O grande policial italiano

Giorgio Scerbanenco transformou o policial italiano através do seu olhar clínico sobre a cidade de Milão. "Uma Vénus Privada" é um livro perfeito.
Jornal de Negócios
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Fernando Sobral 18 de agosto de 2018 às 17:00

Giorgio Scerbanenco
Uma Vénus Privada
Lua de Papel, 216 páginas, 2018
Giorgio Scerbanenco, que morreu em 1969, é considerado o pai do policial italiano. E este "Uma Vénus Privada" é a primeira de quatro novelas que têm como protagonista Duca Lamberti, um médico de Milão que esteve preso durante três anos por ter praticado eutanásia. Depois de libertado, é contratado por um rico engenheiro que deseja travar os instintos suicidas de um filho alcoólico que acredita que matou uma jovem rapariga, porque a deixou entregue ao seu destino. E é aí que entra Lamberti, um homem inteligente, que tem de se defrontar com um mundo sinistro que envolve drogas e sexo. Não admira que diga a David, o filho do engenheiro: "Admita que eu estava a dormir e que, ao acordar, o fosse encontrar exangue. Tente compreender. Eu saí há pouco do cárcere, só há três dias, tenho às costas um delito que definiram como homicídio, com atenuantes ideológicas. Esta manhã encontravam-me aqui com um jovem morto, após uma noite passada com mulheres de vida fácil - os restos da orgia ainda lá estão em baixo. Você não conhece ainda a fantasia da imprensa e a desconfiança da polícia." Lamberti tem um estigma e sabe que vai ter de conviver e sobreviver a isso.
Mas todo este universo tem que ver com a própria via de Scerbanenco, nascido em Kiev em 1911, que trabalhou como jornalista em Roma, onde viveu. O seu fascínio por Milão tornou-se mítico através destas novelas policiais. Duca Lamberti é um solitário, desiludido com tudo e todos. O descalabro da sua vida profissional acaba por ser contundente. Porque está proibido de praticar medicina. Agora, Duca sabe algo que não consegue entender no início e que levou David às suas tendências suicidas. A investigação leva-o aos clubes nocturnos de Milão e ao seu mundo subterrâneo, que se esconde por baixo do seu lado glamoroso. Ali, jovens e belas mulheres são carne para canhão de marginais sem moral alguma.
Pelo caminho, Duca acaba por se tornar amigo de uma atraente jovem, Livia, que também tem boas razões para se querer vingar. Duca é um detective acidental, que considera que a esperança é uma espécie de vício secreto, e que acaba por ser um homem decente sempre tentado pelo Diabo. Busca alguma forma de justiça, mesmo que esta seja ténue. Aqui descobrimos sobretudo uma época em que Itália buscava o seu próprio destino, ainda à espera que cicatrizassem as feridas da guerra e os tempos de Mussolini. Eram os tempos da "Dolce Vita", com as pessoas, finalmente, a ficarem ricas. Mas Scerbanenco não acredita que este possa libertar a Itália dos seus fantasmas. Como jornalista, viu a pobreza e o mundo dos "gangsters" por trás da fachada da rica e conservadora cidade de Milão, expoente do Norte de Itália, e que gosta de dar lições de moral do Sul, muito mais pobre. No fundo, transmite-nos o mundo do caos italiano, que vai devorando a lei e a ordem, como se viria a verificar nas décadas seguintes. Este é um livro espantoso sobre o mundo negro italiano.

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