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Há risco de greenwashing no financiamento sustentável

Para o CEO do BPI são os bancos que vão pagar uma parte importante desta fatura da transformação ESG imposta pela regulação mas sem qualquer benefício

Filipe S. Fernandes 08 de Abril de 2022 às 11:54
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"Em termos de ESG existe ainda muito por fazer para o reconhecimento desses scores e ratings porque não existe uniformização, um controle muito grande, e portanto pode haver algum greenwashing por parte dos emitentes", sublinhou Mário Bolota, presidente executivo do Banco BiG, durante o painel "Finanças Sustentáveis: Como a banca traça o caminho da sustentabilidade?" da Grande Conferência Negócios Sustentabilidade 20|30, que decorre hoje, em Cascais e em streaming.

Para Mário Bolota este controlo cabe aos governos e aos supervisores financeiros e admite que  "já foi feito um esforço em termos de taxinomia, mas tem de se fazer um pouco mais em termos de classificação das tipologias de risco e classificação e valorização de critérios ESG".

João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI, mostrou-se de acordo com os critérios de ESG mas considera que o busílis está na forma como se chega, "não é se estamos de acordo mas a execução". Considera que os bancos vão trabalhar pro bono para fazer esta grande mudança porque "vão fazer uma transformação enorme na sua estrutura para cumprir um conjunto enorme de regulação. Diz-se que não é uma corrida de 100 metros, mas os stress testes são em junho".

Para João Pedro Oliveira e Costa, a banca tem "de fazer um investimento gigante, o que estamos a fazer, mas sem nenhum benefício, e até convinha que tivéssemos algum benefício neste processo, porque somos o motor desta transformação. São os bancos que vão pagar uma parte importante desta fatura. Vai haver um conjunto de benefícios para outros setores nomeadamente as empresas que fazem ratings, dados ESG, e que deveriam trabalhar por bono…".

Como reconheceu Clara Raposo na sua apresentação, está-se a "transferir para os gestores do setor financeiro a responsabilidade de não só olharem para a maximização do valor do capital investido nas suas organizações mas de olharem também para um conjunto de objetivos muito alargados. O que faz com que os CEO dos grandes bancos tenham de seguir uma estratégia de financiamento e desenvolvimento que sejam complaints com  o ESG".

 

Investimentos sustentáveis nos seguros

O grupo Ageas começou este caminho da sustentabilidade na parte dos investimentos mas optou sobretudo numa abordagem global referiu Nelson Machado, Membro da Comissão Executiva do Grupo Ageas Portugal, que reconheceu que "a carga de fazer a transformação a custo zero é inferior à da banca".

"Hoje se quiser fazer um produto em que pague menos 2 ou 3% ao cliente por uma solução que seja baseada em critérios ESG provavelmente este ainda não quererá, mas, por outro lado, se o diferencial for pequeno ou nulo terá apetência por produtos baseado em critérios ESG", sustentou Nelson Machado.

A Ageas Portugal gere 18 mil milhões de euros de ativos de médio e longo prazo e só menos de 10% não têm rating de sustentabilidade, e 7 mil milhões de euros cumprem critérios de sustentabilidade. Grande parte destes ativos é dívida pública, e "o nosso rating médio global da nossa carteira (em que abaixo de 20 é muito bom) tem média global de 18%", afirmou Nelson Machado. Acrescentou que o investimento com base em critérios de sustentabilidade não teve "qualquer impacto negativo em termos de rentabilidade".

"O BPI vai querer ser protagonista nas green bonds, o BPI e o seu acionista CaixaBank têm estado envolvidos nas principais emissões", afirmou João Pedro Oliveira Costa. "A ideia de que as poupanças vão seguir cada vez um padrão de sustentabilidade é não só uma exigência regulamentar mas uma apetência pelos próprios investidores". Como a procura é muito grande por este tipo de produtos, o preço torna-se muito mais apetecível para quem toma a dívida. "Não só é um novo normal como é a ordem do dia", salientou João Pedro Oliveira Costa.

Em termos de indústria de fundos ainda há um caminho a seguir salientou Mário Bolota. Na sua opinião existe uma sensibilidade muito grande nos investidores e um grande apetite por emissões de obrigações verdes. "Já se sente isso por parte dos gestores de fundos e de carteiras. O banco no processo de estratégias que apresenta aos seus clientes tem em conta mas ainda há muito trabalho a fazer e que tem a ver com a taxinomia, a definição clara dos critérios ESG e como é que são valorizados", concluiu Mário Bolota.

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