Legenda: O debate sobre “Os Negócios do Futuro” contou com a participação de Sandra Fazenda de Almeida, diretora-geral da APDC - Digital Business Community; António Mendonça, bastonário da Ordem dos Economistas; e Frederico Nunes, vereador da Câmara Municipal de Cascais, com moderação de Marta Dhanis.
“As regras que existiam até há dez anos, as tendências que considerávamos que se projetavam no futuro, já não são”, afirmou António Mendonça, bastonário da Ordem dos Economistas, no evento Cascais Summit, organizado pela Associação Empresarial do Concelho de Cascais (AECC). O professor catedrático do ISEG citou Keynes, que disse que “o difícil não é aderir às novas ideias, o difícil é escapar às antigas”. Sobre a inteligência artificial, foi direto: “Não tenho receio absolutamente nenhum. Entendo ser uma coisa ótima. Transforma os burros em menos burros e os inteligentes em mais inteligentes”.
Para Frederico Nunes, vereador da Câmara Municipal de Cascais, quem não acompanhar a tecnologia “vai ficar para trás”. Recordou os vinte anos da DNA Cascais, agência de empreendedorismo que apoiou novos empresários e levou mentoria às escolas, e sublinhou o salto recente. “Hoje, uma microempresa com cinco colaboradores tem acesso, através da inteligência artificial, a ferramentas que as empresas de há dez anos tinham com 30, 40 ou 50 pessoas”, afirmou Frederico Nunes.
Admitiu que ninguém sabe ao certo como serão as empresas daqui a dez anos, mas sublinhou ser preciso prepará-las: “dar as ferramentas atuais adequadas para que todos possam crescer ao mesmo ritmo”. Para Frederico Nunes, a digitalização “tem de ser pensada na totalidade do comércio”, com mapas interativos, lojas preparadas para venda online e zonas comerciais uniformizadas, num trabalho conjunto do município e do Estado.
Economia a duas velocidades
Para Sandra Fazenda de Almeida, diretora-geral da APDC - Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações, restaurantes, hotéis, clínicas e consultores continuarão a fazer falta. “Vamos precisar deles de uma forma diferente.” A diferença estará em quem incorporar tecnologia, dados e IA e em quem reinventar competências, porque “todos os nossos negócios são feitos por pessoas”.
Os números da Estratégia Nacional de IA mostram que apenas 4,4% das pequenas empresas utilizam IA, contra 18% das médias e 49% das grandes, e apenas 5,8% no comércio. Como as PME geram cerca de 67% do valor acrescentado e 76% do emprego, está criado um problema de competitividade. Mas a produtividade, defendeu, “é construída empresa a empresa, processo a processo”, porque uma tarefa que demorava três horas pode passar para cerca de vinte minutos.
O risco, alertou, é uma economia a duas velocidades, porque as pequenas empresas se sentem “desprotegidas e desorientadas” sobre por onde começar. Daí os programas de capacitação da APDC, que já chegaram a 2.100 pessoas, com demonstrações de ferramentas gratuitas para negócios tão simples como o de quem repara bicicletas. Um comerciante pode, por exemplo, cruzar a análise de caixa de um mês para perceber quem são os clientes, quando voltam e onde estão os picos de procura. A IA, resumiu, “veio democratizar o acesso à informação e à capacidade de realização de tarefas”.
António Mendonça sublinhou que, entre 1,6 milhões de empresas, mais de 98% são micro e pequenas: “Temos um problema de escala.” A IA pode auxiliar a resolvê-lo, mas exige cooperação. “Se não introduzirmos cooperação ao nível das empresas, não vamos conseguir fazer face aos desafios que temos pela frente.” Apontou seis oportunidades: inteligência como serviço, gémeos digitais da economia real, economia da longevidade, mercado de dados e conhecimento especializado, coordenação de sistemas complexos e IA na gestão do capital. Lembrou que a Europa ficou atrás dos Estados Unidos e da China por falta de escala e que a economia continua a existir porque existem pessoas, sendo a IA “um produto de criação da inteligência humana”.