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Como manter Cascais viva sem perder a memória

Verónica Leitão salientou a importância da comunicação e da procura do bem comum. Alertou que, se a acessibilidade falhar, “pode ser a loja mais fabulosa do mundo, mas vamos escolher os centros comerciais”.

22 de Outubro de 2026 às 14:41
D.R.

Legenda: O painel “Ruas com Vida e Identidade” contou com a participação de Francisco Kreye, presidente da Junta de Freguesia de Cascais e Estoril; Maria do Rosário Jacinto, do Atelier de Arquitectura Fragmentos; e Verónica Leitão, diretora da União de Associações do Comércio e Serviços, com moderação de Marta Rangel.

“Uma rua bonita não passa de uma rua bonita se não for vivida. Podemos ter a melhor loja do país, mas, se o espaço público não tiver cuidado e a iluminação noturna não estiver adequada, tudo fica comprometido”, salientou Francisco Kreye, presidente da Junta de Freguesia de Cascais e Estoril, no debate “Ruas com Vida e Identidade”, inserido na primeira edição do Cascais Summit, um evento organizado pela Associação Empresarial do Concelho de Cascais (AECC).

Definiu o papel da junta como “o primeiro órgão que deve fazer a auscultação e estar no terreno num trabalho de proximidade junto da população e, às vezes, num trabalho que é muito difícil, que se pressupõe uma intervenção de 360 graus”.

Entre as queixas mais frequentes, apontou os conflitos de vizinhança, do ruído às atividades menos lícitas em estabelecimentos vizinhos, e as “lojas de fachada”, padronizadas, que, disse, contribuem para a deterioração do comércio local. Foi por isso que a junta lançou uma petição pública que, segundo afirmou, já chegou ao ministro, com a proposta de passar o licenciamento zero para a competência do município.

Francisco Kreye sublinhou que nem a Junta nem a Câmara Municipal “vão conseguir chegar a todas as ruas, pracetas, avenidas, jardins que existem”. Por exemplo, em matéria de incentivos ao comércio tradicional, o alcance da Junta é muito reduzido. “O nosso principal papel é sermos a voz”, disse. Deu como exemplos a sinalização da venda e do consumo de álcool na via pública, o licenciamento zero e o combate às lojas de fachada e às lojas devolutas, defendendo que estas competências passem para o município. Referiu ainda as esplanadas e os copos descartáveis que depois não respeitam a higiene urbana.

Verónica Leitão, diretora efetiva da União de Associações do Comércio e Serviços, preferiu falar de “dificuldades” em vez de “queixas”. O maior problema, explicou, é que “nem todas as medidas são pensadas para quem vive e trabalha na cidade. Muitas são aplicadas a grandes empresas, quando quem está na loja são micro e pequenas empresas”. Alertou para o poder de decisão dividido entre juntas e câmaras. “A mesma rua pode ter esplanadas de um lado e não ter do outro, e um lado pode estar mais limpo do que o outro. É preciso comunicação e pensar no bem comum”, salientou Verónica Leitão. Se a acessibilidade falha, avisou, “pode ser a loja mais fabulosa do mundo, mas vamos escolher os centros comerciais”.

Ameaças ao comércio tradicional

Entre as ameaças ao comércio tradicional, apontou o online, as grandes superfícies e a falta de serviços de base, como farmácias, bancos ou mercearias. Verónica Leitão considerou que os pequenos comerciantes se sentem pouco apoiados e que a sucessão é um risco. “A maioria está na faixa dos 70 anos. Trabalharam uma vida inteira e, se não têm a quem deixar o negócio, o negócio perece”. Propôs a proteção e a eventual isenção de taxas para lojas com história, e um “match” com jovens empreendedores.

“Não é com a mudança de um único espaço que se muda a vivência de uma rua. Uma rua nunca terá vida se for monofuncional”, disse Maria do Rosário Jacinto, arquiteta da Fragmento, que apresentou o projeto Revir para a Rua Frederico Arouca, ou Rua Direita, como uma visão integrada. Defendeu que deve haver uma diversidade de usos, como o comércio, a restauração, os serviços e a habitação, atenção ao piso térreo, “a escala do peão”, e o objetivo de “permanência” e não de simples passagem. Reconheceu o desafio de uma promoção privada, já que “a rua não nos pertence na totalidade”, salientou Maria do Rosário Jacinto.

Na sua opinião, “fazer cidade é impossível sem memória. O tecido urbano carrega história. A memória tem de coexistir com transformação, senão todos os centros urbanos se tornam idênticos, com as mesmas marcas.” Citou como exemplo os quiosques de Lisboa, reconvertidos em esplanadas.

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