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Não deixar o atum ficar em perigo

A população global, em si, está de boa saúde. Mas há espécies, de regiões específicas, que já começam a acusar o peso da pesca excessiva. É o caso do Yellowfin, no oceano Índico. A solução passa por definição de quotas, usar apenas fornecedores certificados de pesca sustentável e diversificar as espécies utilizadas.

Alexandra Costa 06 de Julho de 2022 às 11:00
As capturas de atum deverão atingir os 8 milhões de toneladas em 2035.
As capturas de atum deverão atingir os 8 milhões de toneladas em 2035. D.R.
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O atum é um dos peixes mais pescados (e consumidos) em todo o mundo. Em Portugal faz parte da dieta quotidiana (basta pensar na venda das latas de atum), assim como da gastronomia japonesa, só para dar dois exemplos. Mas será que estamos a pescar demasiado esta espécie. Estará o seu futuro assegurado?

O último relatório SOFIA da FAO indica que o atum continua a ser uma das quatro espécies mais pescadas. Isto apesar das várias medidas implementadas em 2020 para conter a covid-19 - que, em muitos casos, tiveram um impacto negativo na procura com restrições no transporte e acesso aos mercados globais, bem como o encerramento do setor dos serviços alimentares.

No caso específico das capturas de atum e espécies afins, o relatório indica que estas continuaram a atingir alguns dos níveis mais elevados registados, embora as capturas tenham diminuído de 8,2 milhões de toneladas em 2019 para 7,8 milhões de toneladas em 2020. A explicação para esta diminuição prende-se com as exportações de atum fresco e o mercado de sashimi, que foram afetados pelas restrições da covid-19.

Os aumentos mais recentes nas capturas foram na zona 71, ou mais precisamente o Pacífico Centro-Oeste, que aumentou de cerca de 2,7 milhões de toneladas em meados de 2000 para quase 3,8 milhões de toneladas em 2019, com um declínio de mais de 5% em 2020 (3,6 milhões de toneladas). Dentro deste grupo de espécies, o gaiado e o atum-albacora (Thunnus albacares) representaram mais de 55 por cento das capturas.

Apesar da ligeira diminuição da captura de atum durante a pandemia, os números indicam que deverá chegar às 8 milhões de toneladas em 2035. O que, na opinião de Antonia Leroy, head of Ocean Policy no Escritório de Políticas Europeias da WWF, poderá pôr em causa a população mundial de atum se a pesca não for feita de forma sustentável. E dá como exemplo a pesca ilegal. Quando “não regulada e não declarada é uma grande ameaça, e como o atum é uma espécie de alto valor, vários casos de pesca ilegal, não declarada e não regulada foram relatados no passado. Este tipo de pesca está a minar a gestão das pescas.”

Essa é igualmente uma preocupação de empresas da indústria do atum como o Bolton Group, membro fundador da International Seafood Sustainability Foundation. Segundo dados da Fundação, em 2020 a captura de grandes atuns comerciais foi de 4,9 milhões de toneladas. Com uma nota positiva. Globalmente, 61% das unidades populacionais estão a um nível saudável de abundância, 13% são sobre-exploradas e 26% estão a um nível intermédio. Em termos de exploração, 69,6% das unidades populacionais não estão a sofrer de sobrepesca e 21,7% estão a sofrer de sobrepesca. Ou seja, a análise dos dados indica que no geral já estão a ser tomadas medidas para garantir uma pesca sustentável da espécie. E isso passa, por exemplo, por as empresas da indústria estarem a optar por ter cada vez mais peixes vindos de pesca sustentável. A Bolton, por exemplo, está neste momento com 70%, mas rapidamente quer alcançar os 100% de fontes sustentáveis, para todas as suas marcas, em 2024. Para tal, o grupo está a trabalhar em parceria com a WWF, por forma a só utilizar fornecedores certificados.

Uma das maiores preocupações reside no oceano Índico, mais precisamente com o atum Yellowfin, constata Luciano Pirovano, diretor Global de Desenvolvimento Alimentar Sustentável no Bolton Group, onde há uma pesca excessiva do mesmo. A solução passa por deixar “descansar” a população porque, como refere o executivo do Bolton Group, é uma espécie que recupera rapidamente. Neste caso específico (e noutros semelhantes) trata-se de regiões menos desenvolvidas que, muitas vezes, necessitam da pesca para sobreviver. Por outro lado, acrescenta, impor limites de pesca apenas é possível com a vontade unânime de todos os países. Algo extremamente difícil de conseguir.

“Neste conflito (ou falta de consenso) estamos a perder tempo”, afirma convicto Luciano Pirovano, que acredita que a indústria tem de começar a fazer pressão para que os países cheguem a um acordo, por forma a proteger as várias populações de atum. Enquanto isso, o grupo decidiu que iria reduzir em 30% a utilização de pescado oriundo do oceano Índico, como forma de fazerem mostrar o seu descontentamento face à forma como o stock está a ser gerido.

Aquacultura não é solução

Ao contrário de espécies como o salmão que pode ser criado em aquacultura isso não é assim tão fácil de fazer com o atum – embora estejam a decorrer alguns projetos-piloto. Um exemplo é o projeto levado a cabo pelos noruegueses da Nortuna AS que, no ano passado, iniciaram uma instalação de unidade para produzir atum em aquacultura em Cabo Verde. A empresa espera atingir até 2023 as 10 mil toneladas de atum-rabilho do Atlântico (Atlantic Blue Fin Tuna ou ABFT) produzidas em aquacultura.

Antonia Leroy tem uma visão um pouco mais pessimista sobre esse tema. “Se se refere às gaiolas de atum (atum capturado na natureza, mas alimentado para aumentar o tamanho e a maturidade nas gaiolas), também vemos muitos casos não relatados. É uma forma de ‘lavar’ as capturas ilegais de atum”, afirma.

Para Luciano Pirovano a solução – além da definição de quotas de pesca – passa pela diversificação da utilização das espécies. Porque, explica, há espécies mais saudáveis do que outras. E estas deveriam ser protegidas. Ou pelo menos dar-lhes algum tempo para conseguirem recuperar. O executivo do Bolton Group deu mesmo o exemplo do Mediterranean Bluefin, que esteve quase a desaparecer. A interdição da pesca permitiu que a espécie recuperasse e hoje a população é considerada como saudável.

Do lado da indústria, Luciano Pirovano, para além de se optar por fornecedores certificados de pesca sustentável, há que fazer pressão junto das entidades governamentais para que se adote uma estratégia que promova a pesca sustentável. algo que não só protege os oceanos e as espécies, mas, também, a indústria. Como aponta Antonia Leroy é possível praticar uma pesca sustentável. Como? “Informando onde, quem e como os peixes são capturados, com ferramentas adequadas de monitorização e controlo, além de termos um sistema de rastreio transparente”, explica. Já em relação ao papel da indústria a opinião é a de que as empresas deverão apoiar as autoridades na divulgação de capturas e capturas acessórias, usando artes seletivas e ajudando a ciência.

A União Europeia é das regiões mais conscientes do problema. Como refere Luciano Pirovano aquando do debate da sustentabilidade do atum está sempre a favor da definição de regras e da diminuição da pesca. “Infelizmente não conseguem convencer todas as outras regiões”, acrescenta, dando como exemplo a última reunião RFMO (Regional Fisheries Management Organizations), em que, aquando do debate sobre o Yellowfin no oceano Índico, a discussão foi feita, de um lado, pela União Europeia e, do outro, por países em desenvolvimento como a Somália, Irão, Iraque, Iémen. Como na maioria destes mercados a pesca é usada apenas para abastecer o mercado interno não se preocupam com questões globais. Nesta situação, acrescenta, a única solução passa por pensar em produtos que sejam importados pela UE e que possam ser usados como forma de pressão. Antonia Leroy, por seu lado, aponta falhas na rastreabilidade, dando como exemplo os produtos processados, como o atum enlatado, que estão isentos dos requisitos de rastreabilidade nos regulamentos de controlo atuais que permitem, em alguns casos, “lavar” peixes capturados ilegalmente. “Queremos que isso seja revisto”, afirma.

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