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Um terço do PIB mundial é desperdiçado, aponta estudo

O relatório Circularity Gap Report 2026 quantifica, pela primeira vez, o custo económico do desperdício de recursos: 25,4 biliões de euros perdidos anualmente.

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dinheiro euros notas moedas Thomas Trutschel/AP
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Por cada três euros de valor criado no mundo, um é perdido antes de chegar a algum lado útil, conclui o Circularity Gap Report 2026,  pela organização sem fins lucrativos Circle Economy em colaboração com a Deloitte. O estudo introduz um novo conceito, o fosso de valor (value gap, em inglês), para medir o custo económico real do modelo linear de produção e consumo.

O valor perdido anualmente fixa-se em 25,4 biliões de euros, equivalente a cerca de 31% do PIB mundial, estimado em 82,6 biliões de euros. Esta magnitude, aponta o relatório, não é inevitável, já que se trata de perdas evitáveis, estruturalmente parte de um sistema económico assente na lógica do "extrair, produzir, descartar".

O estudo identifica cinco vias principais pelas quais o valor desaparece. A maior fatia pertence ao desperdício no fim de vida dos produtos – em que se incluem embalagens, máquinas, edifícios e veículos descartados antes do tempo – que representa 10 biliões de euros em valor perdido. As ineficiências energéticas, do momento da extração ao consumo final, somam 8,7 biliões. A deterioração prematura de ativos de longa duração, como infraestruturas e maquinaria, custa 5,2 biliões de euros. As perdas no processamento industrial ficam nos 904 mil milhões e o desperdício alimentar representa 650 mil milhões de euros anuais.

Por detrás destes números estão quatro mecanismos que o relatório descreve como causas profundas, e que incluem a má gestão de materiais e produtos, a obsolescência prematura, a deterioração evitável de ativos e a falta de incorporação nos preços dos custos ambientais e sociais.

O que o PIB não vê

Uma das teses centrais do relatório é que os indicadores económicos tradicionais, em particular o PIB, não veem esta destruição de valor. "O PIB captura apenas o fluxo de valor acrescentado hoje e ignora a depleção, degradação ou destruição dos stocks que fundamentalmente sustentam a geração desse valor", lê-se no documento. Um derrame de petróleo e um investimento em educação valem o mesmo para o PIB, desde que ambos movimentem dinheiro, aponta-se. Esta invisibilidade tem consequências práticas, argumentam os autores, porque se os mercados e os decisores políticos não veem as perdas, não têm incentivos para as corrigir.

Para Gonçalo Quintino, partner da Deloitte, "o modelo económico atual leva a um enorme grau de desperdício, levando à perda de recursos e de valor, assente em ciclos curtos de utilização e numa dependência intensiva de novos recursos". O responsável acrescenta que "a adoção de princípios de economia circular permite reter esse valor, aumentando a eficiência, a competitividade e a resiliência das organizações num contexto de crescente escassez".

O relatório não se limita a diagnosticar e propõe caminhos concretos para as empresas, os investidores e governos. Do lado empresarial, defende que as organizações mapeiem sistematicamente as suas perdas de valor ao longo de toda a cadeia produtiva e apostem em modelos de negócio circulares, como serviços de produto, leasing de materiais ou sistemas de devolução. A colaboração entre empresas do mesmo setor é apontada como essencial para criar economias de escala.

Para o sistema financeiro, o desafio passa por integrar critérios de durabilidade, reparabilidade e recuperabilidade nas decisões de crédito e investimento, tratando ativos circulares como posições economicamente mais sólidas, e não como desvios ao modelo padrão.

Aos governos, o relatório pede que corrijam os sinais de preço, tornando os custos ambientais e sociais visíveis no mercado, e que utilizem instrumentos fiscais, como impostos e incentivos, para tornar as práticas circulares mais rentáveis do que as lineares. Fechar este value gap, apontam os autores, é uma oportunidade económica de 25 biliões de euros por ano.

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