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Filantropia em Portugal tem ação, mas ainda lhe faltam dados

Estudo ainda em fase preliminar identifica que existe proximidade entre financiadores e organizações apoiadas, embora reconheça que há falhas na medição de impacto, previsibilidade e colaboração.

05 de Maio de 2026 às 20:18
Marcus Aurelius/Pexels
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Em Portugal, a filantropia está longe de ser inexistente. O desafio, porém, é a falta de dados que permitam uma leitura estruturada do que é feito e que impacto que tem, apontou-se esta terça-feira durante a conferência “Mind the Gap: Um olhar sobre a Filantropia em Portugal”, organizada pela Rede Capital Social, em conjunto com a PwC Portugal e The Equator Company, onde foram apresentadas as conclusões preliminares de um estudo sobre o setor que será divulgado em junho.

“Falamos muito de filantropia estratégica, mas sabemos pouco como é que acontece em Portugal”, aponta Marta Vian Santos, diretora do departamento de Social & Communities da The Equator Company, que sublinha que existe “um gap de dados que é relevante”. A dificuldade começa logo na definição dos conceitos, o que leva a que nem sempre a palavra filantropia signifique o mesmo em diferentes estudos, países ou contextos.

Ainda assim, uma ideia consensual parece ser a de que a filantropia deixou de ser uma resposta imediata a necessidades urgentes e passou a ser cada vez mais estratégica, com intencionalidade, horizonte temporal e maior atenção à relação entre quem financia e quem é financiado. Mas, na Europa, essa evolução convive com uma grande fragmentação marcada por diferenças legais, fiscais, de reporte e até no papel do Estado, questões que tornam difícil comparar dados entre países.

Em Portugal, aponta Marta Vian Santos, “não falta ação, mas falta uma leitura estruturada”. Sabe-se quem financia, embora seja difícil perceber porquê, com quem, de que forma e com que resultados.

As conclusões preliminares do estudo apresentadas por Maria Antónia Torres, Deals Tax Partner e Diversity & Inclusion Lead Partner da PwC, apontam precisamente para esse retrato. O estudo ouviu 108 entidades – 59 financiadores e 49 organizações financiadas – e será apresentado na versão final em junho.

Entre os primeiros resultados, mostra-se que existe alinhamento entre as áreas em que atuam os recetores e os setores apoiados pelos financiadores, sobretudo na educação e ciência e no combate à exclusão social. Os recetores dizem também manter uma relação regular e próxima com quem financia.

Mas as necessidades, refere Maria Antónia Torres, mostram que “98% dos recetores dizem que o que mais precisam é financiamento, porque não existe suficiente”. Além do dinheiro, apontam o acesso a redes de contacto e a capacitação técnica como prioridades na obtenção de apoio.

Muitas organizações do terceiro setor continuam também dependentes de apoios anuais ou de projetos de curto prazo, o que dificulta o planeamento de médio e longo prazo. A medição de impacto surge como outra fragilidade, já que é considerada necessária por financiadores e financiados, ainda que seja pouco praticada. “Se não conseguimos medir os impactos dos apoios que damos, o risco desse apoio não ser renovado no próximo ano é elevado”, alerta a especialista.

Semear a confiança

A conferência colocou também a filantropia no quadro mais amplo da democracia e da confiança institucional. Pedro Calado, diretor do Programa Democracia e Sociedade Civil da Fundação Calouste Gulbenkian, lembrou que Portugal era, em 2022, o penúltimo país do World Giving Index. Com base no seu trabalho de investigação, a propósito de uma tese de doutoramento que está a preparar sobre o tema, estimou em 639 milhões de euros o valor das doações em dinheiro feitas em Portugal em 2024.

Ainda assim, diz, há uma distância entre a prática e a perceção. Muitos portugueses consignam 1% do IRS, doam roupa ou bens, mas não se identificam como filantropos. Para Pedro Calado, os dados já recolhidos e analisados mostram que há uma “clara correlação entre a prática filantrópica e a cidadania e a democracia”. A principal barreira, acrescentou, é a “desconfiança institucional”, o que torna mais importante a certificação das entidades e a medição de impacto.

Ricardo Garcia, secretário-geral do Centro Português de Fundações, concorda e reforça que “se a democracia está em risco, por inerência a filantropia também está em risco”. O responsável defende que o setor fundacional está “muito pujante”, embora reconheça limitações na forma como comunica. “Somos muito bons no que fazemos, e somos péssimos a comunicar. E quando comunicamos não o fazemos como setor”, afirma, defendendo que “o nosso dever como fundações não é esperar pela confiança, é promover a confiança”.

Já Tiago Pereira, CEO da Fundação Mendes Gonçalves, destacou a importância da proximidade com as comunidades e da transferência de conhecimento. A fundação, explicou, detém hoje 11% do grupo empresarial que tem marcas como a Paladin e procura garantir que a empresa mantém impacto na comunidade independentemente do seu futuro. “Os dados são absolutamente fundamentais”, sublinha.

Inês Sequeira, cofundadora e CEO da Rede Capital Social, insiste que a filantropia deve ser vista como complemento, e não substituto, das políticas públicas. “O Estado tem escala e legitimidade, enquanto a filantropia tem flexibilidade e maior tolerância ao risco”, considera. É essa capacidade de experimentação, diz, que pode ajudar a testar novas respostas para problemas sociais cada vez mais complexos, desde que haja mais dados, mais confiança e mais colaboração.

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