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Países precisam de se preparar para chuvas mais intensas e frequentes

Estudo internacional liga o agravamento das cheias à intensificação da precipitação e à exposição do território nacional, espanhol e marroquino. Comunicação entre Estado central e municípios pode ser melhorada, aponta.

19:03
Efeitos do mau tempo devido à passagem da depressão Kristin em Pombal.
Efeitos do mau tempo devido à passagem da depressão Kristin em Pombal. Ricardo Almeida/CM
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Desde meados de janeiro, “nove tempestades com nome atingiram o Mediterrâneo ocidental”, afetando com especial intensidade Espanha, Portugal e Marrocos. Em território nacional, a tempestade Kristin foi a mais mortífera, tendo provocado “seis vítimas mortais” diretas e “ventos até 202 quilómetros por hora que deixaram um milhão de pessoas sem eletricidade e provocaram danos estruturais generalizados”. Apesar de reconhecer pontos positivos, a World Weather Attribution (WWA) recomenda a adoção de medidas de prevenção.

Segundo a análise, embora os ventos tenham sido excecionais, não explicam por si só a dimensão dos impactos – os mais severos, lê-se, deveram-se à precipitação intensa que acompanhou cada tempestade e que conduziu a inundações em várias regiões”. Além disso, os solos cada vez mais saturados contribuíram igualmente para as cheias, aumentando o risco à medida que os episódios se sucediam.

Para avaliar a influência das alterações climáticas induzidas pelo ser humano, os investigadores analisaram o valor máximo de precipitação num dia durante o semestre de inverno (de outubro a março), focando-se em duas regiões que incluem o território português: o Norte de Portugal/Noroeste de Espanha e o Sul de Portugal/Sudoeste de Espanha. Foi ainda estudado o território marroquino, onde as cheias causaram 43 mortes.

À escala de grandes regiões, como as analisadas pela WWA, este tipo de episódio de precipitação extrema não é estatisticamente raro, ocorrendo, em média, uma vez a cada cinco anos no Norte e a cada 40 anos no Sul. Mas quando se olha para áreas mais pequenas e específicas, a intensidade registada corresponde a um evento muito mais incomum, com probabilidade de acontecer apenas uma vez em mais de 100 anos. É essa diferença entre a média regional e o que aconteceu localmente que ajuda a explicar a gravidade das cheias em determinados concelhos.

As séries de observação desde 1950 indicam que os dias mais chuvosos estão hoje a ser mais intensos do que no passado, como mostra a análise, que lembra que a precipitação máxima num único dia aumentou cerca de 36% no Sul e 29% no Norte das regiões estudadas. Ou seja, quando chove muito, chove hoje com mais intensidade do que há várias décadas.

Apesar da violência dos fenómenos, a resposta institucional contribuiu para limitar a tragédia, consideram os autores, que apontam a emissão de “avisos prévios nos três países, permitindo às autoridades agir atempadamente”, com evacuações e medidas preventivas que fizeram com que “o número de vítimas mortais se mantivesse relativamente baixo”.

Embora reconheça progressos no reforço dos sistemas de gestão de catástrofes, o relatório sublinha que “é ainda necessário um melhor alinhamento entre os sistemas de aviso e resposta a nível nacional e municipal, bem como o reforço de capacidades ao nível local”. É essencial garantir que as autarquias dispõem de meios técnicos, planeamento atualizado e capacidade operacional para agir rapidamente, defendem os cientistas.

A WWA alerta ainda para fatores estruturais que agravam o risco, nomeadamente a existência de centros urbanos densamente povoados e áreas onde “o desenvolvimento impulsionado pelo turismo se expandiu para zonas inundáveis”, bem como localidades costeiras baixas e expostas.

Para reduzir o risco no futuro, é necessário que “a informação sobre risco de desastre, atualizada regularmente, combine avaliações de vulnerabilidade, mapeamento da exposição e projeções climáticas futuras”, integrando depois essa informação no ordenamento do território, nos códigos de construção e nas decisões de investimento em infraestruturas. 

A organização sublinha também que os impactos de longo prazo podem ser reduzidos se as medidas de resposta e recuperação forem “atempadas e devidamente implementadas”, incluindo a avaliação estrutural de edifícios, a reabilitação de sistemas de água e saneamento e a limpeza segura de contaminantes.

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