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A incógnita turca

O país que tem as chaves da ponte que liga a Europa à Ásia e ao Médio Oriente vai de novo a votos este Domingo. E vai a votos debaixo de uma tempestade de incertezas que não se esgotam num mero acto eleitoral. Que Turquia teremos, então, pela frente?

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Turkish Markets Seek Relief as Election Nears
Fernando Sobral fsobral@negocios.pt 31 de Outubro de 2015 às 15:00
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Winston Churchill descreveu, um dia, a Rússia como uma charada envolvida num mistério que fica dentro de um enigma. A Turquia hoje, para a Europa que não se compreende a si própria e que tem uma débil e confusa política externa (se é que a tem), poderia sintetizar-se na expressão do antigo líder britânico. Mas não deveria ser assim. A Turquia faz parte da NATO e é, desde há muito, um candidato a membro da União Europeia. Ponte entre o Ocidente e o Oriente, é uma potência que tem uma importância política, económica e militar que ninguém põe em causa. Em 2002, a chegada ao poder de Recep Tayyip Erdogan e do AKP (da Justiça e Desenvolvimento), partido considerado neo-islâmico, surgiu como o fim de uma era: a do kemalismo laico que, com a protecção das forças armadas turcas, foi preponderante desde o fim do Império Otomano.

Nos últimos anos, o crescimento económico juntou-se a uma maior propensão turca para alargar a sua zona de influência e para o país ser visto, na região, como um modelo democrático e islâmico. Mas a Europa cerrou a porta na cara da Turquia, impondo-lhe sucessivas condições para não integrar o "clube europeu". Erdogan, a partir de certa altura, redescobriu o seu espírito mais musculado. E a guerra na Síria, o colapso do poder da Irmandade Muçulmana no Egipto e outros temas afastaram Ancara dos Estados Unidos. A própria luta da Turquia contra o PKK, curdo, é um choque com a posição estratégica dos EUA na região, que assenta nos curdos como força militar terrestre contra o Estado Islâmico. E, por outro lado, na Europa sempre se viu com suspeita as relações turcas com o EI, porque o inimigo principal de Ancara é Bashar al-Assad. Os protestos do parque Gezi (Istambul), em 2013, criaram uma nova ruptura na sociedade turca. E contribuíram, decisivamente, para o nervosismo latente na mais cosmopolita sociedade turca face a tendências autocráticas de Erdogan, como se vê na imprensa. Que Turquia teremos, então, pela frente?

O país que tem as chaves da ponte
O país vai a votos novamente. O país que tem as chaves da ponte que liga a Europa à Ásia e ao Médio Oriente vive, também ele, debaixo de uma tempestade de incertezas que, no entanto, não se esgotam num mero acto eleitoral. Antes, encontra-se contaminado por conflitos militares que estão a desestabilizar toda a região, como aquele que o Estado turco trava contra a guerrilha do PKK curdo e a guerra civil na Síria. E pelo contínuo movimento de refugiados rumo à Europa e, sobretudo, à Alemanha. É por isso que a sua situação é um pêndulo: para onde a Turquia se deslocar levará também a uma alteração de todas as ideias e estratégias sobre os futuros equilíbrios, os desequilíbrios, nesta região tempestuosa e neste país que é uma balança de harmonia entre o Ocidente e o Oriente.

Na Turquia joga-se muito mais do que as eleições que decorrem a 1 de Novembro. E que, a acreditar nas sondagens de opinião, deixarão quase tudo igual face aos resultados de 7 de Junho. Que não permitiram ao presidente Erdogan armar-se de uma maioria que lhe garantisse um Estado mais presidencialista e que não garantiram qualquer maioria que pudesse formar Governo. Sem maiorias parlamentares, os turcos foram novamente chamados a votos. Poderá alguma coisa mudar agora? Poderá surgir uma maioria de um partido ou assistiremos novamente a conversas numa sociedade mais polarizada, especialmente após os atentados de Ancara, onde morreram mais de 100 pessoas?

O maior partido, o do presidente Erdogan, acredita que pode atingir a maioria. Aliás, foi por isso que se avançou para estas eleições. Além de tudo, o eleitor turco confronta-se com questões que tocam com a sua própria vida e segurança: porque é que o terrorismo voltou a surgir tão rapidamente? Porque é que a moeda, a lira turca, tem vindo a desvalorizar? E isso conta, eleitoralmente, para lá das ideias feitas nos centros de poder ocidental sobre o futuro da Turquia após estas eleições. Onde nem faltam teorias da conspiração algo credíveis, que têm a ver com o choque de opiniões da Turquia e dos EUA sobre o Estado Islâmico ou a forma como os turcos viram, desagradavelmente, a visita de Angela Merkel a Ancara.


Os protestos do parque Gezi, em 2013, criaram uma nova ruptura na sociedade turca. E contribuíram, decisivamente, para o nervosismo latente na mais cosmopolita sociedade turca face a tendências autocráticas de Erdogan.

Os dados apontam para um possível crescimento do AKP nas eleições, mas não o suficiente para garantir uma maioria. E os outros partidos poderão ter flutuações, para cima (o CHP) e para baixo (o HDP), mas continuando no Parlamento e impedindo uma maioria absoluta.

Jogar "aos três macacos"
Os atentados bombistas, o conflito contra o PKK e a guerra civil na Síria juntam-se à questão dos refugiados, que acabou por incendiar ainda mais as relações da Turquia com a União Europeia. Há poucos dias, Erdogan dizia, para uma plateia internacional em Ancara, que "o mundo inteiro virtualmente jogou 'aos três macacos' quando os direitos dos que apelaram pelos seus direitos no Egipto e aqueles que defendem a sua honra na Palestina foram esmagados. Onde está a democracia, onde estão os direitos e as liberdades?" Palavras duras e certeiras. A que acrescentou uma questão pertinente: "A democracia só existe para os poderes hegemónicos?" Talvez por isso a visita de Angela Merkel a Ancara tenha causado tanto mal-estar em toda a sociedade turca.

O jogo do gato e do rato relativo à entrada da Turquia na União Europeia sempre teve um opositor claro: a Alemanha. E Merkel já o disse publicamente várias vezes. Na ressaca da visita inusitada, a duas semanas das eleições turcas, Merkel foi também sovada pelo líder do principal partido da oposição, Kemal Kiliçdaroglu, do CHP (o Partido Republicano do Povo): "Dois milhões de sírios chegaram à Turquia. Querem seguir para Ocidente para conseguir um nível de vida melhor. E o que diz Merkel? 'Deixem os sírios ficar na Turquia. Dar-vos-emos dinheiro se os mantiverem aí'. Vamos dizê-lo, ela está a oferecer às claras um suborno à Turquia. Desaprovamos isso. A Turquia não é um país onde se constroem campos de concentração de estrangeiros e não deve sê-lo".

Intrigou, de resto, o adiamento da divulgação do relatório sobre o progresso das negociações para a entrada da Turquia na UE, que só será conhecido após as eleições. Mas esse é um problema cada vez mais quente: quer a Europa, ou não, a Turquia no seu seio? E a Turquia ainda quer entrar para uma entidade que parece não ter uma estratégia clara? A relação estabelecida por Merkel entre o controle de refugiados pela Turquia e a possibilidade de a UE fornecer "visas" aos turcos para entrarem no espaço Schengen causou repulsa. Tal como o dinheiro "oferecido".

As eleições poderão definir alguma coisa, especialmente numa sociedade mais polarizada onde a herança de Ataturk foi, nestes anos, desafiada por uma corrente (com apoio estatal) mais conservadora, islâmica e menos democrática. O jogo é claro: o Parlamento turco tem 550 lugares. Em Junho, o AKP conseguiu apenas 258, perdendo a maioria porque o pró-curdo HDP conseguiu 80 lugares. A isso juntaram-se os 131 do CHP e os 80 do MHP, nacionalista. Mas os quatro partidos não conseguiram criar uma solução governativa. Para estas eleições, o AKP mudou muitos candidatos, especialmente nas zonas onde se assistiu a um forte apoio aos pró-curdos do HDP. Para muitos, a solução para uma estabilidade a prazo da Turquia passa por uma "grande coligação". Mas será ela possível, com o extremar das tendências? Os resultados eleitorais e a evolução da luta na Síria e contra os curdos do PKK poderão dar uma resposta.


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