Bruno Pereira: A política, em vez de servir o homem, serve alguns homens
Bruno Pereira adoptou o heterónimo Senhor Vulcão e editou agora os discos “Canções do Bandido” e “As Flores do Bem”. Além da música, desenvolve projectos como a mostra de arte pública “Poster”, que está em Marvila e Xabregas.
Vivia em Pinheiro de Loures e, tal como muitos outros miúdos adolescentes dos anos 90, tinha uma banda de garagem. Bruno Pereira tocava bateria. Um dia, o vocalista faltou ao ensaio, e a irmã de Bruno, mais nova do que ele, tomou o microfone e deu força aos Atomic Bees. A banda portuguesa acabou no início do século, Rita Pereira, mais tarde Rita Redshoes, seguiu caminho na música, Bruno parou por ali.
Estudou Design, fundou a Labdesign, criou a editora de conteúdos Edit.Set.Go!, lançou a Magnetic Magazine e desenvolve projectos tais como a mostra de arte pública "Poster", que está em Marvila e Xabregas. Mas a sua música voltou a ser pública em 2013 com o disco "Montanha", uma mistura de "spoken word" e "folk rap". Bruno Pereira adoptou o heterónimo Senhor Vulcão e editou agora os discos "Canções do Bandido" e "As Flores do Bem", onde "o amor marialva e biltre se cruza com o amor distinto dos tempos de honra". Com edição limitada a 250 cópias, são discos de autor. Quase, ou mesmo, artesanais.
Vivi na Buraca, em Lisboa, num bairro que me fez crescer muito, eu era o "menino bem" num bairro de "bandidos", foi assim até aos 10 anos. Eu era o único que tinha vídeo, então os meus pais acordavam e tinham para aí uns 15 putos em casa, era brutal. Falo de putos com fome e com famílias desestruturadas. Os meus amigos snifavam sacos de cola e os meus pais nunca disseram "não te dês com essas pessoas", esses eram os meus amigos, que me protegiam quando sabiam que ia desatar tudo à facada. Jogávamos à bola com outros miúdos de bairros complicados e aquilo era tipo Sporting-Benfica, mas pior, acabava tudo à pedrada e à chapada. Cresci no meio de vidas complicadas, e ainda hoje trabalho com comunidades sempre que posso. Temos de cuidar dos nossos miúdos, um puto é uma esponja, se ele crescer num bairro complicado e se só conhecer exemplos complicados, essa vai ser a única realidade dele.
Aos 10 anos, fui para o meio do campo, para Pinheiro de Loures, eh pá, foi um contraste brutal, no início não gostei, fiquei sem amigos, depois adorei. Foram anos espectaculares, de liberdade pura. Eu e a minha irmã [Rita Redshoes] fazíamos grandes concertos lá em casa com raquetes de ténis e mascarados com óculos e fitas na cabeça, à "rock and roll". Passávamos tardes inteiras aos saltos no sofá a "rock and rolar". Como o meu pai [Carlos Pereira] era jogador profissional de futebol - jogou no Sporting, depois foi treinador e ultimamente foi adjunto do Paulo Bento -, viajava muito e trazia-nos LP, vinis. Estávamos sempre a ouvir música lá em casa. Rod Stewart, "Da Ya Think I'm Sexy?", era o que ouvíamos mais, mas também Joe Dassin, Bee Gees, Beatles, Demis Roussos.
Em Pinheiro de Loures, eu tinha uns amigos que tocavam, ouvíamos Pearl Jam e, na altura, não era preciso tocarmos muito para fazer uma banda, assim meio punk, desde que fizéssemos algum barulho. Começámos a tocar na minha garagem, eu estava na bateria, e formámos os Atomic Bees. A minha irmã entrou um pouco depois. Aliás, a história dela é muito engraçada, eu conto-a várias vezes. Ela passava a vida a ver os nossos ensaios, ela e as amigas. Uma vez, faltou o vocalista e diz-me ela: ó mano, posso cantar eu? E eu: ó malta, como é que é? Ela foi, abriu a goela e foi brutal. Superafinada, com um vozeirão e uma grande atitude "rock and roll". Entrou na banda e fizemos um percurso incrível. Éramos miúdos a tocar para milhares de pessoas, foi uma cena muito forte, "living the dream". A dada altura, tudo aquilo pedia um semiprofissionalismo, e já não dava.
Eu andei ali uns dez anos de luto, não peguei em nada de música, custou-me a limpar. Sim, tinha, e tenho, vergonha de cantar ao pé da minha irmã. Claro! Sempre fui um bocado aquele gajo meio desafinado e todo torto a cantar, o pessoal da banda até gozava - lá vens tu - porque eu queria ser o Eddie Vedder dos Pearl Jam. Mas continuei a escrever e um dia estava em casa, com uma stompbox feita a partir de uma caixa de charutos, com um microfone e uma guitarrinha pequenina, e comecei a fazer melodias simples, quase "spoken word". A minha irmã ouviu e disse - ó pá, isto é válido, é honesto. O The Legendary Tiger Man dizia - eh, pá, não sejas maricas. E, quando dei por mim, gravei um disco, o "Montanha".
As minhas letras têm muita ironia. Neste disco, acalmei-me um bocadinho, há mais canções de amor, de várias formas, que andam ali entre o cavalheiro do século XVIII e o patife do século XXI. Inspirei-me muito nas histórias dos meus avós, um deles tinha sete namoradas… Mas há sempre crítica social nas coisas que faço, no primeiro disco, sobretudo. A canção "Cara de Cu" diz tudo o que eu penso. Nunca acreditei muito na política (partidária). O problema da política é que, em vez de servir o Homem, serve alguns homens. Só a palavra "partido" remete para algo que não é uno, que parte ao meio, ou és de direita ou és de esquerda. Mas porque é que não podes ser tudo? O homem é tudo. Tu votas no A e os "bês" ficam de fora. Depois vêm os "bês" e os "ás" ficam de fora. Olhamos para os nossos líderes como uns paizinhos, mas isto é nosso, não podemos olhar para cima, temos de olhar para a frente, de igual para igual, temos de estar mais informados dos nossos direitos e saber as consequências das nossas acções.
Adoptei o (heterónimo) Senhor Vulcão, e há nele uma espécie de contradição propositada. A parte do "Senhor" tem que ver com aquela coisa mais antiga, senhorial, da honra e dos valores da amizade e da lealdade. Nas histórias que ouvia dos meus avós, a palavra tinha um valor muito grande, de compromisso, bastava a palavra para as pessoas confiarem umas nas outras. Hoje, a palavra foi substituída por contratos, subcontratos e cláusulas. Somos todos uns tangas, senão não precisávamos disso para nada. Por outro lado, a palavra tem um poder imenso, e se a soubermos dizer ou expor num poster ou noutro suporte, podemos mudar o mundo ou, pelo menos, podemos pôr uma série de pessoas a pensar de forma diferente. Sempre fui muito rebelde e a palavra "Vulcão" tem que ver com isso.
Faço tudo sozinho, toco quando quero, edito os discos quando quero, na quantidade que quero, no formato que quero. Crio o "fullpack" e assim consigo reunir uma série de coisas que gosto de fazer, como design, criatividade e direcção de arte. Sou designer de formação, tenho uma agência, a Labdesign, que fundei há 16 anos com dois colegas, e, mais tarde, criei a editora de conteúdos Edit.Set.Go!, que inventou a revista digital Magnetic Magazine. Ultimamente, formei [a unidade] Departamento depois de desenvolver um trabalho grande para a Immochan, empresa do Grupo Auchan, que tem os centros comerciais Alegro. Montámos um projecto chamado "Arte em toda a parte", em Setúbal. A nossa missão é criar projectos ligados à arte e criatividade e de acesso livre à população.
Neste momento, está a decorrer a mostra de arte pública "Poster", que envolve 20 artistas. É uma espécie de galeria a céu aberto. A minha ideia é levar a arte para a rua num formato supersimples. Faz-me lembrar a adolescência, eu e a minha irmã fazíamos posters em casa e, antes dos concertos, colávamos os cartazes na parede com vinagre, água e farinha… O poster tem um impacto brutal na cidade e ali, na zona de Marvila e Xabregas, está a surgir um "hype" criativo. Há todo um aspecto industrial que é sempre interessante para um artista - um criativo cria do nada e tem muito mais vontade de criar ou de recriar alguma coisa quando ela pouco existe ou quando existe de uma maneira que não é a final. E ali há coisas quase devolutas, há um lado despojado, deslavado e a cair. E está barato. Ou estava. Depois, os especuladores imobiliários chegam, depois abre um café, uma loja, um restaurante, as rendas sobem, os artistas têm de sair de lá, as pessoas têm de sair de lá. Por outro lado, os edifícios são recuperados. Mas porque é que ninguém trabalha o caminho do meio? Porque é que as pessoas que estão lá não podem lá ficar ao mesmo tempo que chegam outras? Falta o sentido humano da coisa.