Portugal prepara-se para dar um passo inédito no tratamento de lamas resultantes das águas residuais, com a instalação da primeira unidade de hidrólise térmica do país na ETAR de Frielas, em Loures. Trata-se de uma tecnologia que permite gerir melhor um resíduo inevitável das estações de tratamento, reduzir a sua quantidade e aproveitar mais valor daquilo que, até aqui, era encarado sobretudo como um problema.
As lamas resultam do tratamento das águas residuais e a sua gestão é um dos maiores desafios ambientais e operacionais destas infraestruturas, um problema a que a hidrólise térmica consegue responder. Segundo a Águas do Tejo Atlântico, responsável pelo projeto, o processo “permite otimizar a eficiência do tratamento e aumentar a valorização dos subprodutos gerados” – o que significa, na prática, que as lamas que resultam do tratamento de águas residuais passam a gerar mais biogás e acabam por dar origem a biosólidos com melhor qualidade.
Com esta tecnologia, prevê-se “uma redução de cerca de 52% do volume de lamas” provenientes de Alcântara, Alverca e Frielas, três das maiores instalações do sistema. Isso significa menos material para transportar, armazenar ou encaminhar, com ganhos ambientais e também económicos.
Uma das chaves está na produção das chamadas biolamas+, biosólidos estabilizados que podem ser valorizados no solo. De acordo com a empresa, “permitem a sua valorização agrícola direta” e “fornecem matéria orgânica e nutrientes aos solos, reduzindo a necessidade de fertilizantes e corretivos químicos, nomeadamente fósforo e azoto”. Isto abre caminho a uma lógica mais circular, já que em vez de eliminar um resíduo, aproveita-se esse material para regenerar solos e devolver nutrientes à terra.
Essa valorização pode ter diferentes aplicações, nomeadamente em uso agrícola direto em culturas como milho, trigo, centeio ou na exploração florestal. Noutros casos, pode seguir para compostagem com materiais orgânicos como serradura ou palha, dando origem a um composto com maior valor agronómico e apto a utilizações mais amplas, incluindo produções hortícolas.
Antes de chegarem ao solo, estas lamas podem contribuir para gerar biogás, que por sua vez serve para produzir eletricidade. A empreitada terá capacidade para valorizar 72.924 toneladas de lamas por ano e permitirá produzir mais 13,3 GWh anuais de energia verde.
O investimento, adjudicado por 28,7 milhões de euros, deverá ficar concluído no último trimestre de 2027. Este projeto, refere a empresa, representa “uma mudança de paradigma na gestão de subprodutos” e está alinhada com objetivos de economia circular, descarbonização e reforço da produção de energia renovável.
Além da unidade de hidrólise térmica, a Águas do Tejo Atlântico tem em preparação empreitadas para a compostagem de lamas em Torres Vedras e Óbidos, com o início dos trabalhos previstos ainda para este ano. São iniciativas que vão “reforçar a capacidade de valorização e garantir destinos ambientalmente responsáveis para as lamas”.