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Anabela Raymundo: “A alimentação sustentável é uma equação multivariada”

“Qual é a alimentação mais sustentável?” A resposta é: várias! Falámos com dois especialistas que sublinham que a alimentação é um elemento “muito complexo”, pelo que há vários caminhos para a sustentabilidade.

Emília Freire 21 de Julho de 2021 às 11:00
D.R.
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Se olharmos para a Dupla Pirâmide, que o Barilla Center for Food and Nutrition (BCFN) lançou em 2010, a resposta mais “correta” à pergunta “Qual é a alimentação mais sustentável?” seria, talvez, a dieta mediterrânica. Mas a sustentabilidade é um “chapéu” que abrange mais dois pilares além do ambiental – o económico e o social. Por isso é tão complicado eleger um tipo de alimentação mais sustentável, seja ela biológica, flexitariana, paleo, vegetariana ou vegan. Os especialistas frisam que terá de haver um equilíbrio, apostando no binómio saudável/sustentável.

“Não é certo que essas dietas sejam mais saudáveis do que uma dieta ‘normal’. Não há evidências científicas de que sejam mais saudáveis nem mais sustentáveis, são opções que as pessoas podem tomar”, afirma Anabela Raymundo, coordenadora do Grupo 3 (Food and Feed) da Unidade de Investigação LEAF (Linking Landscape, Environment, Agriculture And Food) do Instituto Superior de Agronomia (ISA).

“O sistema alimentar é um sistema crucial no mundo e podemos dizer que é uma história de sucesso porque desde os anos 50 conseguimos reduzir a fome de 45-50% para cerca de 10%. E isso deve-se aos avanços na agricultura, que deixou de ser baseada na intuição para se apoiar em várias ferramentas que conduziram ao smart farming e a um enorme aumento da produtividade das culturas”, afirma Randy Jagt, partner da Deloitte Holanda e líder da divisão de Future Food

No entanto, este especialista frisa que “o trabalho está longe de estar concluído.” “Se olharmos para a ligação alimentação/saúde, devia ser um casamento ‘feito no céu’ mas, afinal, estão separados e não falam um com o outro, porque, por um lado, temos cerca de 1,9 mil milhões de pessoas obesas ou com peso a mais e, por outro, mais de dois mil milhões de pessoas com deficiências nutricionais. Por isso, temos de juntar este binómio alimentação/saúde”, explica.

Randy Jagt refere também que essa é uma dimensão-chave na questão da alimentação sustentável, mas lembra que a outra é o planeta. “Todos os gases com efeito de estufa estão já em níveis críticos e o sistema alimentar é um dos grandes contribuidores para o seu aumento. E se extrapolarmos a situação atual para 2050, quando teremos de alimentar nove a dez mil milhões de pessoas no mundo, não sobreviveremos neste planeta, o nosso planeta não sobreviverá. Por isso, temos de agir”, diz o partner da Deloitte Holanda.

Avançámos mais em dois anos do que nas décadas anteriores

O líder da divisão de Future Food da Deloitte Holanda nota, todavia, que embora esta situação se tenha vindo a agravar há décadas, “nos últimos dois anos vimos uma enorme aceleração por parte dos governos e das multinacionais, mas também da sociedade civil, dos consumidores, com várias ações para travar este problema. O ano de 2020 foi um alerta e com o Green Deal, com a estratégia Do Prado ao Prato e com a nova Política Agrícola Comum (PAC), a Europa tem cada vez mais políticas e incentivos para resolver esta situação”.

Salientando que “o sistema alimentar é muito complexo e intrincado”, Randy Jagt fala sobre a cadeia de abastecimento, nomeadamente, a defesa de consumir apenas produtos locais, evitando uma maior pegada de carbono. Mas, proximidade nem sempre quer dizer menor pegada: “No outono e inverno, se escolher comprar tomates produzidos localmente em estufa, que precisam de muito mais luz, logo eletricidade, em vez de os importar de Portugal, por exemplo, não sei se a pegada não será maior”, refere, sublinhando que “nunca são questões simples de resolver. Por isso, precisamos de transparência e, nesta ‘era do consumidor’, o que ele pede é precisamente transparência e dados, e isso ainda falta neste momento. Mas não podemos esquecer que estamos a mudar todo um sistema e que, para isso, precisamos de colaboração através deste ecossistema”.

EcoScore, Clean Label e novos ingredientes

Justamente para dar informação ao consumidor e ajudá-lo a escolher produtos mais sustentáveis, a investigadora Anabela Raymundo conta que se tem falado cada vez mais em criar um sistema universal que meça o impacto ambiental de cada alimento. Um EcoScore, idêntico ao NutriScore que já existe, e que possa ser colocado nos rótulos dos alimentos. Mas, mais complicado ainda será conseguirmos chegar a um SustScore: “Que, de facto, tenha em conta tudo o que estamos a falar – produzir tomate na Holanda no inverno ou produzir tomate em Portugal: o que representa cada um em termos de pegada, de EcoScore?” Medir “também o que representa em termos de custos e de impacto social. Porque se todos os holandeses decidissem importar de Portugal os vegetais no inverno, como ficaria a agricultura na Holanda?”, exemplifica.

Randy Jagt recorda outra questão: a do desperdício alimentar. Cerca de 30% dos alimentos produzidos são desperdiçados e, aqui, o consumidor tem um papel a desempenhar.

Anabela Raymundo defende que “a sustentabilidade é uma equação multivariada e com muitas soluções, que incluem vários tipos de dietas e consumos de novos produtos, mais ou menos ‘estranhos’”, como insetos ou carne celular. No Grupo 3 do LEAF no ISA, que coordena, tem-se trabalhado “em conjunto com a indústria alimentar, já há muitos anos, em várias alternativas, novos ingredientes como micro e macroalgas, que podem ter um papel importante nas novas exigências de Clean Label – sem corantes, nem conservantes – por parte dos consumidores”.

Todos esses elementos, e muitos mais, podem vir a fazer parte de uma alimentação mais sustentável no futuro.

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