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Transição energética pode cumprir metas climáticas com menos mineração, diz a Greenpeace

Estudo indica que políticas públicas, novas tecnologias de baterias e reciclagem podem reduzir de forma significativa a procura de minerais críticos sem comprometer o objetivo climático de 1,5 graus celsius.

16 de Março de 2026 às 21:00
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lítio Istockphoto
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A transição energética necessária para limitar o aquecimento global a 1,5 graus celsius pode ser alcançada sem uma corrida massiva à extração de minerais críticos, desde que os governos adotem políticas que reduzam a procura e reforcem a eficiência no uso de recursos. A conclusão é de um novo da Greenpeace International, elaborado por investigadores do Institute for Sustainable Futures da University of Technology Sydney.

O estudo, intitulado “Beyond Extraction: Pathways for a 1.5°C-aligned Energy Transition with Less Minerals”, analisa diferentes cenários energéticos até 2050 e conclui que “políticas sólidas e tecnologias inovadoras podem limitar a procura de minerais numa transição energética alinhada com 1,5 graus”. Ainda assim, alerta o autor principal, o professor Sven Teske, alcançar esse potencial exige “liderança política responsável e ação decisiva já hoje”.

A investigação parte de um dilema frequentemente colocado no debate sobre a transição energética com a necessidade crescente de minerais como lítio, níquel, cobre ou cobalto para tecnologias limpas. Estes recursos são frequentemente classificados como “minerais críticos”, num contexto em que a procura global tende a aumentar com a eletrificação da economia e a expansão das energias renováveis.

Mas, segundo o relatório, a expansão da mineração tem frequentemente custos ambientais e sociais elevados. “A mineração traz frequentemente destruição ambiental e danos sociais”, afirma Elsa Lee, copresidente da área de Biodiversidade da Greenpeace International, que acrescenta que a atividade está “alegadamente ligada ao trabalho infantil, à violação de direitos laborais, à apropriação de terras de povos indígenas e à degradação dos ecossistemas”.

Apesar de todos os cenários analisados preverem um aumento da procura de minerais face aos níveis atuais, o estudo mostra que escolhas as políticas e tecnológicas podem reduzir de forma significativa o crescimento. Entre as soluções apontadas estão o reforço do transporte público, a redução da dependência do automóvel individual, o desenvolvimento de baterias mais eficientes e programas ambiciosos de reciclagem (recorde, a este propósito, o de reembolso de embalagens). 

Num dos cenários analisados, designado como Progressivo, estas mudanças podem reduzir a procura acumulada de minerais em cerca de 23% entre 2024 e 2050 face ao cenário base, que segue uma trajetória compatível com os objetivos climáticos de Paris.

A reciclagem surge como uma das ferramentas mais eficazes para aliviar a pressão sobre novos recursos, com o relatório a estimar que, com políticas ambiciosas, os materiais recuperados de tecnologias em fim de vida possam reduzir a procura total de minerais em até 45% em alguns cenários.

Sobre a evolução das tecnologias de armazenamento de energia, o estudo destaca o potencial das baterias de sódio-íon, que não utilizam lítio, permitindo reduzir ainda mais a procura por esse mineral em cerca de 15% em determinados cenários.

A análise compara também a localização das reservas minerais com áreas de elevada importância ecológica e social que devem, segundo a organização, ficar fora dos limites da mineração. Os resultados sugerem que, com as políticas adequadas e maior circularidade dos materiais, é possível satisfazer as necessidades da transição energética sem explorar ecossistemas críticos, seja em terra ou no oceano.

“Hoje sabemos que a mineração em mar profundo não só vai contra a ciência, a ética, as pessoas e o planeta, como nem sequer é necessária para uma transição renovável”, afirma Ruth Ramos, responsável da campanha da Greenpeace contra esta atividade.

Em Portugal, o tema tem sido particularmente debatido, nomeadamente com a aprovação de uma moratória à mineração submarina até 2050, decisão que a Greenpeace considera um exemplo a seguir. “Portugal já liderou o caminho ao proibir a mineração submarina até 2050. Agora, o mundo deve seguir este exemplo”, defende Ana Farias Fonseca, coordenadora de campanhas da Greenpeace Portugal.

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