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Sustentabilidade saiu do relatório e passou a critério de investimento

Na conferência Talks ESG, na Católica Porto Business School, empresários defenderam que o tema deixou de ser apenas um exercício de reporte e passou a influenciar as decisões estratégicas.

17 de Março de 2026 às 14:30
Empresários discutem critérios ESG na Católica Porto Business School
Empresários discutem critérios ESG na Católica Porto Business School José Gageiro
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Ana Borges, Isabel Barros, João Diogo Marques da Silva e João Pinto debateram o papel da liderança na integração da sustentabilidade na estratégia empresarial, sublinhando que os fatores ESG deixaram de estar à margem do negócio para passarem a influenciar investimento, risco, financiamento e competitividade. O debate foi moderado por Rui Neves, jornalista do Negócios.

Durante anos, a sustentabilidade foi tratada em muitas empresas como um capítulo autónomo, frequentemente associado ao reporte, à reputação ou à pressão regulatória. Na conferência Talk ESG - Sustainability in Action, cujo tema foi “Leadership Driving Sustainable Transformation”, integrada na iniciativa Negócios Sustentabilidade 20|30, em parceria com a Católica Porto Business School, a mensagem dominante foi a de que o tema subiu à estratégia e já entrou no núcleo das decisões empresariais.

Essa mudança ficou patente nas intervenções de Ana Borges, administradora do Grupo MDS, Isabel Barros, administradora executiva da Sonae e presidente do Grace - Empresas Responsáveis, João Diogo Marques da Silva, co-CEO da Galp, e João Pinto, diretor da Católica Porto Business School, num debate centrado no papel das lideranças na transformação sustentável dos modelos de negócio. No painel, uma das ideias mais repetidas foi a de que a sustentabilidade deixou de poder ser tratada como uma área separada do negócio. Ana Borges, administradora da MDS, defendeu precisamente isso ao falar da gestão de risco, que “tem de estar incorporada no modelo de negócio”. “Não é um assunto para discutir à parte em comités e pôr em relatórios de sustentabilidade”, acrescentou. Para a responsável, os fenómenos climáticos extremos vieram mostrar que as empresas já não podem olhar apenas para os seus ativos diretos, tendo de perceber também como chuvas intensas ou interrupções logísticas podem comprometer as cadeias de abastecimento e a continuidade operacional.

A gestão de risco tem de estar incorporada no modelo de negócio.

A sustentabilidade não pode ser um assunto para discutir à parte em comités e pôr em relatórios.
Ana Borges, Administradora do Grupo MDS

Além da prevenção, o setor segurador tem vindo também a desenvolver novos instrumentos para responder a riscos cada vez mais imprevisíveis. Ana Borges destacou, por exemplo, o crescimento dos chamados seguros paramétricos, que são ativados automaticamente quando ocorre um determinado fenómeno natural, como um sismo ou um evento climático extremo, independentemente de existir ou não um dano físico imediato. Este tipo de soluções permite acelerar o pagamento das indemnizações e garantir liquidez imediata às empresas ou instituições afetadas, facilitando a recuperação da atividade económica. Em alguns países, explicou, estes mecanismos já são utilizados em larga escala, incluindo por governos, como aconteceu em Marrocos após o terramoto que atingiu o país, permitindo mobilizar rapidamente recursos para a reconstrução.

A responsável sublinhou ainda que, apesar da evolução dos instrumentos financeiros e seguradores, continua a existir um défice de literacia em gestão de risco no tecido empresarial, sobretudo entre empresas de menor dimensão. Para muitas organizações, disse, a gestão de risco continua a ser encarada sobretudo como um custo, quando deveria ser vista como parte integrante da estratégia de negócio e da sustentabilidade a longo prazo.

ESG é para levar a sério

Na perspetiva da Sonae, a integração da sustentabilidade tem hoje tradução concreta em metas, mas também na governação e no financiamento. Isabel Barros recordou que o grupo criou, em 2015, um órgão consultivo de sustentabilidade e obrigou as várias empresas a definirem objetivos de curto e longo prazo em áreas como a ação climática, circularidade, biodiversidade, apoio à sociedade e diversidade, equidade e inclusão. “Todos os colaboradores da Sonae são medidos por um KPI de sustentabilidade”, afirmou, acrescentando que “90% do nosso financiamento está associado a critérios ESG, descarbonização e diversidade, equidade e inclusão”. Mais do que uma exigência externa, sustentou, a sustentabilidade tornou-se um fator de competitividade e diferenciação. “No final, [se uma empresa] não souber de sustentabilidade, está a desenvolver um produto que o consumidor não vai comprar”, acredita. No caso do retalho, a sustentabilidade estende-se também à relação com os fornecedores e produtores, em particular na agricultura. Isabel Barros recordou que o grupo trabalha com centenas de produtores nacionais, muitos deles de pequena dimensão, que enfrentam hoje desafios acrescidos associados às alterações climáticas. “Temos de apoiar esses produtores, mas também temos de lhes mostrar qual é o benefício da sustentabilidade e de colheitas mais resilientes face a estes acontecimentos a que temos assistido”, explicou.

Todos os colaboradores da Sonae são medidos por um KPI de sustentabilidade.

Quem não souber de sustentabilidade está a desenvolver um produto que o consumidor não vai comprar.
Isabel Barros, Administradora executiva da Sonae e presidente do Grace

Essa transformação passa muitas vezes por formação técnica, apoio na transição de práticas agrícolas ou até mesmo pelo cofinanciamento de projetos. Num setor onde a população ativa está envelhecida, acrescentou, a sustentabilidade implica também um esforço de capacitação que permita adaptar as explorações agrícolas a novas exigências ambientais e de mercado.

Também no setor da energia, João Diogo Marques da Silva insistiu que a mudança nas empresas não é cosmética, mas “um processo e um percurso”, defendendo uma visão pragmática da transição energética. Numa empresa associada historicamente aos combustíveis fósseis, o co-CEO da Galp argumentou que a sustentabilidade passou a estar “em pé de igualdade com temas como retorno e risco” nas decisões de investimento. “A sustentabilidade deixou de ser uma área, um projeto, um elemento de reporting, e passou a incorporar-se nas decisões de investimento”, resumiu.

A sustentabilidade passou a estar em pé de igualdade com temas como retorno e risco nas decisões de investimento.

Não estamos perante uma mudança cosmética, mas perante um processo e um percurso.
João Diogo Marques da Silva, Co-CEO da Galp

O responsável enquadrou essa transformação num contexto marcado por maior volatilidade e por choques sucessivos, do apagão aos eventos meteorológicos extremos, que expõem a vulnerabilidade das operações e das infraestruturas. Daí a importância da resiliência, da escala e da segurança de abastecimento, bem como de investimentos como os anunciados para Sines, onde a empresa quer produzir novos combustíveis de menor intensidade carbónica.

Do lado académico, João Pinto procurou ligar o debate da sustentabilidade à lógica financeira e estratégica das organizações. Para o diretor da Católica Porto Business School, as empresas têm de olhar para os fatores ambientais, sociais e de governança não apenas como questões reputacionais, mas como elementos que afetam diretamente o risco, os cash flows e o acesso a financiamento. “É mesmo preciso que as empresas olhem para os fatores de risco e percebam, no final do dia, como é que estes eventos afetam, do ponto de vista financeiro, os seus cash flows”, afirmou. Nas grandes empresas, alertou, a transição pode avançar com mais recursos, enquanto nas PME o movimento continua muitas vezes dependente de três pressões combinadas, a regulação, os clientes e o sistema financeiro.

Os fatores ambientais, sociais e de governança afetam diretamente o risco, os cash flows e o acesso a financiamento.

As empresas têm de perceber como é que estes eventos afetam, do ponto de vista financeiro, os seus cash flows.
João Pinto, Diretor da Católica Porto Business School

A pressão regulatória e financeira é outro dos fatores que tem acelerado esta transformação. Ana Borges recordou que os reguladores europeus têm vindo a introduzir novos instrumentos de avaliação de risco ligados à sustentabilidade, como os chamados ESG stress tests promovidos por entidades como a Autoridade Bancária Europeia (EBA), a Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA) ou a Autoridade Europeia dos Seguros e Pensões Complementares de Reforma (EIOPA). Estes mecanismos procuram avaliar a exposição do sistema financeiro a riscos climáticos e ambientais, criando incentivos adicionais para que empresas e investidores integrem estes fatores nas suas decisões.

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