Garrafeiras mais dinâmicas precisam-se

Para que o sector agro-industrial evolua é necessário que os circuitos comerciais arrisquem na inovação que ocorre em todo o país, coisa que nem sempre acontece.
Jornal de Negócios
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Edgardo Pacheco 18 de agosto de 2018 às 13:00

Quem acompanha a evolução do sector primário português nas últimas décadas conclui que os produtores foram sempre mais dinâmicos do que os comerciantes. Bem sei que no país em que dois dos três homens mais ricos são comerciantes isso pode parecer contraditório, mas a única função destes é pegar na produção dos outros, aplicar uma margem interessante (com as manhas que se conhecem) e pagar o mais tarde possível. Por mais "clubes de produtores" criados por parte dos grupos de distribuição (dão sempre jeito em termos de comunicação e marketing), a inovação de produto parte do agricultor e não do comércio.
Se tudo isto faz parte das regras, não deixa de ser curioso constatar alguma apatia por parte das cadeias de distribuição e até do comércio tradicional para comunicar e valorizar a criatividade que existe na área agrícola e agro-industrial. No sector dos frutos e vegetais, dos queijos, dos vinhos ou dos azeites há criatividade que nunca mais acaba, mas a comunicação da mesma não é preocupação do comércio, porque entende que são os agricultores de pequena dimensão e descapitalizados que devem tratar do assunto.
Peguemos no caso dos azeites. Os olivicultores (pequenos, médios e grandes) deram passos de gigante em matéria de qualidade e quantidade nas últimas décadas. Mas quem valoriza tal esforço? Os concursos e pequenas cadeias de distribuição estrangeiras. Vá lá um tipo entrar num hipermercado ou supermercado português e fazer perguntas sobre azeite aos responsáveis da loja. É o bom e o bonito. Ainda estão, coitados, naquela fase em que o critério de recomendação é a maior ou menor percentagem de acidez.
Esta semana, entrei numa garrafeira de referência que anunciava à entrada a assessoria técnica de um escanção. Quando passei a porta, felizmente que ninguém me atirou à cara a fórmula tenebrosa do "posso ajudá-lo?", porque eu daria de imediato meia volta em retirada. E também ninguém veio atrás de mim perguntar se gosto mais do Alentejo ou do Douro. Menos mal.

Uma garrafeira deve organizar eventos para mostrar aos clientes a dinâmica criativa que ocorre em todas as regiões vitícolas. É isso que as deve distinguir dos hipermercados.  

Depois de uma vista de olhos às prateleiras, dois vinhos chamaram a minha atenção: o Edmun do Val 2009 (Alvarinho) e o Puro Talha 2015, da Adega José de Sousa. Como quem não quer a coisa, perguntei à funcionária se o Alvarinho de 2009 estaria em condições. Resposta: "Está sim, senhor." E acabou a conversa. Quanto ao vinho de talha, a senhora só sabia dizer que o mesmo tinha sido apresentado há uns meses numa feira de vinho. E fim de conversa.
Se estivesse numa grande superfície, ainda era como o outro. Mas numa garrafeira especializada exige-se mais. Exige-se que os funcionários tenham capacidade de contar uma história por cada marca que vendem. Afinal de contas, os produtores, que são o suporte do seu negócio, confiam neles.
Com as honrosas excepções da praxe, poucas são as garrafeiras que mostram dinamismo e criatividade na exposição e comunicação das marcas aos clientes. Limitam-se a encher prateleiras divididas por denominação de origem e esperar que alguém entre pela loja a pedir um conselho para uma garrafa destinada a um jantar disto ou daquilo em casa de um amigo.
Num país tão pequeno, mas com perfis de vinhos tão diferentes, uma garrafeira bem gerida deveria criar eventos temáticos de todas as formas e feitios, captando a atenção dos consumidores que gostam de vinhos que não se vendem na grande distribuição.
Se eu quiser comprar brancos com idade, conheço uma única garrafeira no país que apresenta as garrafas com informação detalhada e aconselhamento por parte dos funcionários. No resto do país, tais vinhos são colocados nuns cestos à entrada da loja em ambiente de saldos.
Mas vamos imaginar que, agora no Verão, queremos comprar espumantes. Haverá alguma garrafeira que dedique uma quinzena ao tema? Com provas, ligações gastronómicas ou conversas com enólogos? Se há, não conheço.
E imaginemos que, em Novembro, quando se abrem as talhas no Alentejo, queremos ir a uma garrafeira comprar vinhos de talha da colheita anterior. É uma desilusão porque, com sorte, encontramos um ou dois vinhos. Há dezenas de produtores, mas os senhores das garrafeiras não têm os seus vinhos porque a coisa ainda não tem interesse comercial.
E vamos continuar a imaginar que seria interessante uma garrafeira ter uma área só dedicada a vinhos Alvarinhos com idade, a vinhos naturais, a vinhos das ilhas... ou.... Puro tempo perdido.
Se um tipo disser ao dono de uma garrafeira para fomentar a procura, desafiar os consumidores, apresentar uma oferta diferente das garrafeiras dos hipermercados ou - como nalgumas cadeias de livros e música - apresentar regularmente uma selecção de vinhos dos próprios funcionários, ele reconhecerá, por educação, que temos razão, mas encolherá os ombros e voltará ao "business as usual". Como dizia o outro, é a vida. Infelizmente.

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