça demasiados alimentos” e lembra que “todos os dias deitamos fora o suficiente para preparar mil milhões de refeições, enquanto 9% da humanidade passa fome”. O secretário-geral da ONU avisa ainda que este desperdício está a “colocar em risco o clima, os ecossistemas e a saúde” e a ameaçar a capacidade de alimentar a população no futuro.
Segundo a ONU, o desperdício alimentar equivale hoje a um quinto de toda a comida disponível para os consumidores, sendo que 60% acontece nos lares, 28% nos serviços de alimentação e 12% no retalho. Além do impacto social e ambiental, gera prejuízos económicos anuais de cerca de um bilião de dólares, sublinha.
Para António Guterres, há margem para agir já, nomeadamente através de pequenas mudanças no consumo. “Os consumidores podem ter um grande impacto com pequenas alterações nos seus hábitos de compra e de confeção”, defende, lembrando que “não podemos tomar os alimentos por garantidos”.