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O que espera os jovens licenciados no mercado de trabalho

Um diploma continua a abrir portas, mas já não chega. Experiência prática, competências digitais e capacidade de adaptação são hoje determinantes para transformar uma licenciatura numa carreira.

02 de Julho de 2026 às 16:57
As competências que o mercado procura são hoje diferentes
As competências que o mercado procura são hoje diferentes GettyImages

Concluir uma licenciatura já não significa, por si só, uma entrada automática no mercado de trabalho. Paradoxalmente, nunca houve tantas empresas a afirmar que têm dificuldade em recrutar talento e, ao mesmo tempo, tantos jovens qualificados que demoram meses a conseguir o primeiro emprego na sua área. A explicação não está na falta de vagas, mas no crescente desfasamento entre as competências que o mercado procura e aquelas que muitos recém-licenciados apresentam à saída da universidade.

Os números ajudam a compreender este aparente contrassenso. Segundo o Eurostat, a taxa de desemprego na União Europeia situava-se nos 6,0% em abril de 2026, refletindo um mercado de trabalho relativamente robusto. Contudo, entre os jovens com menos de 25 anos, essa taxa ascendia aos 15,1%, mais do dobro da média europeia. Em Portugal, os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que, em abril de 2026, a taxa de desemprego global era de 5,7%, enquanto entre os jovens atingia os 17,9%, revelando que o principal desafio continua a ser a entrada no mercado de trabalho.

Ao mesmo tempo, milhares de empresas continuam a afirmar que não conseguem encontrar os profissionais de que necessitam. O Flash Eurobarometer da Comissão Europeia revela que a escassez de talento afeta uma larga maioria das empresas europeias, independentemente da sua dimensão. Já as projeções do Cedefop indicam que, até 2035, a procura continuará a crescer sobretudo nas áreas das Tecnologias de Informação e Comunicação, da saúde, da engenharia, da construção e das atividades ligadas à transição digital e energética.

Como se explica o desemprego jovem e a falta de profissionais?

Para os especialistas, a resposta está menos na quantidade de licenciados e mais na adequação das competências às necessidades reais das empresas. “O mercado de trabalho português oferece hoje oportunidades significativas para os jovens qualificados, mas existem desafios estruturais e a realidade não é uniforme para todas as áreas”, afirma Érica Pereira, professional talent solutions director da .

Na sua perspetiva, existem oportunidades em número suficiente, mas muitas não conseguem responder às expectativas dos jovens. A responsável considera que “várias ofertas não são suficientemente atrativas e alinhadas com expectativas salariais e de carreira dos jovens qualificados”. Portugal vive, por isso, uma realidade aparentemente contraditória. “Se por um lado assistimos a uma escassez crónica de talento em setores técnicos altamente especializados, por outro, enfrentamos um fenómeno de sobrequalificação e fuga de talento em áreas onde o tecido empresarial tradicional não consegue reter ou remunerar o talento como no resto da Europa”, acrescenta.

Também Inês Paes de Vasconcelos, executive manager da , descreve um mercado dinâmico, mas cada vez mais seletivo. “O mercado mantém uma dinâmica positiva em várias áreas, sobretudo para perfis qualificados, mas continua a existir alguma seletividade. Jovens que conjugam competências técnicas com um perfil comportamental versátil, comunicativo e disponível para aprender tendem a integrar-se mais rapidamente.”

O mercado de trabalho português oferece oportunidades para os jovens qualificados, mas existem desafios estruturais e a realidade não é uniforme para todas as áreas. Érica Pereira, professional talent solutions director da Randstad Portugal.

O desafio do skills mismatch

Os estudos europeus demonstram que o principal obstáculo à empregabilidade não é a falta de formação superior, mas o chamado skills mismatch, ou seja, o desajustamento entre as competências disponíveis e aquelas que o mercado procura. Segundo o Cedefop, uma parte significativa dos trabalhadores europeus encontra-se sobrequalificada para as funções que desempenha e muitos jovens acabam por iniciar a carreira em áreas sem qualquer relação com a formação académica. Outros estudos demonstram igualmente que os estudantes que conciliam o ensino superior com experiência profissional na sua área conseguem integrar-se mais rapidamente no mercado de trabalho após a conclusão do curso.

É precisamente esta realidade que as empresas assinalam diariamente. “O mercado de trabalho português regista um aumento global dos níveis de escolaridade e de especialização académica, mas o ritmo da transição digital e da inovação industrial cria lacunas entre as competências desenvolvidas no ensino tradicional e as ferramentas exigidas pelas organizações”, explica Érica Pereira. Esta responsável destaca ainda que o problema não se limita às competências técnicas. Qualidades como capacidade de aprendizagem, pensamento analítico, resolução de problemas complexos, comunicação ou liderança assumem hoje um peso crescente nos processos de recrutamento.

Inês Paes de Vasconcelos considera que o desafio vai além da formação académica. Na sua opinião, “existe atualmente um desequilíbrio entre a oferta e a procura de talento especializado e um desajustamento entre formação académica e necessidades reais das empresas. O talento qualificado nem sempre está alinhado com as competências práticas, digitais ou específicas exigidas pelo mercado.”

Embora reconheça que muitas instituições de ensino superior têm vindo a reforçar a ligação ao tecido empresarial através de estágios, projetos e programas de colaboração, a responsável considera que a evolução do mercado é mais rápida do que qualquer plano curricular consegue acompanhar. Por isso, defende que a aprendizagem não termina quando termina o curso e que “será cada vez mais importante encarar a formação como um processo contínuo”.

Jovens que conjugam competências técnicas com um perfil comportamental versátil, comunicativo e disponível para aprender integram-se mais rapidamente. Inês Paes Vasconcelos, executive manager da Michael Page.

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