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Três visões para o Cascais de 2036

“Todos os nossos projetos habitacionais têm uma resposta social, com serviços, comércio e espaços verdes”, disse Ana Rita Coimbra, que defendeu parcerias público-privadas e incentivos aos particulares.

22 de Outubro de 2026 às 14:42
D.R.

Legenda: O painel de debate “Viver Perto, Viver Melhor” contou com a participação de Ana Rita Coimbra, vereadora da Câmara Municipal de Cascais; Manuel Melo Ramos, diretor executivo da Brisa e CEO da Brisa Concessão Rodoviária; e Miguel Saraiva, CEO, founder e arquiteto da Saraiva + Associados, com moderação de Marta Rangel.

“O principal papel é deixarmos de pensar no território como fatias, áreas isoladas, e criar essas sinergias entre as várias atividades que têm de existir nos espaços, onde conseguimos ter habitação, comércio, serviços, espaços verdes e creches. Assim se respeita o conceito dos 15 minutos, porque as pessoas conseguem, no sítio onde coabitam, ter resposta para tudo”, defendeu Ana Rita Coimbra, vereadora da Câmara Municipal de Cascais, no debate “Viver Perto, Viver Melhor” inserido na primeira edição do Cascais Summit, um evento organizado pela Associação Empresarial do Concelho de Cascais. Reconheceu a diversidade de Cascais, com zonas semelhantes a uma cidade e áreas mais rústicas que devem ser preservadas, e apontou a necessidade de eixos transversais que liguem os vários polos.

“A arquitetura e o planeamento urbano são o esqueleto daquilo a que chamamos cidade dos 15 minutos”, afirmou Miguel Saraiva, CEO, Founder e Architect da Saraiva + Associados, mas considerou que o modelo assume que a maioria das pessoas pode trabalhar perto de casa ou em regime remoto. “Os trabalhadores da indústria, dos serviços essenciais, da limpeza, do comércio dependem de deslocações diárias”. Por isso, é um conceito “de certa forma, elitista, porque responde às necessidades daqueles que têm voz”.

Manuel Melo Ramos, diretor-executivo da Brisa e CEO da Brisa Concessão Rodoviária, sublinhou que “não há qualidade de vida sem mobilidade”, algo que a pandemia tornou evidente. A deslocação mais eficiente, explicou, combina transporte individual, coletivo e modos suaves, mas isso exige “transportes públicos competitivos, diretos, frequentes, com informação disponível e intermodalidade”. Quanto à geração Z, relativizou, considerando “que uma geração é uma circunstância de vida. À medida que a vida familiar se torna mais complexa, o carro volta a ser essencial.” Neste contexto, apontou a A5 como infraestrutura incontornável para reforçar a intermodalidade.

Resposta social na habitação

Na habitação, a vereadora Ana Rita Coimbra recordou o Programa Habitar Cascais, que prevê cerca de 3.600 habitações municipais até 2028. Garantiu que os projetos visam responder à classe média e não pretendem tornar-se dormitórios. “Todos os nossos projetos têm uma resposta social, com serviços, comércio e espaços verdes”, disse Ana Rita Coimbra, defendendo parcerias público-privadas e incentivos aos particulares. “Têm de ter a garantia de que também é rentável para eles. Haverá uma quebra na habitação de luxo e tem de existir equilíbrio na oferta”.

“O privado vai pela rentabilidade, porque é a sua função. O público vai pela parte social. A habitação só se resolve em massa com os dois lados casados. O público pode trazer o terreno, o privado o capital”, considerou Miguel Saraiva. Acrescentou que “o Estado constrói um hospital e não espera que dê lucro. Perante a urgência da habitação, a sociedade tem de estar disponível para investir, pela via do Estado”. Identificou a falta de terrenos como raiz do problema, num país em que refazer planos diretores municipais demora 20 a 25 anos.

Sobre a reabilitação, comparou os centros históricos a minas de ouro. “Por isso, não se pode esperar que resolvam o problema da habitação. Temos de ir, de forma programada, com planeamento de grande escala e boa arquitetura, para não ‘sovietizar’ a arquitetura pela massa que é preciso construir”, sugeriu Miguel Saraiva. As periferias devem merecer a mesma atenção, “para que as pessoas se revejam nelas e não tenham de vir ao centro para dizer que são de Cascais”. Lembrou ainda que o espaço público é “o único sítio onde o privado não pode atuar”, pelo que é onde o poder público deve concentrar esforços. 

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