Livros A sátira de Karl Kraus

A sátira de Karl Kraus

Karl Kraus foi, na viragem do século XIX para o XX, uma das principais vozes de Viena. A forma como via o fim do império e a maneira como criticava a política e a imprensa impressionam pela lucidez.
Fernando Sobral 12 de maio de 2018 às 17:00
Karl Kraus
Aforismos
VS., 438 páginas, 2018

Na Viena do "fin de siècle", a política tinha-se tornado na menos convincente das artes. Talvez por isso Karl Kraus considerava que a vida merecia uma causa melhor. Na viragem do século XIX para o XX, não eram os políticos que conquistavam a atenção das classes altas: eram os actores, os músicos, os escritores e os pintores. O Império Habsburgo desintegrava-se a olhos vistos e, para Kraus, era evidente que a vida já não imitava a arte: parodiava-a. Por isso, devastando severamente a imprensa (meio utilizado pelo poder político para se afirmar), encontrava o alvo perfeito para ilustrar a decadência reinante.

Estes notáveis "Aforismos", agora editados entre nós, ilustram perfeitamente este estado de alma: "A missão da imprensa consiste em divulgar o espírito e, ao mesmo tempo, destruir a capacidade de assimilação". Dizia que os jornalistas escreviam porque não tinham nada para dizer, e só tinham algo para dizer porque escreviam.

Kraus editava e escrevia grande parte do seu jornal Die Fackel e utilizava a sátira para mostrar o colapso do Império e o caminho para a guerra. E, por isso, ligava a arte da representação a tudo o que se passava no universo social ou político. Segundo Kraus, era necessário alguma vigilância para se entender melhor a "mascarada" da vida moderna. Para o autor, o excesso de ideologias e de opiniões estava a transformar as pessoas: estas sofriam com as ideias dos outros e nunca mais recuperavam. As pessoas deixavam de ter uma ideia própria, contaminada por clamores sem fim.

O fim dos consensos era, para Kraus, o sinal de que o ideal de "mundo partilhado" estava a acabar. No seu lugar, estaria a ser imposto pela imprensa um mundo que os seus donos, os homens de negócios, desejavam. As "frases vazias" tornaram-se, a partir de certa altura, o seu maior alvo. E, por isso, os seus aforismos tentavam dar a volta a estas frases vazias, sem conteúdo. Escreve ele: "O império está edificado ao estilo das suas casas: inabitável, mas belo. Fez-se pela existência de arcadas, mas pode dizer-se com orgulho que se esqueceu das casas de banho. Somos finos: na nossa terra, é nas arcadas que cheira mal". A sátira era por isso uma força determinante para Kraus tentar lutar contra o evoluir de tudo aquilo que via corroer a vida e a alma das pessoas.

Com o tempo e com a situação a piorar cada vez mais, Kraus acabaria por enveredar por um caminho ainda mais perigoso: o de ver os sinais do fim do mundo. Talvez por isso, se tinha amigos, Kraus também tinha muitos inimigos. Mas isso era óbvio: a provocação era o seu meio para agitar as consciências e para descrever tudo o que de mal via à sua volta, em Viena, no Império e no mundo. Até a misoginia patente nestes aforismos acaba por ser divertida, porque é antiquada e inteligente. Kraus gostava de coleccionar inimigos, a começar pelo seu país de origem, a Áustria, e isso está espelhado neste volume, que fala de política, filosofia, imprensa e do papel do artista na sociedade. São frases pequenas e cirúrgicas. E, muitas vezes, mortais.






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