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Miguel Maya: “A Europa tem de ser exemplar nos passos a dar nesta transição”

Miguel Maya destaca a necessidade de cooperação às escalas local e global para se combater as alterações climáticas. E que Portugal está particularmente exposto a riscos físicos que devem ser acautelados.

Sónia Santos Dias 03 de Novembro de 2021 às 14:30
Miguel Maya, CEO do Millennium bcp Duarte Roriz
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As alterações climáticas estão a provocar fenómenos extremos em todo o mundo, incluindo na Europa, como é possível testemunhar com cada vez mais frequência. "Esta é uma nova realidade para a qual a sociedade e as empresas têm de se preparar", começou por destacar Miguel Maya, CEO do Millennium bcp, na primeira reunião de membros do Conselho Estratégico do Prémio Nacional de Sustentabilidade, que teve lugar no dia 29 de outubro, nos Montes Claros, em Lisboa.

Na sua apresentação, "Os desafios da sustentabilidade na sociedade e empresas e o papel da banca neste novo contexto", o keynote speaker traçou um mapa dos desafios da sustentabilidade que vão além das próprias questões ambientais. "O desafio é muito mais do que isso, porque chegámos à conclusão de que ainda temos 750 milhões de pessoas que vivem com menos de dois dólares por dia e que mais de 750 milhões de pessoas vivem subnutridas. Toda esta situação vai ter de convergir, a bem de todos nós, para um nível de vida muito mais sustentável", frisou.

Esta tomada de consciência só recentemente começou a sair do nicho dos especialistas em ambiente, para estar agora no topo da agenda e das preocupações dos países e organizações. Mas este é um desafio que só pode ser combatido com a colaboração de todos: "Do ponto de vista das implicações e riscos físicos para Portugal, se nós fôssemos 100% exemplares, não mudava absolutamente nada, porque há cinco países que representam 57% das emissões. Portanto, isto é um desafio absolutamente global. E há dois países, a China e a Índia, que só eles representam mais de 35% das emissões", frisou. Neste sentido, "parece absolutamente claro que não há nenhuma hipótese de resolvermos este tema se não passarmos para um patamar de competição e cooperação. Temos de competir entre blocos, mas não seremos capazes de resolver este tema se não aprendermos a trabalhar em cooperação à escala local e à escala global", acrescentou.

Cerca de 88% dos investidores consideram os temas ambientais essenciais na seleção de investimento. Isto há 10 anos não tinha nenhuma expressão. Também 30% dos consumidores estão dispostos a pagar mais por produtos e serviços de empresas comprometidas com iniciativas sustentáveis. Miguel Maya, CEO do Millennium bcp
O mundo conta hoje com uma série de instrumentos que mostram o caminho a seguir, entre os quais, o Acordo de Paris, o Pacto Ecológico Europeu ou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Neste movimento global, para Miguel Maya, "a Europa tem de ser absolutamente determinante a dar o exemplo nos passos que têm de ser dados nesta transição", recordando que todos estão cada vez mais sensíveis à questão ambiental e aos ODS. "Cerca de 88% dos investidores consideram os temas ambientais essenciais na seleção de investimento. Isto há 10 anos não tinha nenhuma expressão. Também 30% dos consumidores estão dispostos a pagar mais por produtos e serviços de empresas comprometidas com iniciativas sustentáveis. Portanto, as pessoas estão disponíveis a pagar algo mais por produtos e serviços que sejam sustentáveis. E, sobretudo, há cada vez mais uma preocupação com uma identificação de afinidade com marcas que tenham essa preocupação", referiu.

Portugal exposto a elevados riscos físicos

Pela sua localização, o nosso país está particularmente exposto aos efeitos das alterações climáticas, como ondas de calor, fogos florestais ou seca extrema. "Isto vai obviamente impactar nos riscos físicos e na forma como o mercado vai perceber o risco de Portugal, com implicações diretas em tudo, a começar pelo rating da República", referiu o CEO.

Um estudo recente do Banco Central Europeu considera Portugal como o segundo país na Europa com mais riscos físicos, a seguir à Grécia, podendo isto levar à deslocalização de financiamento. "Isto é perigosíssimo. Há uma concentração de risco em Portugal que põe o país numa situação muito difícil. Riscos físicos significa evitar investimento, é disso que estamos a falar", salientou. Neste sentido, o papel dos bancos "é ajudar os nossos clientes a mitigar estes riscos e a criar uma sensibilidade nos reguladores e poderes políticos para se criarem condições para que as empresas e a atividade económica possam ser desenvolvidas em Portugal sem que haja uma deslocalização do financiamento para outras geografias". Assim, "tem de se criar aqui um modelo de alocação de fundos a nível europeu que permita que Portugal, por exemplo, possa de alguma forma ser compensado pelo aumento dos riscos físicos que se vão verificar".

O CEO referiu ainda o papel relevante das companhias de seguros nesta nova realidade, disponibilizando coberturas relacionadas com os riscos em questão. Assim como a necessidade de haver incentivos que impulsionem os diversos operadores a fazerem a necessária transição climática e digital.

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