Legenda: Miguel de Castro Neto, diretor da Nova IMS, defendeu no Cascais Summit que as cidades inteligentes devem usar a tecnologia para melhorar a qualidade de vida e envolver os cidadãos nas decisões.
"A cidade inteligente não é a cidade tecnológica. É uma cidade que quer ser mais sustentável e resiliente, melhorar os serviços e a qualidade de vida de quem vive, trabalha e visita o espaço. Mas quer fazê-lo aumentando o envolvimento das pessoas no processo, melhorando os métodos de liderança colaborativa e trabalhando de forma interdisciplinar entre os diferentes sistemas da cidade”, disse Miguel de Castro Neto, diretor da Nova Information Management School (IMS), escola de gestão de informação, ciência de dados e inteligência artificial com 4200 alunos de 104 países, que tem um polo em Cascais e foi o keynote da conferência Cascais Summit, organizada pela Associação Empresarial do Concelho de Cascais (AECC).
Considerou que a construção das cidades inteligentes passa por tirar partido de todas as capacidades tecnológicas de que dispõe, desde a internet das coisas, a internet dos serviços, a internet dos dados e a internet das pessoas: “Tudo aquilo que os objetos hoje recolhem em dados e que produz a capacidade de obtermos informação alimenta, normalmente, a construção das cidades inteligentes em seis dimensões: o ambiente, a mobilidade, a economia, a governação, as pessoas e a qualidade de vida”, referiu Miguel Castro Neto.
Em termos de governação, lembrou que o orçamento participativo de Cascais chegou a ter mais votantes do que as eleições autárquicas e que, quando a aplicação Fix Cascais, com informação relativa ao concelho, foi apresentada, os servidores “vieram abaixo”. Recordou ainda o Centro de Competência, Coordenação e Controlo, apontado em Barcelona como exemplo global. “Se há uma rutura de águas numa rua, consegue-se desviar o trânsito, chamar a higiene urbana e a equipa de reparação, que já leva o equipamento necessário para resolver praticamente em tempo real”, afirmou Miguel de Castro Neto, concluindo que “a governação faz parte do ADN de Cascais e tenta envolver as pessoas neste sistema”.
O diretor da Nova IMS distinguiu eficiência de inteligência. Um sistema de iluminação pública com LED e sensores é eficiente, mas o passo seguinte é planear e alinhar a iluminação com a agenda de eventos e decidir a localização das luminárias em função de escolas, acidentes e criminalidade. Para isso, propôs ver o município como uma plataforma alimentada por um “data lake”, com dados dos sensores, dos sistemas e das pessoas, incluindo dados anonimizados de telecomunicações e pagamentos. “Durante muito tempo olhámos para o espelho retrovisor. Hoje, com a inteligência artificial, conseguimos prever o que vai acontecer e, a partir daí, construir cenários, simular e decidir a melhor opção”, afirmou Miguel de Castro Neto.
Paralisia de informação
Alertou para a “paralisia de informação”, ou seja, “dizemos que precisamos de dados, mas não sabemos qual é a pergunta que queremos fazer. Só após fazermos as perguntas é que sabemos de que dados precisamos”. Por outro lado, muitas vezes, “só após tomarmos as decisões e fazermos os investimentos é que começamos a medir. Temos de medir antes e depois para efetivamente conseguirmos perceber qual foi o impacto do que fizemos”.
Descreveu quatro etapas: analítica descritiva, ligação entre dimensões, simulação e IA generativa. Deu exemplos da cidade dos 15 minutos, avaliada casa a casa em vários municípios, e de um indicador de caminhabilidade que permite simular o efeito de aumentar em 25% as infraestruturas verdes ou a largura de um passeio. Os gémeos digitais, em que Cascais está “bastante avançada”, permitiriam testar a rentabilidade de um negócio, o consumo de água e energia de um edifício a partir do modelo BIM (Building Information Modeling) e consultas públicas nas quais o cidadão se posiciona “na varanda ou na janela e vê o que lhe vai acontecer”. Ligados a sensores, poderiam alertar para um evento climático extremo com seis horas de antecedência.
Sobre a inteligência artificial generativa, recusou o catastrofismo. “Nunca foi a tecnologia que matou pessoas, fomos nós que nos matámos uns aos outros utilizando a tecnologia”, sentenciou Miguel de Castro Neto. Considerou que Cascais “venceu um dos maiores desafios que persistem na maior parte dos territórios: o problema dos silos e da verticalização”. E rematou, sublinhando que “o que se pretende fazer não é sobre tecnologia. É perceber como este espaço aumentado de oportunidades pode criar novos produtos e serviços e levar-nos a fazer perguntas que ainda não foram feitas. Tudo isto só se faz com as pessoas e para as pessoas”.