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Tomás Wallenstein: Faltam-me muitos passos para ser adulto

Tomás Wallenstein é o vocalista dos Capitão Fausto, banda portuguesa que lançou este ano o seu 3º. álbum e vai estar no Festival O Sol da Caparica.

Bruno Simão
Lúcia Crespo lcrespo@negocios.pt 15 de Julho de 2016 às 14:30
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Tomás Wallenstein, Salvador Seabra, Manuel Palha, Domingos Coimbra e Francisco Ferreira são os cinco amigos do Capitão Fausto, banda portuguesa que lançou este ano o seu 3.º álbum. Chama-se "Os Capitão Fausto têm os dias contados". E tem os dias contados porque os dias deles, enquanto miúdos, estão mais ou menos contados. Estão a fazer contas, estão quase a sair de casa dos pais, estão a fazer escolhas. Crescer é mais ou menos isso. E isso está mais ou menos no novo disco, que vai ser tocado e cantado no festival O Sol da Caparica, no dia 13 de Agosto. Filho de músicos, o vocalista Tomás Wallenstein, 27 anos, escreve as letras da banda, que tem sub-bandas como Os Modernos, Bispo, El Salvador, e é um dos fundadores da Cuca Monga, um colectivo de gente a querer fazer música.

Tenho tido uma actividade dupla nos últimos anos. Estava a acabar o curso de Arquitectura e, ao mesmo tempo, tinha a banda com concertos todos os fins-de-semana. Apercebi-me de que teria de me comprometer com uma das actividades, não podia continuar no meio. A letra do "Morro da Praia" - "Perceber que aos 26 não posso mais empatar/ Assumo o compromisso deixo as nuvens entrar"… - tem precisamente que ver com isso. Mas, de alguma maneira, o curso de Arquitectura ajudou-me a perceber muitas coisas na música, ajudou-me a perceber, por exemplo, que uma obra tem de ter um gesto contínuo. E que há uma relação forte entre as disciplinas. Há muitos arquitectos ligados à música. Ou músicos ligados à arquitectura. Por exemplo, Iannis Xenakis, que trabalhou para o Le Corbusier, juntou estes dois mundos.
O Capitão Fausto estava a correr bem, era altura de me dedicar à música a tempo inteiro. De levar isto a sério profissionalmente. Aliás, todos nós, na banda, estamos em processo de sair de casa dos pais. Não antes de uma planificação financeira, com pés e cabeça, para tentar perceber como é que vamos viver o ano inteiro com despesas fixas estando a receber intermitentemente. Mas, não, agora não estamos a "empatar". Acho é que hoje as pessoas têm de estar em modo de gestação mais anos porque o mundo está muito competitivo. Se crescemos demasiado tarde? Não sei. Também acho que ficar adulto demasiado cedo tem consequências más. Uma pessoa que cresce muito cedo não aproveita a fase em que não tem de se conter e, se calhar, poderá, mais tarde, ter as chamadas crises de meia-idade. Se ser adulto é saber conter-se? Sem dúvida. Ou então é aprender a lidar com a frustração. Faltam-me muitos passos para ser adulto.
Digo isto várias vezes: foi, para nós, um privilégio podermos ter estado muito tempo a tocar sem ganhar dinheiro quando são tantos aqueles que, a dada altura, têm de se virar. No fundo, somos um produto de uma classe burguesa. Além de termos tido acesso a boas escolas, tivemos a "lata" de demorar mais tempo a fazer os cursos porque andámos com as nossas ocupaçõezinhas que, por acaso, hoje deram numa profissão, mas que podiam não ter dado. Foi um investimento de alto risco. Hoje está a dar frutos, mas há um grau de incerteza muito grande.

Ganhar dinheiro com música é "tricky". Não estou à espera de ganhar dinheiro a fazer música, estou à espera de ganhar dinheiro a tocá-la e, de alguma maneira, isso dá-lhe mais importância. Até acho que nunca houve tanta música ao vivo a acontecer. Por outro lado, hoje, algumas pessoas conseguem boa visibilidade sem estarem dependentes de máquinas promocionais. Basicamente, é preciso ser-se criativo. Nós criámos a Cuca Monga, que se auto-intitula uma editora, mas é algo mais parecido com um colectivo de gente a querer fazer música. Temos sub-bandas, editámos uns amigos, os Ganso, e inventamos coisas que vão equilibrando os altos e baixos do Capitão Fausto. Não podemos é ficar sentados à espera dos concertos. Enquanto conseguirmos fazer disto vida, muito provavelmente, nunca iremos ter um patrão na vida. Se é um sonho? Não. Mas poder dizer isto é um luxo. (risos)
Eu faço parte da chamada geração à rasca, faço parte da geração da instabilidade. Ao mesmo tempo, a instabilidade até pode ser estimulante. Acho até que esta geração pode ter um papel muito importante no futuro do país. Tudo isto parece, ou é, um bocadinho contraditório. Se, por um lado, somos uma geração que se "encosta" durante mais tempo, porque pode estar encostada ou porque é muito mais difícil descolar, por outro lado, o meu instinto diz-me que esta geração vai ser muito preponderante a médio e longo prazo.

Não tenho muitas memórias de ter ficado fascinado pela música de repente, nunca tive distanciamento suficiente para, um dia, me ter apaixonado pela música. Lá em casa, ouvia-se alguma música clássica, mas não havia assim uma contaminação tão grande. Como os meus pais passavam o tempo a tocar, a ensaiar ou a dar aulas, chegavam ao fim do dia e queriam descansar… Ouvi muita música, claro, fiz o Conservatório, toquei violino, comecei a ter bandas com amigos, alugávamos estúdios à hora. E acabei por perceber que não iria querer ser um intérprete ou um executante. Sempre gostei mais de inventar um bocadinho, sempre me fui inclinando para explorar outras coisas e foi nisto que deu.
Antes de formarmos o Capitão Fausto, éramos amigos. O Salvador, o Manel, o Domingos e o Francisco já tinham uma banda juntos, chamava-se IC19, como a estrada, eu tinha outras bandas. Conhecemo-nos no liceu, começámos a cruzar-nos, passávamos cada vez mais tempo juntos e começámos a fazer versões e a compor. Hoje temos um estúdio, temos a sorte de ter um espaço cedido por um amigo com o qual temos uma espécie de "gentlemen's agreement", ele usa o nosso material, nós usamos o espaço, e temos ali uma gestão comunitária muito democrática e colaborativa.
Se calhar, nós portugueses, enquanto colectivo, somos um bocadinho menos activos do que os povos dos países escandinavos, por exemplo. Há muito sol lá fora, há muitos dias por ano para ir à praia ou para estar em esplanadas, e a repetição dos comportamentos, ao longo dos anos, cria hábitos culturais. Por alguma razão, os povos dos países à volta do Mediterrâneo são assim, um bocadinho mais "sedentários". O meu pai contava uma história engraçada. Um português trabalhava na fábrica da Volvo na Suécia e, uma vez, pediu boleia a um colega sueco. Chegaram ao parque de estacionamento da fábrica, era muito cedo, ainda não estava ninguém, o colega estaciona longíssimo da porta. E o português - Então pá, somos os primeiros a chegar, tens um lugar à porta, porque é que não estacionas lá? O sueco - Claro que não, estacionamos lá ao fundo e quem chegar mais tarde pode estacionar mais perto para não se atrasar… Esta história diz muito. Nós não temos o instinto de pensar: o meu gesto vai contribuir para o bem-estar das outras pessoas, e eu estou à espera que as outras pessoas façam o mesmo por mim. Pelo contrário. Nós pensamos: eu vou defender-me porque a outra pessoa vai fazer o mesmo, eu não vou ser estúpido e ficar por baixo. São diferenças culturais. Aceito-as. E, uma vez mais, acho que tem que ver com a nossa inclinação natural para vivermos o prazer imediato. Lá está, estamos habituados a dar dois passos para estar na rua, muito confortáveis, a apanhar sol. 



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